n Afantasia: quando a mente não vê nem sonha imagens

Afantasia: quando a mente não vê nem sonha imagens

Afantasia: quando a mente não vê nem sonha imagens Foto: Marija Zaric no Unsplash

Você já fechou os olhos e tentou imaginar o rosto de alguém? Ou leu um livro e “viu” a cena na cabeça? Para a maioria, isso é natural. Mas para quem tem afantasia, essa capacidade simplesmente não existe. Curiosamente, mesmo sem “ver” nada acordados, muitos têm sonhos visuais vívidos.

Um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália, explorou esse fenômeno. Pesquisadores compararam os sonhos e a imaginação de pessoas com e sem afantasia, revelando que a mente humana é mais variada do que se imagina.

O que é afantasia e como ela afeta o dia a dia?

Afantasia é a incapacidade de formar imagens mentais voluntárias. Quem tem essa condição não consegue “ver” nada ao fechar os olhos e tentar visualizar. Não é falta de criatividade, mas uma diferença neurológica real.

No estudo, os pesquisadores Derek Arnold e Loren Bouyer, ambos afantásicos, compartilham suas experiências. Derek consegue “ouvir” mentalmente uma música, mas não sente cheiros ou texturas imaginados. Loren, por outro lado, tem uma mente silenciosa — nem sons nem imagens, mas sente movimentos e texturas nos sonhos.

Isso mostra que a afantasia não é uniforme. Existem variações: alguns não visualizam, mas têm imaginação auditiva; outros não têm nenhum tipo de sensação imaginada. Isso impacta desde a leitura (impossível “ver” os personagens) até a memória (dificuldade de lembrar rostos).

Na visão do MundoManchete, o mais impressionante é como essa condição é pouco conhecida. Muita gente vive a vida inteira achando que “ver com os olhos da mente” é só uma expressão — até descobrir que, para os outros, é literal.

Sonhos de quem não visualiza: o cérebro funciona diferente à noite?

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Uma descoberta intrigante do estudo é que muitos afantásicos têm sonhos visuais normais. Derek, por exemplo, sonha com imagens, sons e movimentos — mas nunca sente tato, paladar ou cheiro nos sonhos. Loren tem sonhos lúcidos, onde controla o enredo, mas sem imagens ou sons — apenas sensações de textura e movimento.

Isso levanta uma questão: se o cérebro consegue gerar imagens durante o sono, por que não consegue fazer o mesmo acordado? Uma hipótese é que, em alguns casos, o problema não é gerar a imagem, mas percebê-la conscientemente. O cérebro “vê”, mas a pessoa não sabe que está vendo.

Os pesquisadores testaram essa ideia com 84 afantásicos e 121 pessoas sem a condição. Descobriram que, para a maioria, o tipo de sensação imaginada durante o sonho corresponde ao tipo que têm acordados. Mas havia exceções — alguns afantásicos relataram não ter correspondência alguma.

Isso sugere que existem pelo menos dois grupos: um em que o cérebro até tenta gerar imagens, mas o mecanismo de percepção falha; e outro em que o cérebro simplesmente não consegue criar certos tipos de sensação, nem dormindo nem acordado.

Variedade escondida: nem todo mundo sonha igual

O estudo também revelou algo que pouca gente percebe: mesmo entre pessoas sem afantasia, os sonhos variam muito. 37% dos participantes disseram nunca sentir cheiros nos sonhos. 33% nunca têm sensações táteis. Isso significa que, quando você pergunta a alguém “como foi seu sonho?”, a resposta pode vir de experiências radicalmente diferentes.

Os pesquisadores encontraram uma relação clara: quem costuma sentir cheiros nos sonhos também tende a imaginar o cheiro da comida quando pensa no jantar acordado. Ou seja, o “estilo” de imaginação da pessoa é consistente — tanto de dia quanto de noite.

Para o brasileiro comum, isso pode explicar por que algumas pessoas lembram dos sonhos com detalhes cinematográficos e outras só se lembram de “ter sonhado alguma coisa”. Não é questão de memória — é questão de como o cérebro de cada um constrói a experiência.

O que isso significa para tratamentos e educação?

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A descoberta tem implicações práticas importantes. Técnicas de visualização são usadas em psicologia para tratar ansiedade, fobias e até dor crônica. Se uma parte da população simplesmente não consegue visualizar, esses tratamentos podem ser ineficazes para elas.

Na educação, professores frequentemente pedem que as crianças “imaginem uma cena” ou “visualizem um problema”. Mas quantas delas realmente conseguem fazer isso? O estudo sugere que a proporção pode ser maior do que se imagina — e muitas crianças podem estar sendo avaliadas por uma habilidade que simplesmente não têm.

Na visão do MundoManchete, falta divulgação. Se você nunca ouviu falar de afantasia, não está sozinho. Mas entender que existem diferentes formas de pensar e imaginar pode mudar a forma como ensinamos, tratamos e até nos relacionamos.

Os pesquisadores planejam agora investigar as bases neurais dessas diferenças, usando exames de imagem para entender por que alguns cérebros “veem” e outros não.

Se você suspeita ter afantasia, saiba que não é um problema — é apenas uma diferença. Conversar com outras pessoas sobre como elas “imaginam” as coisas pode ser revelador. Para pais e professores, vale a pena considerar que nem toda criança visualiza naturalmente, e adaptar métodos de ensino pode fazer diferença.

Se você faz terapia baseada em visualização e sente que não funciona, converse com seu psicólogo sobre alternativas. Existem outras abordagens, como técnicas baseadas em palavras ou sensações corporais.

E, acima de tudo, lembre-se: a mente humana é mais diversa do que a gente supõe. O que é óbvio para você pode ser completamente estranho para outra pessoa — e isso não é defeito, é variedade.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Afantasia é uma doença?

Não. Afantasia é uma variação neurológica, não uma doença ou deficiência. Pessoas com afantasia têm cérebros que funcionam de forma diferente, mas isso não afeta a inteligência, criatividade ou capacidade de aprendizado. Muitos artistas, escritores e cientistas têm afantasia e levam vidas normais.

Como saber se tenho afantasia?

O teste mais simples é fechar os olhos e tentar visualizar uma maçã. Se você não consegue “ver” nada — nem forma, nem cor, nem textura —, pode ter afantasia. Existem questionários online, como o VVIQ (Questionário de Vivência de Imagens Visuais), que ajudam a identificar. Mas lembre-se: só um profissional pode diagnosticar formalmente.

Afantasia tem cura ou tratamento?

Não há “cura” porque não é uma doença. Algumas pessoas relatam que conseguem desenvolver alguma capacidade de visualização com treino, mas não há garantia. O importante é entender que a afantasia não impede uma vida plena — apenas significa que seu cérebro processa imagens mentais de forma diferente.

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Tags: afantasia, sonhos, imaginação, neurologia, mente humana


Fonte Original: g1.globo.com