Em meio à maior crise da história do Banco de Brasília (BRB), a governadora Celina Leão (PP) responsabilizou o antecessor, Ibaneis Rocha (MDB). Em entrevista ao GloboNews Mais, Celina afirmou que a gestão anterior errou ao nomear Paulo Henrique Costa para a presidência do banco, sendo o próprio Ibaneis o responsável pela escolha. A declaração acirra os ânimos em um ano eleitoral e coloca em xeque a governança da instituição financeira, que acumula um prejuízo estimado em mais de R$ 1,2 bilhão com operações de crédito duvidosas e exposição ao Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Para o brasileiro comum, a crise do BRB não é apenas um escândalo político: o banco é um dos maiores financiadores de habitação popular no DF e responde por parcela significativa dos empréstimos consignados de servidores públicos locais. Se o banco quebrar ou precisar de socorro, o contribuinte pode acabar pagando a conta.
O diagnóstico de Celina: erros de gestão e ‘mania de megalomaníaco’
A governadora não poupou críticas ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, preso em novembro de 2025 pela Polícia Federal na operação Compliance Zero. Celina o classificou como um ‘desafeto’ pessoal e disse que ele tinha ‘mania de megalomaníaco’. A declaração ganha peso porque Celina conviveu com Costa durante boa parte do governo Ibaneis — ela foi vice-governadora desde 2023 e só assumiu o cargo máximo do Executivo local em abril de 2026, quando Ibaneis deixou o posto para tentar uma vaga no Senado.
Segundo Celina, Costa patrocinava corridas de carro fora do Brasil, o que indica uma gestão ‘muito longe daqui’, ou seja, desconectada da realidade do Distrito Federal. A fala ecoa investigações da Polícia Federal que apontam uso de recursos do BRB para patrocínios esportivos no exterior sem contrapartida clara. Na visão do MundoManchete, o episódio expõe um problema recorrente em estatais brasileiras: a nomeação de dirigentes por critérios políticos, e não técnicos. Enquanto o governo Ibaneis tentava projetar o BRB nacionalmente, os controles internos foram deixados de lado.
Compliance fraco e diretores de ‘confiança’: a receita do desastre
Outro ponto levantado por Celina foi a falha no compliance do BRB. Ela afirmou que, durante a gestão Costa, o banco operava com apenas quatro ou cinco diretores nomeados, em vez dos nove ou dez previstos. A estratégia, segundo ela, era clara: manter um círculo restrito de pessoas para concentrar as decisões e evitar questionamentos. ‘Nós temos, por exemplo, nove a 10 diretores [no BRB]. Eram nomeados quatro ou cinco, para ele [Costa] ter um controle maior ali das decisões’, disse a governadora.
Esse modelo de gestão facilitou operações arriscadas com o Banco Master, que resultaram em calotes milionários. A última vez que um banco estatal brasileiro passou por crise semelhante foi com o Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj) nos anos 1990, que acabou privatizado. No caso do BRB, a União já sinalizou que não vai socorrer o banco, o que torna a recuperação ainda mais urgente. Para o cidadão comum, a lição é clara: quando o compliance é tratado como burocracia e não como proteção, o dinheiro público vira combustível para aventuras empresariais.
As medidas de recuperação: auditorias internacionais e troca de todos os superintendentes
Desde que assumiu o governo, Celina Leão implementou uma série de mudanças no BRB. Ela trocou todos os superintendentes e diretorias do banco, contratou auditorias internacionais e firmou um acordo com o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar recuperar os ativos perdidos. As auditorias, segundo ela, já descobriram ‘vários crimes’ que foram denunciados pela imprensa e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
A pergunta que fica é: quanto tempo levará para o banco voltar a operar normalmente? Especialistas consultados pelo MundoManchete estimam que o processo de saneamento pode levar de 18 a 24 meses, dependendo da devolução dos recursos desviados e da renegociação das dívidas. Enquanto isso, servidores públicos e mutuários do BRB podem enfrentar dificuldades para obter novos financiamentos. A governadora garante que o banco não vai quebrar, mas a confiança dos correntistas e investidores ainda está abalada.
Gênero e capacidade de gestão: a resposta de Celina às críticas
Em um trecho da entrevista que repercutiu nas redes sociais, Celina Leão abordou a questão de gênero. Ela afirmou que, por ser mulher, algumas pessoas duvidaram de sua capacidade de resolver a crise. ‘Até pelo fato de sermos mulheres, as pessoas acreditavam que a gente não daria conta de resolver situações graves como essa. Eu acho que problemas estão aí para serem resolvidos. A minha condição de gênero não me tira nada da capacidade de resolver um problema, assim como um homem’, declarou.
A fala ecoa um debate mais amplo sobre a presença feminina em cargos de comando — especialmente em áreas tradicionalmente masculinas, como o sistema financeiro. Dados do IBGE mostram que apenas 29% dos cargos de diretoria em bancos brasileiros são ocupados por mulheres. No setor público, o percentual é um pouco maior, mas ainda longe da paridade. Na visão do MundoManchete, a gestão de Celina será julgada pelos resultados, não pelo gênero. Até agora, as medidas tomadas são tecnicamente corretas, mas o tempo dirá se serão suficientes.
O que esperar do BRB nos próximos meses
A crise do BRB não é apenas um problema do Distrito Federal. O banco tem participação relevante em operações de crédito consignado para servidores públicos de todo o país, além de financiar obras de infraestrutura local. Qualquer desdobramento negativo pode afetar a confiança no sistema financeiro como um todo. A boa notícia é que o BRB continua operando normalmente para os clientes — saques, pagamentos e transferências não foram interrompidos. Mas novos empréstimos estão mais restritos, e as taxas de juros podem subir para compensar o risco.
Para quem tem investimentos no banco ou depende dele para financiar a casa própria, a recomendação é acompanhar de perto os próximos balanços. A auditoria internacional contratada pelo governo deve apresentar um relatório completo até o final de agosto. Até lá, a expectativa é de que novas revelações sobre o rombo apareçam. O que está em jogo não é apenas a saúde financeira de uma estatal, mas a credibilidade da gestão pública no Distrito Federal.
Perguntas frequentes sobre a crise do BRB
O BRB pode quebrar?
Não há risco iminente de quebra. O banco tem liquidez suficiente para honrar seus compromissos de curto prazo, e o governo do DF já tomou medidas para estancar as perdas. No entanto, se as investigações revelarem um rombo maior do que o estimado, o banco pode precisar de capitalização — o que, em última instância, pode recair sobre o contribuinte.
Meu dinheiro no BRB corre risco?
Não. O BRB é uma instituição financeira sólida, com mais de 60 anos de história, e está sob supervisão do Banco Central. Os depósitos até R$ 250 mil são garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para valores acima disso, o risco é maior, mas a chance de perda é remota, desde que o banco não entre em regime de intervenção.
O que vai acontecer com os envolvidos na operação Compliance Zero?
Paulo Henrique Costa e outros ex-diretores do BRB respondem a processos criminais e administrativos. Eles podem ser condenados a prisão e multas, além de terem que devolver os recursos desviados. O acordo com o STF mencionado por Celina Leão visa justamente acelerar a recuperação desses valores.
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O que você deve fazer com essa informação
Se você é cliente do BRB, mantenha a calma e evite saques em massa — isso só pioraria a situação. Acompanhe os relatórios das auditorias independentes e fique atento às comunicações oficiais do banco. Se você é servidor público ou tem crédito consignado, verifique se as parcelas estão sendo debitadas normalmente. E, acima de tudo, cobre dos seus representantes políticos uma gestão mais transparente e técnica das estatais. A crise do BRB é um alerta para todo o país: quando o compliance é tratado como letra morta, o prejuízo é de todos.
Tags: Celina Leão, Ibaneis Rocha, BRB, Banco Master, crise bancária, compliance, Distrito Federal, governo DF, operação Compliance Zero
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
