Uma pergunta feita por uma criança à mãe — “Mamãe, você ama mais o seu celular do que a mim?” — inspirou pesquisadores norte-americanos a investigar um fenômeno cada vez mais comum dentro das famílias: a disputa pela atenção dos pais entre os filhos e as telas. O resultado foi um estudo que encontrou uma associação consistente entre a percepção dos adolescentes de que seus cuidadores estão excessivamente focados em dispositivos eletrônicos e níveis mais elevados de apego inseguro, um padrão ligado a mais dificuldades emocionais, problemas de saúde mental e relações interpessoais menos saudáveis.
A pesquisa avaliou 600 adolescentes de 12 a 17 anos nos Estados Unidos e concluiu que jovens que percebem maior distração dos pais por celulares, tablets e outros dispositivos tendem a relatar mais apego ansioso e evitativo em relação aos cuidadores. Os autores destacam que o estudo não prova que o uso de dispositivos cause insegurança no apego, mas sugere que a disponibilidade de atenção dos pais no contexto digital pode ser um fator relacional relevante para o desenvolvimento emocional dos adolescentes.
Na visão do MundoManchete, esse é um alerta importante para pais brasileiros, especialmente em um país onde o uso de smartphones está entre os mais altos do mundo. O que parece um hábito inofensivo pode estar moldando silenciosamente a forma como nossos filhos nos enxergam e, mais importante, como eles se sentem em relação a si mesmos.
O que é apego inseguro e por que ele importa?
O apego inseguro é um padrão de vínculo emocional que se forma quando a criança não sente que pode contar com a disponibilidade constante dos cuidadores. Segundo a teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby, a consistência e a sensibilidade com que os pais respondem às necessidades dos filhos moldam as expectativas sobre relacionamentos futuros.
Quando os cuidadores estão fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes — um fenômeno chamado de “presença ausente” —, o adolescente pode internalizar a mensagem de que não é prioridade. Isso gera dois tipos principais de apego inseguro:
- Apego ansioso: a pessoa busca constantemente aprovação e teme ser abandonada.
- Apego evitativo: a pessoa se afasta emocionalmente para evitar sofrimento, acreditando que não pode confiar nos outros.
Ambos os padrões estão associados a maior risco de depressão, ansiedade, baixa autoestima, dificuldades de regulação emocional e até comportamentos de risco. Ou seja, o que começa como uma simples distração com o celular pode ter consequências profundas na vida adulta.
O que o estudo descobriu sobre os pais e o celular
Para medir o impacto da distração digital, os pesquisadores criaram uma ferramenta chamada Escala de Interferência do Dispositivo no Apego (DAIS). Ela avalia situações como sentir-se ignorado quando o cuidador está usando um dispositivo, perceber que o cuidador passa tempo demais no celular e acreditar que o uso de dispositivos prejudica o relacionamento.
Os resultados foram claros: quanto maior a percepção de distração por dispositivos, maiores os níveis de apego inseguro. Isso valeu tanto para a figura materna quanto para a paterna. O estudo não encontrou diferenças significativas entre gêneros ou idades, indicando que o problema afeta adolescentes de forma geral.
Os autores ressaltam que, diferentemente de fatores tradicionais associados ao apego inseguro — como negligência, abuso ou doenças —, o uso do celular está sob controle voluntário dos pais. Isso significa que pequenas mudanças de hábito podem ter um grande impacto no bem-estar emocional dos filhos.
Technoference e phubbing: os termos que explicam o problema
O estudo se baseia em dois conceitos que vêm ganhando espaço na ciência. O primeiro é a technoference, que descreve a interferência da tecnologia nos relacionamentos interpessoais. O segundo é o phubbing (junção de “phone” e “snubbing”), que caracteriza o ato de ignorar alguém para prestar atenção ao celular.
Pesquisas anteriores já haviam associado esses comportamentos a menor satisfação nos relacionamentos, pior qualidade das relações e aumento de conflitos. Em 2020, 68% dos pais relataram sentir-se pelo menos ocasionalmente distraídos pelo celular enquanto estavam com os filhos. Já em 2024, uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que 46% dos adolescentes disseram que os pais ficam distraídos pelo celular ao menos algumas vezes durante conversas.
Alguns autores chegaram a descrever o phubbing parental como uma “nova forma de negligência social durante as interações entre pais e filhos”. Embora o termo pareça forte, ele reflete a percepção dos jovens de que a atenção dos pais é disputada por uma tela.
Como o estudo foi feito e o que ele realmente mostra
A pesquisa recrutou 600 adolescentes norte-americanos entre 12 e 17 anos em agosto de 2025. A idade média dos participantes foi de 14 anos. Eles responderam a um questionário demográfico, uma escala de apego e a nova Escala de Interferência do Dispositivo no Apego (DAIS).
Os resultados mostraram uma forte correlação entre a percepção de distração parental e níveis mais elevados de apego inseguro. No entanto, os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: o estudo é transversal e correlacional, ou seja, não prova que o uso do celular cause apego inseguro. Pode ser que adolescentes com apego inseguro já tendam a interpretar os comportamentos dos pais de forma mais negativa.
Para esclarecer essa relação, os autores defendem pesquisas futuras que acompanhem famílias ao longo do tempo e utilizem diferentes métodos de observação. Ainda assim, os achados são consistentes com uma literatura crescente que aponta para os riscos da distração digital nas relações familiares.
O que isso muda na prática para o brasileiro comum?
No Brasil, o uso de smartphones está entre os mais altos do mundo. Segundo dados da FGV, o país tem mais de um celular por habitante. Isso significa que o fenômeno da distração digital é ainda mais relevante por aqui.
O estudo não sugere que os pais precisam abandonar o celular, mas sim que a qualidade da atenção importa. Pequenos gestos — como colocar o telefone de lado durante uma conversa, estabelecer horários sem tela e responder consistentemente às tentativas de interação dos filhos — podem fazer diferença.
Na visão do MundoManchete, o grande mérito do estudo é trazer um alerta baseado em evidências para um comportamento que muitos pais nem percebem que têm. Afinal, quem nunca respondeu “já vou” enquanto olhava para o celular? O problema não é o uso em si, mas a falta de consciência sobre como ele afeta quem está ao nosso redor.
Perguntas frequentes sobre o estudo
O estudo diz que celular causa problemas emocionais nos filhos?
Não. O estudo encontrou uma correlação, mas não uma relação de causa e efeito. Ele mostra que adolescentes que percebem os pais mais distraídos pelo celular tendem a relatar mais apego inseguro. Pode ser que outros fatores estejam envolvidos, como a personalidade do adolescente ou o contexto familiar. O que os pesquisadores sugerem é que a atenção dos pais é um fator relevante, mas não o único.
Isso vale só para adolescentes ou também para crianças pequenas?
O estudo foi feito com adolescentes de 12 a 17 anos, mas pesquisas anteriores já mostraram efeitos semelhantes em crianças menores. A distração digital dos pais está associada a mais problemas comportamentais, menor bem-estar infantil e sentimentos de negligência emocional. O padrão parece ser consistente ao longo da infância e adolescência.
O que os pais podem fazer para evitar esse problema?
Os pesquisadores sugerem que os pais se tornem mais conscientes do próprio uso de dispositivos. Algumas dicas práticas incluem: estabelecer zonas livres de celular (como à mesa de jantar), guardar o telefone durante conversas importantes, e responder prontamente às tentativas de interação dos filhos. O objetivo não é eliminar o uso da tecnologia, mas garantir que ela não substitua a atenção de qualidade.
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O que você deve fazer com essa informação
O estudo não é um motivo para pânico, mas sim um convite à reflexão. Se você é pai ou mãe, vale a pena observar seus próprios hábitos com o celular e perguntar aos seus filhos como eles se sentem. Muitas vezes, a percepção deles é muito diferente da sua intenção.
Pequenas mudanças podem ter um grande impacto: colocar o telefone no silencioso durante o jantar, estabelecer um horário sem telas antes de dormir, e principalmente, ouvir quando seu filho diz que se sente ignorado. Afinal, a atenção que você dá hoje é o alicerce da confiança que ele terá amanhã.
Tags: apego inseguro, phubbing parental, saúde mental adolescente, distração digital, relação pais e filhos
Fonte Original: g1.globo.com
