Guerra de facções na Colômbia deixa 52 mortos: reflexos no Brasil

Guerra de facções na Colômbia deixa 52 mortos: reflexos no Brasil Reproducao / InfoMoney

52 mortos em selva colombiana: o que sabemos sobre o confronto

O silêncio da selva amazônica foi rompido por rajadas de fuzil e explosões. No coração do departamento de Guaviare, sudeste da Colômbia, um embate entre duas facções dissidentes das antigas Farc deixou pelo menos 52 guerrilheiros mortos, segundo comunicado de um dos grupos envolvidos. A região, próxima ao vilarejo de Barranco Colorado, é um dos territórios mais cobiçados pelo narcotráfico — e o estopim dessa guerra é a disputa pelo controle das rotas de produção e escoamento de cocaína. O ministro da Defesa colombiano, Pedro Sánchez, confirmou os combates e anunciou o envio de tropas para proteger a população civil, mas não detalhou números de vítimas.

Embora a cifra de 52 mortos tenha partido da própria guerrilha — a facção liderada por Alexander Diaz Mendoza, conhecido como Calarcá Córdoba — e a Reuters não tenha conseguido verificá-la de forma independente, o episódio já é considerado o mais violento dos últimos meses no conflito armado colombiano. Ele ocorre a poucos dias das eleições presidenciais de domingo (31 de maio), que definirão o sucessor do presidente de esquerda Gustavo Petro, justamente quando a agenda de paz total tenta conter a fragmentação dos grupos armados. Para o Brasil, que divide mais de 1.600 quilômetros de fronteira com a Colômbia, o agravamento da violência é um alerta que vai muito além da solidariedade diplomática.

Por que as Farc se dividiram e voltaram a se matar

Para entender o massacre, é preciso voltar a 2016. Naquele ano, após quatro décadas de negociações, o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinaram um acordo de paz que desmobilizou cerca de 13 mil combatentes e transformou a guerrilha em partido político. Porém, uma parcela significativa rejeitou o pacto desde o início. Néstor Gregorio Vera, o Iván Mordisco, e Alexander Diaz Mendoza, o Calarcá Córdoba, são os rostos mais conhecidos dessa dissidência. Ambos comandam estruturas paralelas que herdaram o know-how militar e as conexões com o narcotráfico, mas se separaram em 2023 por divergências sobre o diálogo com o governo e, principalmente, pelo controle das plantações de coca.

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A facção de Calarcá Córdoba optou por sentar à mesa de negociação com Gustavo Petro, enquanto o grupo de Iván Mordisco rompeu totalmente com o Estado depois que o governo suspendeu um cessar-fogo bilateral em 2024. Desde então, as duas frentes travam uma guerra surda por territórios, e o episódio de Guaviare mostra que a rivalidade escalou para combates abertos com dezenas de mortos. Na visão do MundoManchete, essa fragmentação é o maior desafio da paz colombiana, porque transforma o que era uma guerrilha unificada em uma miríade de milícias que atuam como verdadeiros cartéis. E, como qualquer cartel, não hesitam em se exterminar mutuamente quando o lucro está em jogo.

As eleições de domingo: trégua ou mais violência?

No último final de semana, o Estado-Maior Central, maior dissidência das Farc, anunciou uma suspensão nacional das operações militares contra as forças públicas entre 20 de maio e 10 de junho — período que cobre a eleição presidencial. Já os rebeldes do Exército de Libertação Nacional (ELN) decretaram um cessar-fogo separado. Soa como trégua, mas há um detalhe cruel: a pausa vale apenas para ataques ao Estado, não para confrontos entre grupos armados. Os 52 mortos de Guaviare são a prova de que o acordo de não agressão ao governo não impede que a guerra do tráfico continue ceifando vidas dentro das próprias fileiras rebeldes.

Essa situação coloca o novo presidente que sair das urnas diante de uma encruzilhada. Gustavo Petro apostou na “paz total”, negociando simultaneamente com vários atores, mas a realidade mostrou que algumas dessas negociações eram frágeis e que o poder de fogo das dissidências cresceu. Segundo fontes militares colombianas, o número de combatentes ativos em grupos dissidentes pode chegar a 5 mil, com presença em mais de 200 municípios. O próximo mandatário terá que decidir se mantém a via do diálogo — correndo o risco de legitimar facções que continuam se matando — ou se adota uma postura mais dura, o que poderia reacender o conflito em larga escala.

O Brasil na rota do tráfico: como a guerra na Colômbia chega aqui

Imagem ilustrativa

Quando 52 corpos caem numa selva a cerca de 400 quilômetros da fronteira com o Brasil, não se trata de uma tragédia distante. A região do Guaviare é parte de um corredor logístico que escoa cocaína pelos rios amazônicos até o estado do Amazonas. De lá, a droga segue para Manaus e, em seguida, para portos como Santos e Itajaí, abastecendo o mercado europeu e, cada vez mais, o consumo interno brasileiro. Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que a Colômbia produziu cerca de 1.400 toneladas de cocaína em 2025, e estima-se que 30% desse volume transite pelo território brasileiro.

Além do tráfico, a violência nas áreas de cultivo provoca deslocamentos populacionais que pressionam a faixa de fronteira. O Ministério da Justiça brasileiro já registrou nos últimos dois anos um aumento de 14% nas apreensões de drogas na região Norte, e a Polícia Federal intensificou operações de combate ao crime organizado em Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira. A guerra entre facções colombianas, portanto, não é apenas um problema diplomático: é um fator direto de instabilidade para a segurança pública do Brasil. A última vez que a Colômbia enfrentou um pico de violência dessa magnitude — durante a ofensiva das Farc em 2018 — as facções brasileiras, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, rapidamente se adaptaram para preencher vácuos de poder nas rotas fluviais.

FAQ: dúvidas sobre o conflito colombiano

1. As mortes em Guaviare podem desencadear uma nova guerra civil na Colômbia?
A Colômbia não vive um conflito binário governo vs. guerrilha desde o acordo de 2016. A situação atual é mais parecida com uma guerra entre cartéis militarizados do que com uma insurgência ideológica. Embora assustador, o embate entre facções dissidentes tende a permanecer limitado a disputas territoriais e não deve, num primeiro momento, escalar para um confronto nacional com o Estado. Porém, se o próximo governo optar por uma ofensiva militar ampla, o risco de reacender uma guerra de guerrilha tradicional existe.

2. Como o Brasil pode ser afetado diretamente?
O maior impacto é na segurança das fronteiras e no fortalecimento de facções criminosas brasileiras. A cocaína que entra pelo Amazonas irriga o mercado ilegal e fomenta a violência urbana em todo o país. Além disso, o aumento de refugiados colombianos pedindo asilo em municípios como Tabatinga pressiona os serviços públicos locais. Do ponto de vista econômico, a instabilidade na região pode comprometer investimentos em integração energética e rodoviária, como a rota Manaus-Bogotá.

3. Existe chance de um cessar-fogo total entre as facções rivais?
Difícil. As tréguas anunciadas recentemente excluem expressamente os confrontos entre grupos armados, porque esses grupos competem pelo mesmo recurso: o controle territorial para produção de coca. Qualquer cessar-fogo amplo demandaria um acordo paralelo de repartição de lucros, algo que não está na pauta de nenhuma mesa de negociação. A tendência é que a violência se mantenha enquanto o narcotráfico for a principal fonte de financiamento.

O que você deve fazer com essa informação

Notícias sobre morte e violência podem gerar angústia, mas a informação de qualidade é a melhor ferramenta para fugir do alarmismo e tomar decisões conscientes. Se você vive em regiões de fronteira ou pretende viajar para a Colômbia, acompanhe os comunicados da Polícia Federal e do Itamaraty sobre as condições de segurança. Pequenos cuidados, como evitar áreas rurais isoladas nos departamentos de Guaviare e Putumayo e não divulgar rotas de deslocamento em redes sociais, fazem diferença em zonas de conflito.

Para quem não está na linha de frente, a recomendação é olhar para o problema com a lente do consumidor e do eleitor. O Brasil tem peso diplomático suficiente para cobrar dos candidatos colombianos uma política antidrogas que não dependa exclusivamente da militarização, mas que ataque o poder financeiro do crime. Cobrar de nossos próprios representantes um plano integrado de proteção da Amazônia, que una inteligência policial com desenvolvimento social, como o discutido na negociação de acordos ambientais, é a contribuição mais concreta que qualquer cidadão pode dar. Na visão do MundoManchete, ignorar o que acontece na selva colombiana é fechar os olhos para uma ameaça que, mais cedo ou mais tarde, bate à porta de cada brasileiro.

Tags: Colômbia, Farc, narcotráfico, conflito armado, segurança fronteiriça

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Foto: Reproducao / InfoMoney