Você está em uma padaria, em um shopping ou até mesmo em casa, e alguém desmaia de repente. Não responde, não se mexe. O que fazer? Para quem nunca passou por um treinamento de primeiros socorros, o pânico pode tomar conta. Mas existe uma ferramenta inusitada que pode ajudar: a música ‘Stayin’ Alive’, dos Bee Gees. Isso mesmo, o clássico disco dos anos 70, com seus 103 batimentos por minuto, tem o ritmo quase perfeito para guiar as compressões torácicas em uma massagem cardíaca.
O assunto voltou à tona após um episódio ocorrido em Goiânia, durante a Copa do Mundo. Um torcedor de 60 anos sofreu uma parada cardiorrespiratória em uma padaria enquanto assistia ao jogo Brasil x Japão. Uma médica do Samu orientou por telefone e videochamada as pessoas que estavam no local, que iniciaram a massagem cardíaca antes da chegada da ambulância. Infelizmente, o homem não resistiu, mas o caso reforça a importância de agir rápido. Segundo cardiologistas, iniciar a reanimação imediatamente é a melhor forma de manter o cérebro e os órgãos recebendo oxigênio até a chegada de ajuda especializada.
Na visão do MundoManchete, saber o básico de primeiros socorros deveria ser tão comum quanto dirigir um carro. A maioria das emergências acontece longe dos hospitais, e o socorrista improvisado — seja um familiar, um amigo ou um desconhecido — pode fazer toda a diferença. Este artigo não substitui um curso presencial, mas oferece o conhecimento essencial para você não ficar paralisado diante de uma emergência.
O que realmente acontece em uma parada cardíaca?
Antes de qualquer manobra, é preciso entender o que está acontecendo. Uma parada cardiorrespiratória (PCR) é quando o coração para de bombear sangue de forma eficaz. O cérebro, que é extremamente sensível à falta de oxigênio, começa a sofrer lesões irreversíveis em poucos minutos. Por isso, cada segundo conta.
Os sinais são claros, mas podem ser confundidos com um desmaio comum. A vítima perde a consciência, não responde a chamados ou estímulos (como beliscões) e a respiração se torna irregular. O cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, descreve um padrão respiratório típico: ‘Quando a pessoa começa a entrar em parada, ela faz uma respiração parecida com um soluço. É o que chamamos de gasping.’
Esse ‘gasping’ é um sinal de que o cérebro ainda está tentando funcionar, mas não é respiração normal. Se você vir alguém com esse tipo de respiração e que não responde a estímulos, já é um forte indicativo de parada.
O primeiro passo: ligue para o Samu (192) e não hesite
Reconheceu os sinais? Ação imediata. O primeiro passo é ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelo telefone 192. O atendente pode orientar você por telefone, como aconteceu no caso de Goiânia. Se houver outra pessoa por perto, peça para ela ligar enquanto você inicia as compressões.
Muita gente tem medo de fazer a massagem cardíaca errado e machucar a pessoa. O Dr. Kazunori é categórico: a falta de certeza não deve ser motivo para hesitar. ‘Quem nunca passou por um treinamento dificilmente conseguirá identificar com segurança se há pulso. Diante da dúvida sobre uma possível parada, o mais seguro é iniciar a compressão, já que o procedimento não traz risco para quem não está, de fato, em parada cardíaca.’ Ou seja, se você suspeitar, comece a comprimir. É melhor agir e estar errado do que não agir e perder uma vida.
Passo a passo da massagem cardíaca (com e sem música)
A técnica correta é mais simples do que parece, mas exige precisão. Siga estes passos:
- Posicione a vítima: Deite a pessoa de barriga para cima em uma superfície firme (chão, mesa). Se estiver em uma cama, coloque uma tábua ou algo rígido sob as costas.
- Encontre o ponto certo: Coloque a palma de uma mão no centro do tórax da vítima, entre os mamilos. A outra mão vai por cima, entrelaçando os dedos.
- Mantenha os braços esticados: Com os ombros alinhados diretamente sobre as mãos, empurre o peito para baixo, afundando cerca de 5 centímetros. O movimento deve ser firme e rítmico.
- O ritmo certo: Faça de 100 a 120 compressões por minuto. É aqui que entra a música: ‘Stayin’ Alive’ tem 103 batidas por minuto. Mentalize o refrão (‘Ah, ah, ah, ah, stayin’ alive, stayin’ alive’) enquanto comprime. Outra opção é a música ‘Another One Bites the Dust’, do Queen, que tem um ritmo semelhante.
- Não se esqueça da descompressão: ‘Não basta apenas comprimir. É muito importante permitir que o tórax descomprima totalmente entre uma compressão e outra’, orienta Kazunori. Isso permite que o coração se encha de sangue novamente.
Continue as compressões sem parar até a chegada do Samu ou até que a vítima mostre sinais de vida (movimentos, respiração normal). Se você cansar, peça para outra pessoa assumir, mas nunca interrompa por mais de 10 segundos.
E o desfibrilador (DEA)? Ele pode ser seu melhor amigo
Em muitos locais públicos — aeroportos, shoppings, estádios, academias e até algumas empresas — existe um equipamento chamado Desfibrilador Externo Automático (DEA). Ele é fácil de usar e foi projetado para ser operado por qualquer pessoa, mesmo sem treinamento.
O DEA analisa o ritmo cardíaco da vítima e, se necessário, aplica um choque elétrico para tentar reverter a parada. O aparelho dá instruções de voz passo a passo: ‘Coloque as pás no tórax da vítima’, ‘Afastem-se’, ‘Aplicando choque’. Se houver um DEA por perto, peça para alguém buscá-lo enquanto você inicia as compressões. O uso combinado de RCP de qualidade e desfibrilação precoce aumenta drasticamente as chances de sobrevivência.
Outras emergências: o que NÃO fazer (e o que fazer)
Saber o que fazer em uma parada cardíaca é crucial, mas também é importante conhecer os erros comuns em outras emergências. Muitos mitos populares podem piorar a situação.
- Engasgo: Se a pessoa não consegue tossir, falar ou respirar, faça a manobra de Heimlich. Fique atrás da vítima, coloque os braços ao redor da cintura, feche uma mão e coloque-a logo acima do umbigo. Com a outra mão, puxe para dentro e para cima, em movimentos rápidos.
- Queimaduras: Nada de passar pasta de dente, café, manteiga ou clara de ovo. Isso só aumenta o risco de infecção. O correto é colocar a área queimada sob água corrente fria por pelo menos 10 minutos.
- Convulsões: Não tente colocar nada na boca da pessoa (como colher ou dedo). Ela não vai engolir a língua. O risco é de asfixia ou fratura dentária. Apenas proteja a cabeça da pessoa com uma almofada ou suas mãos e afaste móveis ou objetos que possam machucá-la.
Esses conhecimentos são especialmente relevantes em dias de jogos de futebol. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que, durante a Copa do Mundo de 2006, o risco de emergências cardiovasculares foi 2,66 vezes maior nos dias de jogos da seleção alemã, especialmente entre pessoas com doenças cardíacas pré-existentes. O estresse emocional de partidas decisivas pode ser um gatilho.
O que você deve fazer com essa informação
Agora que você sabe o básico, o próximo passo é transformar esse conhecimento em ação. Aqui estão sugestões práticas:
- Decore o número do Samu: 192. Salve no celular.
- Compartilhe este artigo com amigos e familiares. Quanto mais pessoas souberem, mais vidas podem ser salvas.
- Considere fazer um curso presencial de primeiros socorros oferecido pelo Corpo de Bombeiros, Samu ou instituições como o Hospital Sírio-Libanês e a Beneficência Portuguesa. Muitos são gratuitos.
- Identifique onde há DEAs nos locais que você frequenta (shopping, academia, trabalho). Saber onde está o equipamento pode economizar segundos preciosos.
- Em dias de jogos emocionantes, fique atento a parentes ou amigos com histórico cardíaco. O estresse pode ser um gatilho.
Lembre-se: em uma emergência, fazer algo é sempre melhor do que não fazer nada. A música pode até ajudar, mas a iniciativa é o que realmente salva vidas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Posso machucar a pessoa se fizer a massagem errado?
Sim, é possível quebrar uma costela se a compressão for muito forte ou no lugar errado. No entanto, uma costela quebrada cicatriza. O cérebro sem oxigênio, não. Os especialistas são unânimes: o risco de não fazer nada é muito maior do que o risco de fazer algo imperfeito. Se houver dúvida, comprima.
2. A música ‘Stayin’ Alive’ é a única que funciona?
Não. Qualquer música com ritmo entre 100 e 120 batidas por minuto serve. ‘Another One Bites the Dust’ (Queen), ‘Girls Just Want to Have Fun’ (Cyndi Lauper) e até o hino nacional brasileiro, se cantado no ritmo certo, podem funcionar. O importante é manter a frequência correta. Você também pode contar mentalmente: ‘1 e 2 e 3 e 4…’ até 30 e recomeçar.
3. Devo fazer respiração boca a boca junto com a massagem?
As diretrizes atuais para socorristas leigos (pessoas sem treinamento) recomendam apenas as compressões torácicas (RCP só com as mãos). Isso porque a respiração boca a boca pode ser complexa e muitas pessoas têm receio de realizá-la. O mais importante é manter o sangue circulando com as compressões. Se você tiver treinamento e se sentir seguro, pode fazer 30 compressões seguidas de 2 ventilações, mas, para a maioria das pessoas, focar apenas nas compressões já é eficaz.
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Tags: parada cardíaca, primeiros socorros, massagem cardíaca, Stayin Alive, Samu
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
