Brasil e Japão se enfrentam nesta segunda-feira (29) pela Copa do Mundo de 2026, em partida válida pelas oitavas de final. O duelo, marcado para as 14h (horário de Brasília) nos Estados Unidos, já mobiliza torcedores brasileiros que, nas redes sociais, resgatam músicas que fazem referência ao país asiático. O fenômeno não é novo: sempre que a Seleção enfrenta o Japão, hits como “Ariga Tchan” e “Passinho do Japonês” voltam a circular, gerando memes e nostalgia.
Na visão do MundoManchete, essa relação musical entre Brasil e Japão revela como a cultura pop brasileira historicamente se apropriou de elementos orientais de forma lúdica e, muitas vezes, estereotipada. Mas o que essas músicas dizem sobre o imaginário nacional? E como elas se conectam com o futebol? A seguir, relembramos os principais hits e analisamos seu impacto.
Por que o Brasil canta o Japão? A história por trás dos hits
A relação musical entre Brasil e Japão não começou com a Copa de 2026. Desde os anos 1990, artistas brasileiros incorporam palavras e referências japonesas em suas letras, muitas vezes misturando ritmos como axé, funk e pagode. O fenômeno reflete a presença da comunidade nipônica no Brasil — o país abriga a maior população de descendentes de japoneses fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de pessoas, segundo o IBGE.
No entanto, o uso de termos como “arigatô” e “sayonara” nem sempre foi preciso. Muitas músicas misturam elementos de várias culturas asiáticas, gerando críticas de apropriação cultural. Apesar disso, o público brasileiro abraçou esses hits como parte da cultura popular, e eles voltam à tona em momentos como este, em que a Seleção enfrenta o Japão em um jogo decisivo.
Para o antropólogo Carlos Alberto Dória, especialista em cultura brasileira, “essas músicas são um reflexo da forma como o Brasil enxerga o Oriente: com curiosidade, humor e, muitas vezes, um certo exotismo. É uma relação que mistura admiração e estereótipo, mas que também revela a capacidade brasileira de incorporar influências externas de forma criativa”.
“Ariga Tchan”: o hit que ensinou japonês aos brasileiros
Lançada em 1998 pelo grupo baiano É o Tchan, “Ariga Tchan” é provavelmente a música mais lembrada quando o assunto é Brasil e Japão. A faixa misturava axé com expressões japonesas como “arigatô” (obrigado) e “sayonara” (até logo). O clipe, que mostrava duas crianças japonesas tentando ligar a TV para assistir ao grupo, virou febre nacional.
A dança, simples e coreografada, era reproduzida em festas e programas de TV. Sheila Mello, ex-dançarina do grupo, publicou um vídeo nas redes sociais às vésperas do jogo, reproduzindo a coreografia. Na legenda, escreveu: “E eu tenho certeza de que, para muitos brasileiros, o primeiro ‘hino japonês’ que aprenderam foi o Arigatchan do É O Tchan”.
O refrão é marcante: “A dança é fácil, não tem bicho papão / Vem lá da Ásia, vem das bandas do Japão / O latino-americano, o Tchan do Brasil / Chega ensinando pra quem nunca viu”. A música, que completa 28 anos em 2026, continua viva na memória afetiva dos brasileiros e é uma das mais compartilhadas nas redes sociais durante a Copa.
“Japonesa” e “Melô do Dragon Ball”: funk e pagode com sotaque oriental
Em 2005, o grupo carioca de funk Os Magrinhos lançou “Japonesa”, uma faixa que descrevia uma mulher “que veio lá do Japão para abalar aqui no Brasil”. A música, parte do DVD “Furacão 2000: Twister”, acumula cerca de 700 mil visualizações no YouTube. A letra, simples e direta, reflete o estilo dos bailes funk da época, com versos como “Ela é muito bonita, podes crer que ninguém viu”.
Já em 2015, a banda baiana Kamikaiser apostou na “Melô do Dragon Ball”, inspirada no anime japonês de mesmo nome. A música misturava pagode baiano com referências aos personagens do desenho, como Goku e Super Sayajin, e versos de duplo sentido: “Que eu vou botar no seu Goku ku ku / Porque eu sou Super Sayajin jin jin”. A faixa, composta por Beca Nascimento, de Feira de Santana, fez sucesso nas rádios do Nordeste e continua sendo tocada em festas.
Essas músicas mostram como o funk e o pagode brasileiros absorveram elementos da cultura japonesa, adaptando-os ao seu público. Para o pesquisador de música popular brasileira, José Roberto Zan, “essas canções são exemplos de como a indústria cultural brasileira usa referências internacionais para criar produtos que dialogam com o imaginário nacional. O Japão, nesse contexto, vira um símbolo de exotismo e modernidade”.
“Passinho do Japonês”: o hit mais recente e seu legado
Lançado em 2018 por MC Loma e as Gêmeas Lacração, “Passinho do Japonês” é o hit mais recente da lista. A música, que mistura funk com humor, mostra as irmãs Mariely e Mirella caracterizadas como garçonetes em um restaurante japonês. No refrão, a expressão “arigatô” é repetida em tom cômico: “Arigatô, arigatô / Arigatô, agilizou / Arigatô, ariga / Vai remexendo esse popô”.
O clipe, que acumula milhões de visualizações no YouTube, foi gravado em São Paulo e reúne elementos associados ao Japão, como quimonos e decoração oriental. Às vésperas do jogo contra o Japão, Mirella e Mariely apareceram nos stories do Instagram relembrando a música de seis anos atrás, gerando uma nova onda de compartilhamentos.
A faixa é um exemplo de como o funk brasileiro contemporâneo incorpora referências globais de forma irreverente. Para a socióloga e especialista em cultura digital, Lúcia Santaella, “o ‘Passinho do Japonês’ é um produto típico da era das redes sociais: curto, viralizável e cheio de humor. Ele mostra como a cultura pop brasileira se alimenta de estereótipos para criar entretenimento de massa”.
O que isso diz sobre a relação Brasil-Japão?
A repetição desses hits em momentos de confronto esportivo revela mais do que nostalgia. Ela mostra como a cultura brasileira enxerga o Japão: um país distante, mas familiar, graças à presença da comunidade nipônica no Brasil e à influência de animes e mangás. No entanto, as músicas também carregam estereótipos, como a associação do Japão a restaurantes de sushi e gestos exagerados.
Em 2026, a comunidade japonesa no Brasil continua forte, com mais de 1,5 milhão de descendentes. Muitos deles torcem pela Seleção Brasileira, mas também celebram a cultura de seus antepassados. A música, nesse contexto, funciona como uma ponte entre os dois países, ainda que de forma caricata.
Para o jornalista e escritor Rodrigo Guedes, autor de “Japão: Uma Viagem Cultural”, “essas músicas são um reflexo da forma como o Brasil se relaciona com o Japão: com afeto, humor e uma boa dose de desconhecimento. Elas não devem ser levadas a sério, mas também não podem ser ignoradas como parte da nossa cultura popular”.
O que você deve fazer com essa informação
Se você é torcedor e quer entrar no clima do jogo, vale a pena revisitar esses hits e compartilhá-los nas redes sociais. Mas, ao mesmo tempo, é importante ter consciência dos estereótipos que eles carregam. Aproveite a partida para aprender mais sobre a cultura japonesa, que vai muito além de “arigatô” e “sayonara”.
Que tal ouvir as músicas enquanto prepara um prato típico japonês? Ou, se preferir, assista a um anime para entender melhor as referências. O importante é celebrar o esporte e a cultura, sem perder o senso crítico.
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Perguntas Frequentes
Por que as músicas brasileiras sobre o Japão fazem tanto sucesso?
As músicas brasileiras que mencionam o Japão fazem sucesso porque combinam ritmos populares, como axé e funk, com elementos exóticos e de fácil memorização. Além disso, a forte presença da comunidade nipônica no Brasil e a popularidade de animes e mangás criam uma familiaridade com o país asiático. Hits como “Ariga Tchan” e “Passinho do Japonês” também se beneficiam de coreografias virais, que ajudam a espalhar a música em festas e nas redes sociais.
Essas músicas são ofensivas para os japoneses?
De modo geral, a recepção entre japoneses e descendentes é mista. Muitos veem as músicas como uma forma de homenagem bem-humorada, enquanto outros criticam os estereótipos e a imprecisão cultural. No entanto, a maioria dos brasileiros de origem japonesa encara esses hits com naturalidade, reconhecendo que fazem parte da cultura popular. O importante é entender que se trata de entretenimento, não de uma representação fiel do Japão.
Como essas músicas se conectam com a Copa do Mundo?
A Copa do Mundo é um evento que mobiliza paixões e memórias afetivas. Quando a Seleção Brasileira enfrenta o Japão, torcedores resgatam músicas que mencionam o país para criar um clima de descontração e rivalidade saudável. As canções funcionam como uma espécie de “trilha sonora” do confronto, gerando memes e compartilhamentos nas redes sociais. É uma forma de torcer com humor e nostalgia.
Tags: Copa do Mundo 2026, Brasil x Japão, músicas brasileiras, cultura pop, hits virais
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
