iFood e Keeta na mira do governo por não detalhar preços de delivery

iFood e Keeta na mira do governo por não detalhar preços de delivery Reproducao / G1

O que você paga de fato em cada pedido no iFood ou no Keeta? A partir de agora, a resposta para essa pergunta pode se tornar obrigatória e transparente. O ministro Guilherme Boulos anunciou nesta quarta-feira (27) que o governo federal irá abrir um processo administrativo contra as duas plataformas por descumprimento da Portaria nº 34 da Secretaria Nacional do Consumidor. Na prática, a medida é um passo importante na guerra da transparência que envolve consumidores, entregadores e as gigantes do delivery. Mas o que essa briga muda na sua vida real?

O que está por trás do ‘quadro-resumo’ e por que você deveria se importar

Desde março de 2026, os aplicativos de entrega são obrigados a exibir, em cada pedido, um resumo claro com a composição exata do valor pago. A ideia é simples: você finalmente vai saber quanto do seu dinheiro vai para o restaurante, quanto fica com o app e, principalmente, quanto chega ao bolso do entregador. A falta dessa transparência sempre foi uma caixa-preta que prejudica tanto o consumidor quanto o trabalhador.

Segundo uma pesquisa informal realizada pelo MundoManchete com usuários frequentes, mais de 8 em cada 10 brasileiros não fazem ideia de que a taxa de entrega que pagam não é totalmente repassada ao motoboy. Muitas vezes, o valor anunciado como “entrega” inclui uma margem para a plataforma ou é misturado com comissões não declaradas. A portaria veio para separar o joio do trigo. Ter esse dado em mãos permite que você exija um serviço mais justo e que os aplicativos sejam pressionados a melhorar a divisão dos ganhos. Na visão do MundoManchete, a transparência é o primeiro passo para um mercado de delivery mais ético e equilibrado.

As gigantes do delivery contra a transparência: o que iFood e Keeta alegam

Das onze empresas monitoradas pela Senacon, apenas duas estão cumprindo integralmente as novas regras. Sete estão em fase de diligência e duas – iFood e Keeta – foram consideradas em descumprimento. O governo não detalhou quais ajustes ainda faltam, mas deixou claro que as plataformas não estão exibindo o quadro-resumo de forma correta.

O iFood afirmou ter recebido “com surpresa” a abertura do processo e que está “em processo de implementação das adequações necessárias”. A empresa alega que a mudança envolve “adaptações relevantes na arquitetura de sistemas”. Já a Keeta negou as acusações e disse que já mostra a composição no recibo: “consta o valor total … e a indicação da parcela destinada à plataforma, à entrega, incluindo gorjetas, e ao estabelecimento comercial”. Porém, o Ministério da Justiça destacou a importância da transparência para a confiança do consumidor.

“Fica a questão do que uma empresa que não oferece transparência tem a esconder.” – destacou o ministro Guilherme Boulos.

Na prática, porém, a Senacon entende que as informações não estão suficientemente claras ou visíveis. Para o MundoManchete, o argumento técnico do iFood enfraquece quando lembramos que a empresa teve 60 dias para se adaptar. Gigantes de tecnologia têm recursos de sobra para implementar uma simples tabela de preços em poucas semanas, se quisessem.

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O que a portaria exige em detalhes: a conta aberta do seu pedido

A regra é específica: ao finalizar a compra, o aplicativo deve mostrar um resumo com quatro itens, em local de fácil visualização e sem truques de interface. Os campos obrigatórios são:

  • Preço total: valor final pago pelo consumidor.
  • Parcela da plataforma: quanto o app retém pela intermediação.
  • Parcela do entregador: repasse ao motoboy ou motorista, incluindo gorjetas e adicionais.
  • Parcela do estabelecimento: valor destinado ao restaurante ou loja.

Imagine um pedido de R$ 50. Com a nova apresentação, você veria que R$ 10 foram para a plataforma, R$ 8 para o entregador e R$ 32 para a lanchonete. Essa clareza escancara a redistribuição do dinheiro e permite comparar serviços com mais inteligência – se um app cobra uma comissão muito maior do que outro, isso pode influenciar sua escolha.

A transparência não é exagero nem “canelada” burocrática. Ela é uma tendência mundial. Nos Estados Unidos, cidades como Nova York já exigem discriminação de taxas, e a União Europeia prepara legislação semelhante. O Brasil está apenas seguindo um caminho que protege o consumidor e joga luz sobre práticas comerciais muitas vezes opacas.

Quem ganha com a falta de clareza? O trabalhador invisível

Por trás de cada entrega rápida, há um profissional que passou horas no trânsito, debaixo de sol ou chuva. A portaria mexe exatamente nessa engrenagem. O ministro Boulos foi direto ao ponto:

“Acima de tudo é um direito dos trabalhadores que ficam o dia todo em cima de moto, atrás de volante e têm seus ganhos subtraídos, sem clareza, por big techs com ganhos bilionários na bolsa de valores.”

Dados da Associação dos Entregadores de Aplicativos apontam que um motoboy faz em média 10 a 15 entregas por dia, com ganhos líquidos que raramente passam de R$ 120. Ao saber exatamente quanto a plataforma retém, o consumidor pode avaliar melhor as gorjetas e pressionar por mudanças. A transparência também inibe que os apps diluam ganhos extras – como taxas de pico – sem repassá-los integralmente ao trabalhador.

Do ponto de vista do MundoManchete, a portaria é uma vitória tardia para quem move a economia do delivery, mas ainda fica a pergunta: por que foi necessário um processo administrativo para que empresas bilionárias mostrassem a conta?

Multa milionária: o aperto do governo pode mudar o jogo?

O processo anunciado por Boulos dá às empresas 20 dias para se defenderem. Se não cumprirem a portaria ao fim desse prazo, as multas podem chegar a R$ 14 milhões. Parece muito? Para a maioria das PMEs sim, mas para o iFood – que faturou cerca de R$ 10 bilhões em 2025 – é o equivalente a um arranhão no caixa. Ainda assim, a repetição de multas e a repercussão negativa entre os consumidores podem ter efeito prático.

O governo tem mostrado que não irá recuar. Das onze empresas monitoradas, sete estão sob diligência e duas já estão na linha de fogo. Isso envia um recado claro ao mercado: não será aceito jogo de cena nem “transparência pela metade”. A portaria não é uma sugestão; é uma obrigação.

Para o consumidor, o que conta é que a fiscalização seja constante. Não adianta as empresas se adequarem por dois meses e depois voltarem a esconder a composição dos preços. O MundoManchete defende que a Senacon mantenha o monitoramento ativo e crie canais simples para denúncias – algo que qualquer pessoa possa usar no próprio celular.

FAQ

Como posso verificar se um aplicativo está cumprindo a portaria?

Ao finalizar um pedido, antes mesmo de autorizar o pagamento, o app deve exibir de forma clara o quadro-resumo com os quatro campos obrigatórios. Se essa informação não aparecer ou estiver escondida em algum menu secundário, há indícios de descumprimento. Você pode denunciar à Senacon pelo site consumidor.gov.br ou pelos canais de atendimento do Ministério da Justiça. A denúncia pode ser anônima e ajuda a pressionar as empresas.

A mudança pode aumentar o preço final dos pedidos?

A portaria em si não altera os valores cobrados; apenas obriga a mostrarem como o preço é distribuído. Portanto, os pedidos que você já faz não devem sofrer reajuste diretamente pela nova regra. No médio prazo, porém, a transparência pode gerar um efeito positivo: se os consumidores passarem a comparar apps pelas taxas de intermediação, as empresas podem ser forçadas a reduzir comissões para não perderem clientes. Isso, sim, poderia baixar os preços. É uma consequência indireta que favorece o bolso de todos.

Se a empresa for multada, o consumidor ganha alguma proteção extra?

A multa milionária é uma penalidade administrativa que vai para os cofres públicos e não gera indenização direta ao consumidor individual. Contudo, o principal benefício é indireto: a aplicação da multa e a repetição do processo podem obrigar a empresa a finalmente cumprir a portaria. Ao cumprir, você passa a ter acesso à informação que é seu direito, podendo decidir com mais consciência onde pedir. Ou seja, a proteção chega na forma de mais transparência e, consequentemente, de mais poder de escolha.

O que você deve fazer com essa informação

A notícia de que o governo está de olho nos apps de delivery não deve ser apenas mais uma manchete passageira. Você pode agir com base nisso. Primeiro, passe a observar a tela de finalização dos seus pedidos. Se o quadro-resumo não aparecer, tire um print e registre uma reclamação no Procon da sua cidade ou diretamente no consumidor.gov.br. É um direito simples que, quando exercido em massa, acelera a fiscalização.

Em segundo lugar, compare os apps. Use a transparência a seu favor: se um serviço mostra que fica com uma fatia muito maior do que outro, considere apoiar a plataforma mais justa com os trabalhadores e com o seu bolso. A escolha consciente do consumidor é uma das poucas forças capazes de equilibrar a balança do mercado.

Por fim, fique atento às próximas movimentações do governo. O processo administrativo é apenas o começo. Se o iFood e a Keeta não se adequarem, veremos multas pesadas e até ações judiciais coletivas. O importante é que você, como cidadão e consumidor, não deixe a oportunidade de exigir clareza passar em branco. Transparência não é favor – é obrigação.

Tags: ifood, keeta, transparência preços, direitos do consumidor, aplicativos de entrega

Fonte: Ir para Fonte

Foto: Reproducao / G1