Foi no Canecão que Roberto Carlos deixou de ser visto como ‘cantor de iê-iê-iê’ e se firmou como um dos maiores nomes da MPB. Foi lá também que Elymar Santos empenhou apartamento e carro para realizar o sonho de se apresentar. E, entre uma história e outra, o palco da Zona Sul do Rio recebeu desde os bailes Black Rio nos anos 1970 até a banda britânica Echo & The Bunnymen em 1987. Agora, o documentário ‘Canecão – Tantas emoções’, dirigido por Bruno Levinson, reúne 87 minutos de memórias, causos e depoimentos de artistas, funcionários e empresários que fizeram parte da trajetória da casa. O filme integra a Mostra Brasil da 18ª edição do In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, que acontece em São Paulo de 17 a 28 de junho. Na visão do MundoManchete, o documentário chega em um momento simbólico: o Canecão está previsto para ser reaberto em 2027 como espaço cultural, depois de anos fechado. Revisitar sua história não é apenas nostalgia — é entender como um lugar pode mudar a carreira de artistas e a forma como o brasileiro consome música ao vivo. Mas, afinal, o que fez do Canecão um palco tão especial? E o que o documentário mostra — e deixa de mostrar — sobre essa história? O Canecão começou como uma cervejaria em 1967, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, em 9 de maio de 1969, a casa foi inaugurada como espaço de shows com uma apresentação histórica de Maysa — cantora que, na época, já era um nome consolidado e que, segundo relatos, fez uma apresentação ‘incendiária’ naquela noite. Na visão do MundoManchete, esse início já diz muito sobre o que o Canecão representaria: um lugar que ousava, que apostava em artistas com personalidade forte e que, desde o primeiro dia, buscava se diferenciar das casas noturnas tradicionais do Rio. A localização, na Zona Sul, também ajudou: era um ponto de encontro para a classe média carioca e para a intelectualidade que frequentava a região. O documentário resgata esse período inicial com depoimentos de quem viveu a época. A empresária Marilena Gondim, uma das entrevistadas, quebra um pouco a aura romântica ao lembrar que ‘não era fácil trabalhar no Canecão. Era tudo muito informal. Apesar de pior, o Canecão era melhor.’ Uma frase que, no fundo, revela o carinho e a complexidade que envolviam a casa. O produtor artístico Jerson Alvim, que faleceu em 2025 aos 83 anos, também aparece no filme contando causos — como o breve impasse entre Chico Buarque e Tom Jobim sobre datas de shows. Alvim foi uma figura central na mediação entre os interesses da casa e as exigências dos artistas, e sua participação no documentário é um dos pontos altos. Se o Canecão se tornou conhecido como ‘templo sagrado da MPB’, muito se deve a Roberto Carlos. O cantor, que já era um fenômeno da Jovem Guarda, estreou na casa em 3 de setembro de 1970 com o show ‘Roberto Carlos a 200 km por hora!’. Para ele, aquele momento foi decisivo. ‘O Canecão foi um marco importantíssimo na minha vida porque mostrou para o público e para a crítica que eu sabia fazer mais do que fazia na Jovem Guarda’, diz Roberto Carlos no documentário. O show foi produzido por Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, dois nomes que ajudaram a profissionalizar a cena de shows no Brasil. A partir dali, Roberto Carlos passou a ser visto como um artista completo, capaz de emocionar plateias com canções românticas e arranjos sofisticados. O documentário dedica um bom espaço a esse período, mas, na visão do MundoManchete, poderia ter ido além ao explorar outros grandes nomes que também fizeram história na casa nos anos 1970. Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso são citados apenas de passagem, embora tenham realizado shows antológicos no Canecão. O roteiro também ignora a chegada do sertanejo à casa, em 1991, com a dupla Chitãozinho & Xororó — um marco que mostrou a diversidade musical que o palco recebia. O diretor Bruno Levinson, talvez por suas próprias preferências musicais, concentra boa parte do documentário na geração pop dos anos 1980. A partir da estreia do show ‘Radioatividade’, da banda Blitz, em 1983, o Canecão se tornou palco de artistas como Lobão, Leo Jaime, Paulo Ricardo, Ritchie, Fernanda Abreu e Evandro Mesquita. Essa escolha editorial dividiu opiniões. O próprio Lobão, entrevistado no filme, resume: o Canecão foi ‘o templo sagrado da MPB’ nos anos 1970, mas nos anos 1980 a casa se abriu para o rock e o pop brasileiro. Para muitos, essa foi uma renovação necessária; para outros, uma perda de identidade. Na visão do MundoManchete, o documentário acerta ao mostrar essa transição, mas falha ao não equilibrar melhor os dois períodos. A impressão que fica é que a década de 1970 — com artistas como Chico Buarque, Clara Nunes e Maria Bethânia — é tratada quase como um prefácio para o que realmente importa: a geração pop. Isso pode frustrar quem esperava um retrato mais completo da casa. Ainda assim, os depoimentos são ricos. Bruno Gouveia, Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e Frejat aparecem para contar suas histórias, e o filme ganha ritmo com a energia dessa turma. O causo de Elymar Santos, que empenhou bens para alugar o Canecão em 1985, é um dos momentos mais emocionantes do documentário. Se há um fio condutor emocional no documentário, ele se chama Elymar Santos. O cantor, que na época era praticamente desconhecido, tomou uma decisão ousada: empenhou seu apartamento e seu carro para alugar o Canecão por uma noite, em 12 de novembro de 1985. A aposta deu certo. Durante a apresentação, ele recebeu o convite para fazer outros shows na casa — agora sem precisar alugar o espaço. O diretor Bruno Levinson acompanha Elymar até sua casa na Ilha do Governador e o leva de carro até o Canecão. No caminho, o cantor reconta a saga. O ponto alto é o reencontro com a jornalista Léa Penteado, assessora de imprensa que foi fundamental para tornar o show um sucesso — tanto artisticamente quanto economicamente. Na visão do MundoManchete, essa sequência é o coração do documentário. Mostra que o Canecão não era apenas um palco para quem já era famoso, mas também um lugar onde sonhos podiam se realizar — desde que houvesse coragem e, claro, um bom plano de marketing. Nenhum documentário de 87 minutos consegue abarcar toda a história de um lugar que funcionou por mais de 40 anos. O próprio título, ‘Canecão – Tantas emoções’, já sugere um recorte. Ainda assim, algumas ausências são sentidas. O roteiro ignora completamente a chegada do sertanejo à casa em 1991, com a apresentação histórica de Chitãozinho & Xororó — um marco que mostrou a diversidade musical que o Canecão recebia. Também não há menção a shows emblemáticos de Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia, que tiveram temporadas memoráveis no palco. Caetano Veloso, outro ícone da MPB, também fica de fora. Há, contudo, menções de depoentes às antológicas temporadas dos shows ‘Brasileiro, profissão: esperança’ (1974), que juntou Clara Nunes e Paulo Gracindo, e ‘Chico Buarque & Maria Bethânia’ (1975). Mas são apenas pinceladas. Na visão do MundoManchete, o documentário seria mais rico se tivesse incluído pelo menos um depoimento de representantes do sertanejo ou da MPB dos anos 1970 que não fosse Roberto Carlos. A ausência de Caetano, por exemplo, é sentida — especialmente porque ele fez shows que entraram para a história da casa. Ainda assim, cabe a ressalva: o filme não se propõe a ser uma enciclopédia. É uma coleção de memórias, e como tal, funciona bem. Quem viveu a época vai se emocionar; quem não viveu, vai entender por que o Canecão é lembrado com tanto carinho. O documentário chega em um momento em que o Canecão está prestes a ganhar uma nova vida. A casa, que fechou as portas em 17 de outubro de 2010 com um show de Bibi Ferreira, está prevista para ser reaberta em 2027 como espaço cultural. A informação é mencionada no filme, mas não é aprofundada. Na visão do MundoManchete, a reabertura é uma oportunidade de ouro para o Rio de Janeiro recuperar um de seus ícones culturais. A cidade perdeu muitas casas de shows nos últimos anos, e o Canecão sempre foi um símbolo de qualidade e diversidade musical. Se o projeto for bem executado, pode se tornar novamente um ponto de encontro para artistas e público. Mas há desafios. O mercado de shows mudou drasticamente desde 2010. A pandemia de covid-19 acelerou a digitalização e mudou os hábitos de consumo. Além disso, a região do Botafogo passou por transformações urbanas. Será que o público ainda tem interesse em uma casa de shows tradicional? O documentário não responde a essa pergunta, mas deixa no ar a esperança de que sim. Se você é fã de música brasileira e mora em São Paulo, o primeiro passo é tentar assistir ao documentário durante o In-Edit Brasil, entre 17 e 28 de junho. A programação completa está no site do festival. Se não conseguir ir, fique de olho em possíveis exibições em canais de TV ou plataformas de streaming — documentários musicais brasileiros têm ganhado espaço. Para quem quer se aprofundar na história do Canecão, vale buscar livros e reportagens sobre a casa. O documentário é um bom ponto de partida, mas não substitui uma pesquisa mais ampla. E, claro, se você mora no Rio, acompanhe as notícias sobre a reabertura — em 2027, talvez você possa voltar a assistir a shows no palco que já recebeu Roberto Carlos, Maysa e Elymar Santos. Na visão do MundoManchete, a história do Canecão é também a história da música brasileira. Conhecê-la é entender como o Brasil se via — e como quer ser lembrado. Perguntas frequentes sobre o documentário ‘Canecão – Tantas emoções’ O documentário está disponível em streaming? Até o momento, o filme integra a programação do In-Edit Brasil, festival que acontece presencialmente em São Paulo. Não há previsão oficial de lançamento em plataformas de streaming, mas é comum que documentários do festival sejam posteriormente exibidos em canais como Curta! ou disponibilizados em serviços como Netflix e Amazon Prime. Fique atento aos anúncios. Quais artistas aparecem no documentário? O filme reúne depoimentos de Roberto Carlos, Lobão, Leo Jaime, Paulo Ricardo, Ritchie, Fernanda Abreu, Evandro Mesquita, Bruno Gouveia, Frejat, Zélia Duncan e Elymar Santos, entre outros. Também conta com a participação de funcionários da casa, como garçonetes, o assessor de imprensa Luiz Menna Barreto e o produtor artístico Jerson Alvim. O documentário mostra a história completa do Canecão? Não. O diretor Bruno Levinson optou por um recorte focado na geração pop dos anos 1980, deixando de lado momentos importantes como a chegada do sertanejo em 1991 e shows de artistas como Elis Regina, Gal Costa e Caetano Veloso. O filme tem 87 minutos e, como o próprio título sugere, é uma coleção de ‘tantas emoções’ — não uma enciclopédia.
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Tags: Canecão, documentário musical, Roberto Carlos, In-Edit Brasil, música brasileira, MPB, Elymar Santos, Bruno Levinson
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
