Seu smartwatch pode estar causando ansiedade sem você saber

Seu smartwatch pode estar causando ansiedade sem você saber Reproducao / G1

O alerta que veio de uma caminhada

Há algumas semanas, durante uma palestra sobre saúde mental e tecnologia, um participante compartilhou uma história que ilustra perfeitamente o paradoxo dos wearables. Ele havia acabado de fazer uma longa caminhada em uma trilha na serra e se sentia incrível. O ar puro, o exercício, a paisagem — tudo contribuía para uma sensação de bem-estar. Então, olhou para o smartwatch. Frequência cardíaca: 130 bpm. Pânico instantâneo. Em segundos, a euforia deu lugar a uma preocupação genuína. Trinta minutos depois, ele lembrou que a altitude elevada poderia explicar o número. Mas o estrago estava feito: ele passou de se sentir perfeitamente bem para se sentir péssimo — tudo por causa de um número no pulso.

Essa história não é um caso isolado. Milhões de brasileiros usam smartwatches, anéis inteligentes e pulseiras fitness para monitorar passos, sono e batimentos cardíacos. A promessa é clara: mais consciência sobre a própria saúde. Mas, para muitas pessoas, esses dispositivos estão gerando o efeito oposto. Em vez de tranquilidade, eles provocam ansiedade. E o pior: muitas vezes, o usuário nem percebe que o aparelho é o gatilho.

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O cérebro como máquina de previsão

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Para entender por que um número no pulso pode causar tanto estrago, é preciso entender como nosso cérebro funciona. Ele não é um mero receptor passivo de informações. Pelo contrário: é uma máquina de previsão. A todo instante, ele gera e atualiza um modelo mental do nosso corpo e do ambiente, comparando o que espera encontrar com o que os sentidos informam.

Esse processo é automático e incrivelmente rápido. Se ele não funcionasse assim, processar cada estímulo do zero seria lento e ineficiente. É por isso que você sente o celular vibrar no bolso quando está esperando uma mensagem importante — mesmo que ele não tenha vibrado. É também por isso que você consegue ler uma frase com erros de digitação, como “capza ed lre etsa farse”: seu cérebro prevê o que deveria estar ali e corrige automaticamente.

O mesmo princípio se aplica aos estados corporais. Nosso cérebro não apenas lê os sinais do corpo — ele os prevê. Passamos o dia com um modelo interno do que é “normal”: como a pulsação, a temperatura e a respiração devem se sentir quando estamos calmos, ativos ou nervosos. Quando a informação sensorial não corresponde a essa expectativa, o cérebro gera um “erro de previsão”. É um alerta de que algo não está como esperado.

Quando o smartwatch vira o vilão da história

A maioria dos erros de previsão é trivial. O cérebro os resolve automaticamente, atualizando o modelo e ajustando as expectativas. Você nem percebe. Mas, quando o erro chega ao nível da consciência, seu cérebro busca uma explicação. Se sua frequência cardíaca parece mais rápida que o normal, você pode associar isso ao café que tomou ou à subida de escadas. Como esperamos que o corpo varie ao longo do dia, essas explicações geralmente são suficientes para evitar preocupação.

O problema com os wearables é que eles oferecem uma leitura que parece clara, objetiva e inquestionável. Um número no visor. Quando esse número contradiz a sensação de bem-estar, o cérebro dá mais peso ao dado externo do que à sensação interna. Você se sente bem, mas o relógio diz 130 bpm. O erro de previsão se torna consciente e, sem uma explicação imediata, a ansiedade assume o controle.

Minha pesquisa indica que esse efeito é especialmente forte em pessoas propensas à ansiedade. Elas já tendem a prestar mais atenção aos sinais internos do corpo — um fenômeno chamado hipervigilância. Durante a pandemia de COVID-19, meus colegas e eu conduzimos um estudo que mostrou que, quanto mais ansiosa uma pessoa era, mais provável que ela monitorasse estados corporais com medidas objetivas, como medir a temperatura. Esse comportamento parece protetor, mas pode rapidamente se tornar um ciclo vicioso.

O ciclo vicioso da ansiedade e dos dados

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Estudos recentes confirmam que os wearables podem amplificar esse ciclo. Em uma pesquisa com pessoas que têm fibrilação atrial, os monitores de frequência cardíaca foram associados a verificações mais frequentes dos sintomas e a maior ansiedade. Outro estudo, com cerca de 500 usuários de smartwatches, encontrou o mesmo padrão: as pessoas relatavam ansiedade quando os dados fisiológicos pareciam anormais.

Alguns participantes chegaram a descrever uma sensação de dependência. Ficavam frustrados quando não podiam usar o dispositivo ou se esqueciam de carregá-lo. Outros reconheceram o efeito negativo e consideraram abandonar o aparelho de vez. Na visão do MundoManchete, esse é um alerta importante: a tecnologia que deveria nos ajudar a cuidar da saúde pode, na prática, estar nos deixando mais doentes — emocionalmente falando.

O ciclo funciona assim: você vê um número inesperado → fica preocupado → presta mais atenção ao corpo → percebe mais variações → fica mais ansioso → a ansiedade aumenta a atenção ao corpo → e assim por diante. A terapia para ansiedade, inclusive, muitas vezes trabalha para reduzir esse comportamento de busca por segurança. Quando as pessoas param de se hiperconcentrar no corpo, os sintomas tendem a diminuir.

Para quem o risco é maior?

Os wearables não afetam todo mundo da mesma forma. Para algumas pessoas, eles são fonte de tranquilidade e até reduzem a ansiedade. O problema é que ainda não sabemos exatamente por que isso acontece. O que as evidências atuais sugerem é que o efeito negativo é mais pronunciado em pessoas com tendência à ansiedade, em quem já tem transtornos de pânico ou hipocondria, e em condições onde o monitoramento excessivo do corpo pode ser prejudicial, como distúrbios alimentares.

Um estudo com 500 usuários mostrou que, para a maioria, os dados eram vistos como úteis. Mas uma minoria significativa relatou ansiedade, frustração e até dependência. Essas pessoas descreviam uma sensação de alívio quando tiravam o relógio — como se um peso tivesse sido retirado dos ombros (e do pulso).

Na prática, o que define se o dispositivo será benéfico ou prejudicial pode ser a relação que você estabelece com os dados. Se você usa o smartwatch como uma ferramenta de curiosidade e aprendizado sobre o próprio corpo, ele tende a ser positivo. Se você usa como um juiz implacável que dita se você está saudável ou doente, o risco de ansiedade aumenta.

Como usar o smartwatch sem pirar

Se você percebe que está se preocupando mais com os dados do que com o bem-estar real, a solução pode ser mais simples do que parece. Faça um experimento: deixe o dispositivo desligado por um dia inteiro. Ou, se possível, oculte os dados de frequência cardíaca e oxigenação. Observe como seu corpo se sente sem o monitoramento constante. Você pode descobrir que confiar no que sente é mais preciso do que confiar no que o relógio mostra.

Outra dica prática: não olhe os dados imediatamente após o exercício. Espere alguns minutos, quando a frequência cardíaca já tiver voltado ao normal. Isso evita o pânico instantâneo que o caminhante do início do artigo experimentou. E, se você tem histórico de ansiedade, considere limitar o uso a funções básicas, como número de passos, em vez de monitoramento contínuo de sinais vitais.

Por fim, lembre-se: a moderação é a chave. Os wearables são ferramentas, não oráculos. Eles podem oferecer pistas, mas não substituem a avaliação de um profissional de saúde. Se os dados estão gerando mais estresse do que benefício, talvez seja hora de repensar o uso. Como em muitas coisas na vida, o equilíbrio faz toda a diferença.

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O que você deve fazer com essa informação

A primeira coisa é se observar. Preste atenção em como você se sente quando olha os dados do seu wearable. Se a sensação for de alívio ou curiosidade, ótimo. Se for de preocupação, ansiedade ou frustração, talvez seja hora de ajustar o uso. Não espere ter uma crise de pânico para agir.

Segundo: converse com seu médico. Se você tem ansiedade ou tendência a monitorar excessivamente o corpo, pergunte a ele se o uso de wearables é recomendado no seu caso. Muitos profissionais já estão atentos a esse efeito e podem orientar o uso de forma mais segura.

Terceiro: faça pausas. Desligue o dispositivo um dia por semana. Use esse tempo para reconectar com as sensações naturais do corpo, sem a mediação de números e gráficos. Você pode se surpreender com o quanto seu corpo já sabe se comunicar — sem precisar de um relógio para traduzir.

Na visão do MundoManchete, a tecnologia deve servir ao bem-estar, não o contrário. Se o smartwatch está virando uma fonte de estresse, ele está falhando em sua função principal. E, nesse caso, a melhor decisão pode ser simplesmente tirá-lo do pulso.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Todo mundo que usa smartwatch vai desenvolver ansiedade?
Não. Os wearables não afetam todo mundo da mesma forma. Para muitas pessoas, eles são ferramentas úteis que aumentam a consciência sobre a saúde e até reduzem a ansiedade. O risco é maior para quem já tem propensão à ansiedade, hipocondria ou tendência a monitorar excessivamente o corpo. Se você não se enquadra nesses perfis, as chances de desenvolver ansiedade por causa do dispositivo são baixas.

2. Como saber se meu smartwatch está me fazendo mal?
Preste atenção nos seus sentimentos ao usar o dispositivo. Se você sente alívio ou curiosidade ao ver os dados, o uso provavelmente é saudável. Se você sente preocupação, frustração ou uma necessidade compulsiva de verificar os números, pode ser um sinal de que o wearable está gerando ansiedade. Outro indicador é se você fica irritado ou ansioso quando não pode usar o aparelho. Nesse caso, vale a pena fazer uma pausa e reavaliar.

3. O que fazer se eu já estou me sentindo ansioso por causa do smartwatch?
A primeira medida é simples: desligue o dispositivo por alguns dias. Observe como você se sente sem o monitoramento constante. Se a ansiedade diminuir, considere limitar o uso a funções básicas ou usar o aparelho apenas durante o dia, sem monitoramento noturno. Se a ansiedade persistir mesmo sem o wearable, procure ajuda profissional. Um psicólogo ou psiquiatra pode ajudar a identificar a causa e oferecer estratégias para lidar com o problema.

Tags: smartwatch, ansiedade, saúde mental, wearables, frequência cardíaca


Fonte Original: g1.globo.com

Foto: Reproducao / G1