Superbactérias em ostras: o que o estudo da USP revela

Superbactérias em ostras: o que o estudo da USP revela Foto: Jonathan Borba no Unsplash

Você já ouviu falar em superbactérias, certo? Aquelas que os antibióticos comuns não conseguem matar. Até agora, a gente ouvia falar delas em hospitais, em infecções pós-cirúrgicas. Mas um estudo recente de pesquisadores da USP e do Instituto de Pesca de São Paulo acendeu um alerta muito maior: elas estão nos alimentos que chegam à sua mesa.

Em agosto de 2025, esses cientistas publicaram a descoberta da bactéria Citrobacter telavivensis em ostras frescas vendidas em mercados de São Paulo e Santa Catarina. Essa bactéria não é qualquer uma: a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classifica como de prioridade crítica em resistência a antibióticos. O mais preocupante? Nenhuma das amostras foi reprovada nos testes de inspeção sanitária atuais.

Ou seja: o sistema que deveria nos proteger não está preparado para essa nova ameaça. E isso não é um problema só de quem come ostras. É um problema de saúde pública que pode afetar todo brasileiro.

O que é essa superbactéria e por que ela é tão perigosa?

A Citrobacter telavivensis foi identificada pela primeira vez em 2010, em um hospital em Tel Aviv, Israel. Desde então, ela tem aparecido em diferentes partes do mundo, sempre associada a infecções graves e de difícil tratamento. O que a torna tão perigosa é justamente sua resistência a múltiplos antibióticos, inclusive aqueles considerados de última geração.

No estudo brasileiro, os pesquisadores encontraram essa bactéria em ostras frescas. Isso significa que ela já está circulando no nosso ambiente, chegando até a cadeia alimentar. E não veio sozinha: também foram encontradas cepas de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli resistentes a antibióticos de última geração.

Na visão do MundoManchete, a descoberta é um sinal de que a resistência antimicrobiana (RAM) saiu dos hospitais e se tornou um problema ambiental e alimentar. A OMS já considera a RAM uma das dez maiores ameaças à saúde global. Em outubro de 2025, um relatório da OMS mostrou que uma em cada seis infecções bacterianas registradas entre 2018 e 2023 já apresentava resistência — um aumento de mais de 40% no período.

Por que as ostras são um termômetro do problema?

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Ostras são animais filtradores. Elas bombeiam água do mar constantemente para se alimentar e, nesse processo, retêm tudo o que está na água: vírus, bactérias, metais pesados, resíduos de medicamentos. Por isso, os cientistas as chamam de sentinelas ambientais — o que está na água, está nelas.

No estudo, as amostras de ostras continham não só superbactérias, mas também concentrações de arsênio acima do limite permitido pela Anvisa em 35% dos casos. Os pesquisadores identificaram um fenômeno chamado co-seleção: o arsênio e os resíduos de antibióticos na água selecionam, ao mesmo tempo, bactérias tolerantes a ambos. O ambiente poluído age como uma estufa de resistência.

A última vez que um estudo tão abrangente sobre resistência antimicrobiana em moluscos foi feito no Brasil foi em 2018, e os resultados já eram preocupantes. Agora, com a descoberta da Citrobacter telavivensis, o cenário se agravou. A pergunta que fica é: o que mais está passando despercebido nos alimentos que consumimos?

O sistema de inspeção brasileiro está por fora

Quando um peixe ou molusco chega a uma planta de processamento no Brasil, ele é avaliado por sistemas reconhecidos internacionalmente, como o HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle). Esses sistemas verificam temperatura, higiene, presença de microrganismos totais e ausência de patógenos específicos como Salmonella e Listeria.

O que eles não verificam é o perfil de resistência antimicrobiana das bactérias encontradas. Um lote de peixe pode conter Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) — uma das superbactérias mais perigosas — e ainda assim ser liberado para consumo se o número total de microrganismos estiver dentro da norma.

Há uma razão técnica para isso: os protocolos foram desenhados antes de a resistência antimicrobiana se tornar um problema de escala na cadeia alimentar. Eles ainda estão atualizados para o problema de ontem. O resultado é que o brasileiro pode estar consumindo superbactérias sem saber.

No Brasil, o Ministério da Agricultura implementou em 2023 a segunda etapa do Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no âmbito Agropecuário. O programa monitora Salmonella em aves, suínos e bovinos. Pescado — moluscos e peixes — ainda não estão cobertos.

Biofilme: o escudo invisível que protege as superbactérias

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Há um fator que torna o cenário ainda mais complexo. Bactérias como o MRSA não circulam apenas nos alimentos — elas colonizam equipamentos, bancadas e tubulações das próprias plantas de processamento. E fazem isso formando estruturas chamadas biofilmes.

Um biofilme é uma comunidade bacteriana encapsulada em uma matriz protetora. Dentro dele, as bactérias são entre cem e mil vezes mais resistentes a antibióticos do que quando estão isoladas — e mais resistentes aos sanitizantes químicos usados nos processos de higiene industrial.

Em pesquisa publicada em 2023 no periódico Bioscience, Biotechnology, and Biochemistry, a equipe da professora Fernanda Sampaio Cavalcante (UFRJ-Macaé) demonstrou que uma enzima produzida naturalmente pela bactéria Staphylococcus lugdunensis — a lugdulisina — é capaz de inibir a formação de biofilmes do MRSA e destruir biofilmes já estabelecidos em laboratório.

A lugdulisina é uma metaloprotease: ela degrada a matriz proteica que sustenta a estrutura do biofilme, desprotegendo as bactérias e tornando-as vulneráveis novamente. Até o momento, trata-se de um resultado experimental, mas que aponta para uma direção perseguida por pesquisadores do mundo inteiro: agentes anti-biofilme de origem biológica como alternativa ou complemento aos sanitizantes químicos.

Enquanto essas soluções não chegam ao mercado, o biofilme continua sendo um escudo invisível que protege as superbactérias dentro da indústria alimentícia.

O que isso muda na prática para o brasileiro comum?

Você pode estar pensando: “Eu não como ostras, isso não me afeta.” Mas o problema vai muito além do molusco. A presença de superbactérias em ostras é um indicador de que a resistência antimicrobiana está se espalhando pelo ambiente marinho, contaminado por esgoto, resíduos de antibióticos da aquicultura e da pecuária, e poluição industrial.

Mais de 75% dos antibióticos produzidos no mundo vão para animais. Esses medicamentos são excretados e vão parar nos rios e no mar. Lá, eles criam um ambiente que seleciona bactérias resistentes. Essas bactérias podem contaminar outros frutos do mar, peixes e até vegetais irrigados com água contaminada.

O risco para o consumidor brasileiro é real: ao consumir alimentos contaminados com superbactérias, você pode estar introduzindo no seu organismo microrganismos que não respondem a tratamentos comuns. Uma simples infecção intestinal pode se tornar um problema grave, difícil de tratar.

Além do risco sanitário interno, há um risco econômico direto: a União Europeia e os Estados Unidos exigem padrões rigorosos de controle de resistência antimicrobiana. Se o Brasil não se adaptar, exportações de pescado podem ser comprometidas, afetando a economia e empregos no setor.

FAQ: Perguntas que você provavelmente tem

1. Devo parar de comer ostras e frutos do mar?
Não necessariamente. O estudo encontrou superbactérias em ostras, mas isso não significa que todos os lotes estejam contaminados. O alerta é para a necessidade de atualizar os protocolos de inspeção. Enquanto isso, prefira ostras de origem conhecida e certificada, e sempre consuma alimentos bem cozidos. O calor elimina as bactérias, incluindo as resistentes.

2. Como as superbactérias chegaram às ostras?
Elas chegam através da água do mar contaminada. Esgoto não tratado, resíduos de antibióticos da aquicultura e da pecuária, e poluição industrial criam um ambiente que seleciona bactérias resistentes. As ostras, por serem filtradoras, acumulam esses microrganismos.

3. O que o governo brasileiro está fazendo para resolver isso?
O Ministério da Agricultura tem um plano de ação para resistência antimicrobiana, mas ele ainda não cobre pescado. A Anvisa e o Ministério da Saúde também monitoram o problema, mas a fiscalização atual não testa o perfil de resistência das bactérias nos alimentos. Especialistas ouvidos pelo MundoManchete defendem que a vigilância precisa ser ampliada e os protocolos atualizados com urgência.

O que você deve fazer com essa informação

A descoberta de superbactérias em ostras no Brasil é um alerta que não pode ser ignorado. Mas isso não significa pânico — significa ação.

Para o consumidor: prefira alimentos de origem conhecida, cozinhe bem carnes e frutos do mar, e evite o consumo de alimentos crus de procedência duvidosa. Lave bem frutas e vegetais. E, principalmente, use antibióticos apenas com prescrição médica — o uso indiscriminado é um dos principais motores da resistência.

Para o cidadão: cobre das autoridades uma atualização dos protocolos de inspeção sanitária. Pergunte ao seu deputado ou vereador: “O que está sendo feito para monitorar superbactérias nos alimentos?” A pressão popular pode acelerar mudanças.

Para o setor produtivo: investir em tecnologias de monitoramento e controle de biofilmes não é mais opcional — é questão de sobrevivência no mercado internacional.

O problema é complexo, mas não é insolúvel. O primeiro passo é reconhecer que ele existe. E agora, com esse estudo, não temos mais desculpa para ignorar.

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Tags: superbactérias, ostras, resistência antimicrobiana, USP, saúde pública, alimentos contaminados, fiscalização sanitária


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