O São João do Nordeste, um dos maiores eventos culturais do Brasil, se tornou palco de uma intensa discussão. Recentemente, artistas do forró, como Walkyria Santos e Flávio José, expressaram sua revolta contra a desvalorização do ritmo local em comparação ao sertanejo. As críticas incluem cachês desiguais e a postura do público, que muitas vezes só se anima quando a atração principal sobe ao palco. Isso levanta a questão: a festa está perdendo suas raízes? E qual o impacto disso no futuro do forró?
O desabafo de Walkyria Santos: ‘Deixa o sertanejo lá’
Na tarde de sábado (6), a cantora Walkyria Santos, ex-vocalista da banda Magníficos, subiu ao palco do Alto do Moura, em Caruaru (PE), um reduto do forró tradicional. Diante de um público animado, ela não conteve a emoção: “Não tem um artista de forró que passe por esse palco e não se emocione com esse público. Deixa o sertanejo lá naquele palco principal e a gente do forró aqui. Eu só quero vir pra cá agora, viu?” Sua declaração viralizou, expondo uma insatisfação que já era sentida nos bastidores.
Horas depois, já à noite, Walkyria se apresentou no Parque do Povo, em Campina Grande (PB), e notou uma recepção diferente. Parte do público parecia dispersa, aguardando a atração principal da noite, a dupla sertaneja Henrique & Juliano. “Tô achando vocês acanhados. Estão esperando Henrique & Juliano? Tem outras atrações antes deles, viu? Vocês podem interagir, cantar, dançar… não vai fazer mal a ninguém”, disparou. No dia seguinte, ela explicou que seu desabafo também foi motivado por problemas de bastidores, já que seu horário havia sido alterado de última hora.
Robson Paiva expõe ‘acordo velado’ contra o forró
O debate não parou por aí. Nos comentários das redes sociais de Walkyria, outros artistas do forró se manifestaram em apoio. O cantor potiguar Robson Paiva foi além e apontou o que chamou de “acordo velado” no mercado fonográfico. Em entrevista ao g1, ele questionou: “Quando foi que você viu Walkyria Santos tocando em Goiânia, por exemplo? Você não vai encontrar. Se você fizer um balanço sobre os festivais de música que acontecem no Sul e no Sudeste, com raras exceções, nenhum inclui bandas de forró. Mas os sertanejos de lá estão sempre aqui. Não é um acordo no papel, mas todo mundo sabe.”
Essa crítica revela uma assimetria cultural que incomoda há anos. Enquanto os sertanejos dominam o Nordeste durante o São João, as bandas de forró raramente conseguem espaço em eventos de grande porte no Sul e Sudeste. Isso não só desvaloriza o forró, mas também cria uma dependência econômica dos artistas locais em relação aos grandes polos juninos. Para o artista tradicional, sobra pouco além da sazonalidade.
Flávio José cancela 15 shows na Bahia: ‘Sertanejos ganham rios de dinheiro’
A situação escalou quando o sanfoneiro Flávio José, de 74 anos, anunciou o cancelamento de 15 apresentações agendadas na Bahia. Em um desabafo nas redes sociais, ele afirmou: “Este ano a Bahia ficará sem minha presença. Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com o forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro.”
A decisão de Flávio José é um protesto direto contra a disparidade de investimentos. Enquanto os sertanejos recebem cachês milionários, artistas que dedicaram a vida ao forró veem seus valores serem cortados. Isso levanta uma questão prática: se os artistas locais não conseguem se manter financeiramente, quem vai manter viva a tradição do forró nos próximos anos? A resposta pode ser amarga para quem ama o ritmo.
Henrique & Juliano minimizam polêmica: ‘Exaltar o lado positivo’
Procurada pelo g1, a dupla Henrique & Juliano minimizou a polêmica. O cantor Henrique afirmou: “Acho que a gente tem que exaltar mais o lado positivo, não dar tanta visibilidade para o negativo da coisa, sabe? São 60 mil pessoas que estão aí, então a gente tem que dar o nosso melhor pra essa galera que saiu de casa.” A declaração, embora diplomática, não abordou o cerne da questão: a diferença de cachês e o tratamento desigual entre os gêneros.
A resposta de Henrique & Juliano parece uma tentativa de desviar o foco. O problema não é a presença deles no São João, mas o desequilíbrio que torna inviável para os artistas locais competirem em condições justas. Enquanto o sertanejo é tratado como atração principal, o forró é relegado a um papel coadjuvante, mesmo sendo a alma da festa.
O que dizem as prefeituras: números que surpreendem
As prefeituras de Campina Grande e Caruaru, os dois maiores polos juninos do país, defendem que o forró ainda é a base dos eventos. Em Campina Grande, dos 33 dias de festa (de 3 de junho a 5 de julho), 52% das 119 atrações são de forró. O sertanejo aparece em terceiro lugar, com apenas 7% das atrações. Já em Caruaru, o índice é ainda maior: 80% de toda a programação é dedicada ao forró, com 26 mil artistas envolvidos em 27 polos de animação ao longo de 78 dias de festa.
Os números parecem contradizer as críticas dos artistas, mas a realidade é mais complexa. Embora a quantidade de atrações de forró seja maior, os cachês e o tratamento de bastidores são desiguais. Um artista de forró pode se apresentar para um público pequeno em um polo secundário, enquanto o sertanejo lota o palco principal com um cachê que é dezenas de vezes maior. Para o artista local, isso significa menos visibilidade e menos dinheiro no bolso.
O que você deve fazer com essa informação
Se você é fã de forró e quer ajudar a preservar a tradição, a primeira dica é simples: prestigie os artistas locais. Vá aos shows de forró nos polos secundários, compre os discos e compartilhe o trabalho deles nas redes sociais. Se você for a um evento de São João, evite ficar apenas esperando a atração principal. Dance, cante e interaja com todos os artistas que se apresentarem. Isso envia um sinal claro para os organizadores de que o público valoriza o forró tanto quanto o sertanejo.
Além disso, fique de olho nas programações e nos cachês divulgados. Se você perceber que sua cidade está dando muito mais espaço e dinheiro para artistas de fora em detrimento dos locais, pressione os organizadores e a prefeitura. Redes sociais e abaixo-assinados podem fazer diferença. A cultura do forró não precisa morrer — ela só precisa de um público que lute por ela.
FAQ: Perguntas frequentes sobre a polêmica do forró no São João
1. Por que os artistas de forró estão reclamando dos sertanejos?
Os artistas de forró, como Walkyria Santos e Flávio José, reclamam que os cachês pagos aos sertanejos são muito superiores aos deles, mesmo em eventos tradicionais de São João. Além disso, eles apontam que o público muitas vezes só se anima quando a atração sertaneja sobe ao palco, desrespeitando os artistas locais. Robson Paiva também denunciou um “acordo velado” que permite aos sertanejos tocarem no Nordeste, mas impede bandas de forró de se apresentarem em festivais no Sul e Sudeste.
2. As prefeituras estão ouvindo as críticas dos artistas?
As prefeituras de Campina Grande e Caruaru defendem que o forró ainda é a base dos eventos. Em Campina, 52% das atrações são de forró; em Caruaru, 80%. No entanto, os artistas argumentam que a quantidade não reflete a qualidade do tratamento. Enquanto os sertanejos recebem cachês milionários e horários nobres, os artistas de forró muitas vezes são escalados para polos secundários ou horários menos atrativos, com cachês menores.
3. Isso pode afetar a tradição do São João no futuro?
Sim. Se os artistas de forró não conseguirem se manter financeiramente, a tendência é que o ritmo perca espaço para o sertanejo, que domina o mercado fonográfico. A longo prazo, o São João pode se tornar uma festa cada vez mais homogênea, com menos espaço para as raízes culturais. No entanto, a reação dos artistas e do público pode ajudar a reverter esse quadro, desde que haja pressão sobre os organizadores e valorização dos artistas locais.
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Tags: forró, São João, Walkyria Santos, Flávio José, sertanejo, cultura nordestina, cachê
Fonte Original: g1.globo.com
