A tragédia nas Maldivas que acendeu o alerta global
O sargento-mor Mohamed Mahudhee participava das buscas por quatro mergulhadores italianos desaparecidos em cavernas submarinas no Atol de Vaavu, nas Maldivas, quando sentiu que algo estava errado. Ele já havia feito descidas de até 70 metros e era considerado um profissional experiente. A operação era de alto risco: os italianos estavam em uma região próxima dos 50 metros de profundidade — muito além do limite de 40 metros recomendado para mergulho recreativo. Mesmo com toda a experiência, Mahudhee não resistiu à doença da descompressão e morreu.
O caso chocou a comunidade internacional de mergulho justamente por envolver um militar treinado. A imprensa local destacou que ele seguia protocolos, mas a combinação de profundidade, tempo submerso e o esforço físico das buscas pode ter acelerado o quadro. Para o leitor brasileiro, a tragédia soa como um alerta: o país tem alguns dos melhores pontos de mergulho do mundo — Fernando de Noronha, Abrolhos, Arraial do Cabo —, e milhares de brasileiros praticam a atividade todos os anos, muitas vezes sem conhecer a fundo os perigos fisiológicos que a água impõe.
O que é a doença da descompressão e como ela age no corpo
A doença da descompressão, também conhecida como “doença do mergulhador”, acontece quando a pessoa sobe rápido demais à superfície depois de passar um tempo em profundidade. O corpo acumula nitrogênio dissolvido no sangue e nos tecidos por causa da pressão elevada. Se a subida é brusca, esse gás não tem tempo de ser eliminado pelos pulmões e forma bolhas dentro da corrente sanguínea — praticamente microtrombos de ar.
“Quanto maior a profundidade, mais os gases se difundem e se dissolvem no sangue, nos músculos, na gordura e no cérebro. Enquanto o mergulhador permanece no fundo, esse nitrogênio fica dissolvido sem causar dano. O problema é a volta”, explica o neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.
O mecanismo é frequentemente comparado ao de uma garrafa de refrigerante. Enquanto fechada e sob pressão, o gás permanece na parte líquida. Ao abrir a tampa, a pressão cai e surgem as bolhas. No corpo, essas bolhas podem bloquear vasos sanguíneos em qualquer órgão — do cérebro aos pulmões — e causar desde dores articulares até parada cardiorrespiratória.
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A física por trás do mergulho: por que subir rápido pode ser fatal
A pressão no nível do mar é de 1 atmosfera. A cada 10 metros de profundidade, ela aumenta mais 1 atmosfera. A 50 metros, como na região das buscas, a pressão é seis vezes maior que na superfície. Esse ambiente comprime o corpo e faz com que o nitrogênio do ar respirado — que em condições normais mal entra na circulação — se dissolva amplamente no sangue e nos tecidos gordurosos.
“No dia a dia, quase não absorvemos nitrogênio pela corrente sanguínea. Mas, no mergulho profundo, o corpo fica submetido a uma pressão muito maior do que a pressão atmosférica normal. Isso faz com que esse nitrogênio passe a entrar no organismo em quantidades muito mais expressivas”, destaca Ricardo Katayose, cirurgião cardiovascular da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Na subida, os pulmões são o caminho de saída desse gás: a cada ciclo respiratório, o sangue passa pelos alvéolos e libera nitrogênio. Mas o processo é gradual. Se o mergulhador sobe muito depressa, o sangue não circula vezes suficientes pelos pulmões antes que a pressão diminua drasticamente. Aí o nitrogênio “efervesce” dentro dos vasos, formando bolhas que podem entupir artérias cerebrais, coronárias e pulmonares. É por isso que os protocolos de mergulho técnico incluem paradas obrigatórias em profundidades intermediárias — as chamadas paradas de descompressão — para dar tempo ao corpo de eliminar o excesso de gás lentamente.
Brasil: um paraíso para mergulhadores, mas também para riscos
O Brasil tem cerca de 8 mil quilômetros de litoral e alguns dos melhores destinos de mergulho do mundo, como o arquipélago de Fernando de Noronha e o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. Segundo a Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos, o país conta com aproximadamente 200 mil mergulhadores credenciados, entre recreativos e profissionais. No entanto, acidentes relacionados à descompressão não são raros.
Dados da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica apontam que todos os anos são registradas dezenas de ocorrências em câmaras hiperbáricas nacionais — a maioria por falha no planejamento da subida. Fernando de Noronha, por exemplo, tem uma câmara própria para atender emergências, justamente pela grande circulação de turistas mergulhadores. Ainda assim, muitos brasileiros desconhecem os sintomas iniciais da doença da descompressão e demoram a buscar ajuda, agravando o quadro.
Na visão do MundoManchete, a carência de divulgação sobre os riscos é um problema que precisa ser enfrentado por operadoras de mergulho e órgãos de turismo. Não basta oferecer o atrativo de cardumes e corais; é essencial que todo praticante entenda que o mergulho é um esporte de alta fisiologia, e que subir devagar não é uma opção — é uma necessidade absoluta.
Sintomas e primeiros socorros: o que fazer antes que seja tarde
Os sinais da doença da descompressão podem surgir minutos ou horas após o mergulho. Os mais leves incluem fadiga incomum, dores nas articulações (especialmente ombros e cotovelos), coceira, manchas avermelhadas na pele e dormência nos membros. Já os graves podem evoluir para falta de ar, confusão mental, perda de consciência, convulsões e parada cardiorrespiratória.
“Essas bolhas acabam funcionando como trombos dentro da circulação. As consequências podem incluir AVC, infarto e parada cardíaca. As bolhas também são capazes de destruir os alvéolos pulmonares e lesar a medula espinhal — o que explica casos de mergulhadores que ficaram paraplégicos”, afirma Picarelli.
Diante de qualquer sintoma suspeito, a orientação médica é clara: manter a pessoa calma, deitada, hidratada e buscar imediatamente uma unidade com câmara hiperbárica. O tratamento consiste em submeter o paciente novamente a uma pressão elevada de forma controlada, para que as bolhas de nitrogênio se dissolvam de novo no sangue e possam ser eliminadas gradualmente. Cada minuto conta — quanto mais rápido o atendimento, menor o risco de sequelas permanentes.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Qualquer mergulho pode causar a doença da descompressão?
Sim, embora o risco aumente com profundidade, tempo de fundo e velocidade de subida. Mesmo mergulhos recreativos a 15 ou 20 metros podem desencadear a condição se o mergulhador subir rapidamente ou realizar vários mergulhos consecutivos sem repouso adequado. Por isso, o planejamento correto, o uso de computador de mergulho e o respeito às paradas de descompressão são indispensáveis para qualquer praticante.
2. Computadores de mergulho realmente previnem a doença?
Eles são grandes aliados, pois calculam em tempo real a quantidade de nitrogênio absorvida e indicam a necessidade de paradas e a velocidade segura de subida. No entanto, nenhum equipamento substitui o treinamento e o bom senso. Mesmo com tecnologia, erros como ignorar alarmes, realizar esforço intenso no fundo ou subir mesmo sem os intervalos recomendados podem levar à doença da descompressão.
3. O que fazer se estou longe de uma câmara hiperbárica?
Em regiões remotas, como no arquipélago de Abrolhos ou em áreas isoladas da Amazônia, a demora no tratamento pode ser fatal. A orientação é evacuar o paciente o mais rápido possível para um centro com câmara. Enquanto isso, deve-se administrar oxigênio a 100% (se disponível), manter a pessoa aquecida e hidratada com soro fisiológico e evitar que ela se movimente para não piorar a circulação das bolhas. Contatar o serviço de emergência marítima ou a Marinha do Brasil é fundamental.
O que você deve fazer com essa informação
Se você pratica mergulho ou planeja começar, a tragédia do sargento Mahudhee deve servir como um divisor de águas. Primeiro, nunca ultrapasse os limites de profundidade para os quais você foi treinado — mergulho recreativo vai até 40 metros, e muitos acidentes ocorrem quando esse limite é ignorado. Segundo, invista em um bom computador de mergulho e aprenda a interpretar seus alertas corretamente. Terceiro, não economize nas paradas de segurança: mesmo que o equipamento não as indique como obrigatórias, fazer uma pausa de pelo menos três minutos a 5 metros de profundidade reduz drasticamente o risco de formação de bolhas.
Além disso, conheça os sintomas e não os subestime. Muitos mergulhadores sentem dores leves e atribuem ao esforço físico, mas isso já pode ser o início da doença da descompressão. Por fim, exija que operadoras e instrutores forneçam briefing completo sobre segurança e saiba onde fica a câmara hiperbárica mais próxima do seu destino de mergulho. Na visão do MundoManchete, informação é tão vital quanto o cilindro de ar nas costas.
Tags: doença da descompressão, mergulho, saúde, Maldivas, prevenção
Fonte: Ir para Fonte
Foto: Reproducao / G1
