Imagine ter 20 anos e já comandar um set com indicados ao Oscar. Essa é a realidade do americano Kane Parsons, que nesta quinta-feira (28) estreia Backrooms: Um não-lugar nos cinemas brasileiros. O filme de terror, distribuído pelo badalado estúdio A24, tem Chiwetel Ejiofor (12 anos de escravidão) e Renate Reinsve (Valor sentimental) no elenco e chega embalado por uma projeção de arrecadação entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões só no primeiro fim de semana nos Estados Unidos.
Para um longa independente, é um número que pode bater recordes. Mas o que torna o caso ainda mais fora da curva é a origem do diretor: um youtuber que, aos 16 anos, criou sozinho uma série de vídeos sobre a lenda urbana dos “backrooms” — aquelas salas amareladas, sem fim, que assombraram fóruns da internet. Em dois anos, o garoto passou de modelagem 3D em casa a uma estreia global.
Do quarto para Hollywood: como um vídeo de 2022 gerou um fenômeno
O primeiro curta de Kane Parsons, publicado em 2022, acumulou 20 milhões de visualizações em apenas 14 dias. Hoje, são 78 milhões de views, e a série completa já tem 22 episódios — alguns com menos de dois minutos, outros com mais de 45, mas quase todos na casa dos milhões de visualizações. A estética, uma imitação de câmera de videocassete, disfarçava as limitações de um adolescente que usava programas de modelagem 3D e pedia ajuda aos amigos para as cenas iniciais.
O que veio depois foi um tsunami de e-mails de produtores. “Eu era muito cético”, contou Parsons ao g1. “Porque não sabia nada dessas pessoas, e não conheço nada da indústria.” Com apoio de produtoras ligadas a James Wan (Invocação do Mal) e Shawn Levy (Deadpool e Wolverine), ele desenvolveu um roteiro com Will Soodik e bateu na porta da A24 — estúdio que já lançou terrores cultuados como Hereditário e A Bruxa, e vencedores do Oscar como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.
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Mas afinal, o que são essas ‘salas dos fundos’ que tanto assustam?
Para quem não frequentou os cantos mais estranhos da internet, o fenômeno começou em 2019 com uma simples foto postada em um fórum anônimo: uma sala de escritório com papel de parede amarelo, carpete e uma iluminação que parecia não pertencer a lugar nenhum. O desconforto que a imagem causava gerou uma mitologia coletiva: as “backrooms” seriam um espaço extradimensional acessado por quem “sai da realidade” sem querer, um labirinto infinito de salas vazias, levemente corporativas, onde não há saída.
Kane Parsons não apenas vestiu essa lenda com narrativa, como também criou um universo ao redor dela. No filme, o dono frustrado de uma loja de móveis (Ejiofor) entra nesse não lugar e precisa enfrentar o desconhecido. A escolha de atores do calibre de um indicado ao Oscar traz um peso dramático raro para o terror juvenil. “Eu sei como construir esse mundo”, diz Parsons. “Estou muito familiarizado com ‘Backrooms’ e definitivamente não tenho nenhum tipo de confusão criativa.”
US$ 50 milhões na estreia: o tamanho do impacto para o estúdio A24
Diferente de grandes blockbusters, o cinema independente vive de acertos cirúrgicos. A A24, fundada há pouco mais de uma década, construiu sua reputação com filmes de orçamento contido e alto retorno. Hereditário (2018), por exemplo, custou US$ 10 milhões e levou US$ 80 milhões nas bilheterias globais. Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), US$ 14 milhões de orçamento e mais de US$ 140 milhões arrecadados.
Backrooms tem potencial para se tornar o maior lançamento da história do estúdio em um fim de semana. As projeções de US$ 40 a US$ 50 milhões não só superariam números de outros terrores recentes como Obsessão (que custou menos de US$ 1 milhão e já fez US$ 90 milhões no mundo), como consolidariam uma tendência: o público quer narrativas que dialoguem com a cultura digital de forma direta, sem filtros.
Na visão do MundoManchete, o sucesso esperado de Backrooms não é fruto apenas do hype online — ele sinaliza que os grandes estúdios podem perder cada vez mais espaço para produtoras ágeis que entendem a linguagem de quem cresceu assistindo YouTube.
De Markiplier a Kane: a nova safra de cineastas que veio da internet
Parsons não está sozinho. Ele se junta a uma lista crescente de criadores que fizeram a ponte entre o YouTube e as telonas. David F. Sandberg começou com curtas de terror na plataforma antes de dirigir Shazam!. Os australianos Danny e Michael Philippou saíram do canal com esquetes e efeitos especiais para realizar Fale Comigo (2022), terror elogiado que também foi distribuído pela A24 e arrecadou US$ 92 milhões. Mais recentemente, Curry Barker surpreendeu a indústria com Obsessão, feito com orçamento minúsculo e retorno estratosférico. Mark Fischbach, o Markiplier, foi além: financiou, dirigiu e estrelou Iron Lung: Oceano de Sangue, embolsando US$ 50 milhões em 2026.
Para Kane Parsons, a tendência não é tanto sobre o YouTube em si, mas sobre a necessidade de se expor online. “Não existe vaga para todo mundo que queira fazer algo em Hollywood”, diz. “Então, se você quer conseguir um acordo com um estúdio mais conhecido, ou distribuir um filme, não é como se pudesse apenas estalar os dedos.” A vitrine digital se tornou a única maneira realista de furar a bolha da indústria.
O que o fenômeno ‘Backrooms’ ensina para criadores de conteúdo no Brasil
O caso de Kane Parsons tem lições práticas para brasileiros que produzem vídeos no YouTube ou TikTok. Primeiro: a qualidade da ideia importa mais do que o equipamento. O primeiro curta foi feito com poucos recursos, mas capturou uma mitologia que já estava viva na cultura online. Segundo: a persistência em um universo próprio — Parsons passou dois anos construindo capítulos e arcos narrativos — cria uma audiência fiel que pode se tornar a base de um projeto maior.
No Brasil, onde o mercado audiovisual enfrenta desafios de financiamento, a rota do YouTube para o cinema ainda é tímida. Porém, com plataformas como YouTube Shorts e TikTok expandindo o alcance, jovens criadores têm mais chance de serem notados. O exemplo de Backrooms mostra que a barreira geográfica pode cair se a história for forte o suficiente. “Se você quer ser visto, tem que colocar suas coisas online”, resume Parsons.
A pergunta que fica é: quantos talentos brasileiros podem estar a um clique de distância de repetir esse feito? E o que a nossa indústria pode fazer para não perder essas vozes para Hollywood?
FAQ: Backrooms e o novo cinema de terror
1. ‘Backrooms’ é baseado em uma história real?
Não. Trata-se de uma “creepypasta” — termo usado para lendas urbanas nascidas e disseminadas na internet. Tudo começou com uma foto de uma sala vazia postada em 2019, que inspirou usuários a criar narrativas assustadoras em fóruns. Kane Parsons transformou esse imaginário coletivo em uma série de vídeos e, agora, em um filme.
2. O filme é uma continuação da série do YouTube?
O diretor considera o longa como uma espécie de continuação ou expansão de sua obra original, mas a trama é independente o suficiente para ser compreendida por quem nunca viu os vídeos. A ideia, segundo ele, era encontrar uma versão que funcionasse tanto para novos públicos quanto para fãs antigos.
3. Qual a classificação indicativa de ‘Backrooms: Um não-lugar’?
Embora a classificação oficial no Brasil ainda não tenha sido divulgada amplamente, o filme é de terror psicológico com elementos de suspense, e provavelmente será recomendado para maiores de 14 ou 16 anos, seguindo o padrão de produções do estúdio A24. Verifique a classificação próxima à data da sessão.
O que você deve fazer com essa informação
Backrooms: Um não-lugar estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026. Se você é fã de terror ou quer entender por que a internet está moldando o cinema atual, vale a compra do ingresso. Para criadores de conteúdo, o filme é um estudo de caso: um adolescente sem contatos, apenas com uma ideia e uma conexão de internet, conseguiu furar a bolha de Hollywood. A dica do MundoManchete é: se você tem uma história que parece grande demais para um vídeo do YouTube, talvez ela seja exatamente o que o cinema precisa.
Mais do que consumo, o momento pede observação. O cinema independente está se reinventando com jovens que falam a língua nativa da internet — e o Brasil não está fora desse jogo.
Tags: Backrooms, Kane Parsons, terror, A24, cinema 2026, YouTube
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