Em 1990, o Plano Collor congelou poupanças e contas correntes, deixando milhares de empresas brasileiras sem capital de giro da noite para o dia. Uma delas foi o Grupo Feital, que tinha 1.500 funcionários para pagar e fábricas espalhadas pelo país. O saldo em conta? R$ 50.
Mais de três décadas depois, a mesma empresa é a maior distribuidora de aço inoxidável da América Latina, com 125 mil itens em estoque e 50 mil clientes. O CEO Oswaldo Feital contou essa história em entrevista ao podcast Do Zero ao Topo, do InfoMoney. E o que ele diz sobre o futuro pode surpreender.
O primeiro baque que ele viu o pai sentir
Oswaldo Feital não esconde que a crise de 1990 foi um choque pessoal e profissional. Seu pai, que estava à frente da empresa na época, pediu que ele começasse a trabalhar juntos — mais como apoio emocional do que como executivo. “Eu não sabia fazer nada”, admite, rindo.
Na visão do MundoManchete, a história ilustra um ponto pouco explorado: em crises sistêmicas, o capital relacional (confiança com fornecedores e clientes) pode valer tanto quanto o dinheiro em caixa. O Grupo Feital manteve o compromisso de honrar fornecedores e preservar relacionamentos internacionais, o que garantiu prazos e condições para reconstruir a operação.
“A gente sempre teve um trabalho muito forte em fluxo de caixa dentro da empresa e o crédito em cima dos nossos fornecedores, devido ao nosso nome”, explica Oswaldo. A reputação construída pelo pai foi determinante para atravessar aquele momento.
A decisão dolorosa: vender as fábricas para sobreviver
Para reorganizar as finanças, o grupo vendeu parte da operação industrial. Primeiro foi a Plaminox. Depois, a Tubra, fabricante de tubos de aço inoxidável. A empresa permaneceu na distribuição, segmento que se tornou sua principal frente por mais de duas décadas.
“Eu sou apaixonado por fábrica. Sofri demais. Isso para mim foi uma dor enorme”, diz o CEO. A última vez que o Brasil viu um movimento semelhante em escala foi durante a crise de 2015-2016, quando grandes grupos industriais venderam ativos para reduzir dívidas — mas poucos conseguiram reverter o processo depois.
O Grupo Feital, no entanto, está fazendo exatamente isso. A empresa voltou a investir na produção industrial e já iniciou a compra de novos equipamentos para ampliar sua capacidade fabril em Ribeirão Pires (SP). O plano inclui novos investimentos em infraestrutura e expansão da unidade industrial.
O que isso muda na prática para o brasileiro comum?
Você pode nunca ter ouvido falar do Grupo Feital, mas ele está presente em quase todos os setores da economia. O aço inoxidável que a empresa distribui aparece em desde talheres e pias de cozinha até equipamentos hospitalares e peças industriais.
Com a retomada da produção industrial, a tendência é que a empresa gere empregos diretos e indiretos na região do ABC paulista. Atualmente, o grupo mantém mais de 125 mil itens em estoque e atende cerca de 50 mil clientes. Para efeito de comparação, isso equivale a mais itens do que um hipermercado médio — mas em aço inoxidável.
Além disso, a decisão de voltar a produzir no Brasil, em vez de importar, pode ter impacto na balança comercial e na oferta de produtos nacionais. “Eu gostaria de ser um protagonista forte novamente no tubo de aço inoxidável, exportando e produzindo novamente, mas dessa vez com maquinários de primeira linha que façam diferença”, afirma Oswaldo.
Os números que poucos conhecem sobre o Grupo Feital
O Grupo Feital foi fundado há mais de 80 anos e sobreviveu a crises que derrubaram concorrentes. Veja alguns dados que ajudam a dimensionar o negócio:
- 125 mil itens em estoque
- 50 mil clientes ativos
- 1.500 funcionários na época do Plano Collor (número atual não foi divulgado)
- 8 mil m² em nova unidade industrial sendo finalizada em Ribeirão Pires
- 10 mil m² adicionais em expansão
Para efeito de contexto, a última vez que uma empresa brasileira do setor metálico anunciou uma expansão desse porte foi em 2023, quando a Gerdau investiu R$ 3,2 bilhões em uma nova usina. O Grupo Feital não divulga valores de investimento, mas o plano indica aposta na retomada industrial.
O futuro segundo o CEO: otimismo, mas com os pés no chão
Oswaldo Feital é direto sobre o cenário atual: “Vai ser um segundo semestre meio complicado, mas um bom primeiro semestre de 2027.” A frase revela uma leitura pragmática do momento econômico brasileiro, que enfrenta juros altos e incertezas fiscais.
Na visão do MundoManchete, a declaração do CEO é um termômetro interessante para quem acompanha a economia real. Empresas como o Grupo Feital — que estão no meio da cadeia produtiva — sentem antes as variações de demanda. Se ele prevê um primeiro semestre de 2027 bom, isso sugere que a retomada deve começar a aparecer nos indicadores econômicos a partir do fim de 2026.
“A gente é sempre otimista, nunca pessimista, sempre acha que vai dar certo”, afirma. Mas o otimismo vem acompanhado de planejamento: a empresa já está com a expansão industrial engatilhada, com equipamentos comprados e obras em andamento.
Perguntas frequentes
O que foi o Plano Collor e por que ele afetou tanto as empresas?
O Plano Collor, implementado em março de 1990 pelo então presidente Fernando Collor de Mello, foi um pacote econômico que incluía o confisco de poupanças e contas correntes por 18 meses. Na prática, o governo retirou cerca de 80% do dinheiro em circulação. Isso fez com que empresas que dependiam de capital de giro — como o Grupo Feital — ficassem sem recursos para pagar salários, fornecedores e contas básicas. Estima-se que mais de 10 mil empresas fecharam as portas naquele ano.
O Grupo Feital é uma empresa familiar? Como é a sucessão?
Sim, o Grupo Feital é uma empresa familiar fundada há mais de 80 anos. Oswaldo Feital, atual CEO, é filho do fundador e começou a trabalhar na empresa durante a crise de 1990. A transição aconteceu de forma gradual, com o pai passando a liderança para o filho depois que a empresa se recuperou. Não há informações públicas sobre a próxima geração na sucessão.
A retomada da produção industrial do Grupo Feital vai gerar empregos?
Sim. A empresa está finalizando 8 mil metros quadrados de nova unidade industrial em Ribeirão Pires (SP) e planeja mais 10 mil metros quadrados. A tendência é que a expansão gere empregos diretos na produção, além de vagas indiretas na cadeia de fornecedores e logística. O CEO afirmou que os equipamentos já estão comprados e a produção já começou.
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O que você deve fazer com essa informação
Se você é empreendedor, a história do Grupo Feital ensina que crises podem ser oportunidades para repensar o negócio. Vender ativos não é fracasso — é estratégia de sobrevivência. E, quando as condições melhoram, é possível retomar o crescimento.
Se você é investidor, a leitura de cenário do CEO — “segundo semestre complicado, mas 2027 bom” — pode ajudar a calibrar expectativas para setores industriais e de distribuição. Fique de olho em empresas que estão expandindo capacidade agora: elas podem surfar a retomada.
Se você é apenas um curioso sobre economia, a história mostra que o Brasil já passou por crises muito piores do que a atual — e empresas sérias, com boa gestão e reputação, conseguem atravessá-las.
Tags: Grupo Feital, Plano Collor, crise econômica, aço inoxidável, empreendedorismo
Fonte Original: infomoney.com.br
Foto: Reproducao / InfoMoney
