O Brasil perdeu um dos maiores nomes da teledramaturgia. Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas marcantes como “Pantanal”, “O Rei do Gado” e “Renascer”, morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, em São Paulo. A causa foi insuficiência renal crônica, condição que o acompanhava há três anos, segundo boletim do hospital Hcor.
A notícia reacende um alerta importante: a doença renal crônica (DRC) é silenciosa, atinge milhões de brasileiros e pode ser evitada com cuidados simples. Neste artigo, o MundoManchete explica o que é a doença, como ela evolui, quais os sintomas e, principalmente, o que você pode fazer para proteger seus rins.
O que é a insuficiência renal crônica e por que ela é tão perigosa?
A insuficiência renal crônica é a perda progressiva e irreversível da função dos rins. Diferente de uma infecção urinária ou de uma pedra nos rins, que podem ser tratadas e curadas, aqui o dano é permanente. Os rins deixam de filtrar o sangue adequadamente, e substâncias tóxicas — como ureia e creatinina — se acumulam no organismo.
O grande perigo é que a doença evolui sem sintomas por anos. Muita gente descobre o problema já em estágio avançado, quando a filtração está abaixo de 30% ou até 15%. “Há um acúmulo de várias substâncias, como ureia, creatinina e de eletrólitos como potássio, que pode levar a arritmia”, explica o nefrologista Hugo Abensur, da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Na prática, o rim não é só um filtro. Ele também produz hormônios que controlam a produção de glóbulos vermelhos (evitando anemia) e ativa a vitamina D, essencial para a saúde dos ossos. Quando ele falha, o corpo inteiro sofre.
Os estágios da doença: do silêncio à diálise
A gravidade da DRC é medida pela taxa de filtração glomerular (TFG), que estima a capacidade dos rins de filtrar o sangue. O Ministério da Saúde divide a doença em cinco estágios:
- Estágios 1 e 2: alterações iniciais, função renal ainda preservada. Geralmente sem sintomas.
- Estágio 3: redução moderada (filtração entre 30% e 60%). Podem surgir cansaço e inchaço.
- Estágio 4: perda grave (filtração entre 15% e 30%). Sintomas mais evidentes.
- Estágio 5: fase avançada (filtração abaixo de 15%). O paciente precisa de diálise ou transplante.
De acordo com o nefrologista Pedro Túlio Rocha, vice-presidente Sudeste da Sociedade Brasileira de Nefrologia, quando a filtração cai para menos de 10%, a diálise se torna inevitável. As sessões acontecem três vezes por semana, com duração de 3h30 a 4h cada. “A diálise substitui a filtração, mas não substitui a função endócrina do rim. O paciente precisa de reposição de eritropoetina e vitamina D ativa”, explica Abensur.
O que isso muda na prática para o brasileiro comum?
Muita coisa. A DRC atinge cerca de 10% da população mundial, segundo a OMS. No Brasil, a prevalência é de 6,7% entre adultos — e triplica em pessoas com 60 anos ou mais. Ou seja, se você tem mais de 60, as chances de ter algum grau de disfunção renal sobem para cerca de 20%.
Os números estão crescendo. Dados do Ministério da Saúde mostram que os atendimentos na atenção primária por DRC saltaram de 74 mil em 2019 para mais de 188 mil em 2023. As internações também dispararam: de 84,3 mil em 2010 para 140,6 mil em 2023. O envelhecimento da população e o aumento de diabetes e hipertensão são os principais motivos.
Na visão do MundoManchete, o maior problema é que a doença é subdiagnosticada. Muitos brasileiros só descobrem o problema quando já estão em estágio avançado. O SUS oferece diálise e transplante gratuitamente, mas o ideal é nunca chegar lá.
“Se a gente consegue detectar a doença nos estágios iniciais, existem muitas medicações que conseguem frear a progressão”, diz a nefrologista Maria Julia Nepomuceno, do Hospital Nove de Julho.
Diabetes e pressão alta: os maiores vilões dos rins
As duas principais causas da DRC são o diabetes mellitus e a hipertensão arterial. Juntas, elas respondem pela maioria dos casos que evoluem para perda avançada da função renal. “O diabetes é uma doença do descontrole da glicose. Essa glicose se torna tóxica para o rim quando está em níveis muito altos”, explica Nepomuceno.
A hipertensão, por sua vez, danifica os vasos sanguíneos dos rins, reduzindo a capacidade de filtração. Outras causas menos comuns incluem doenças autoimunes (como lúpus), doenças genéticas (como a doença policística) e infecções urinárias de repetição.
O alerta dos especialistas é claro: controlar o diabetes e a pressão é a medida mais eficaz para prevenir a DRC. E, para quem já tem a doença, o tratamento adequado dessas condições pode retardar a progressão em anos.
Sintomas silenciosos e exames que podem salvar seus rins
Nos estágios iniciais, a DRC não dá sinais. Quando os sintomas aparecem, a doença já está avançada. Os principais sinais de alerta incluem:
- Inchaço nas pernas, tornozelos e pés
- Cansaço excessivo e falta de ar
- Náuseas e perda de apetite
- Anemia (palidez, fraqueza)
- Alterações na pressão arterial
- Coceira na pele e cãibras
A boa notícia é que o diagnóstico pode ser feito com exames simples e de baixo custo. O principal é a dosagem de creatinina no sangue, que permite calcular a taxa de filtração glomerular. Outro exame importante é a urina tipo 1, que detecta a presença de proteínas (albuminúria). “Normalmente, a gente não deve perder proteína na urina. Se a perda for maior que 30 mg por dia, é um indicativo de doença renal crônica”, explica Abensur.
A Sociedade Brasileira de Nefrologia recomenda que pessoas com diabetes, hipertensão, histórico familiar de doença renal ou acima de 60 anos façam exames de rastreamento anualmente.
FAQ: Tire suas dúvidas sobre a doença renal crônica
1. Insuficiência renal crônica tem cura?
Na maioria dos casos, não. A doença é progressiva e o dano ao tecido renal é irreversível. O tratamento busca controlar a causa (diabetes, hipertensão), evitar novas lesões e preservar a função renal pelo maior tempo possível. Em estágios avançados, a diálise ou o transplante renal são as únicas opções. O transplante, quando bem-sucedido, pode restaurar a função renal, mas o paciente precisa tomar imunossupressores pelo resto da vida.
2. Quem tem maior risco de desenvolver a doença?
Pessoas com diabetes, hipertensão arterial, histórico familiar de doença renal, obesidade, doenças autoimunes (como lúpus) e infecções urinárias de repetição. O risco também aumenta com a idade — cerca de 20% dos idosos têm algum grau de disfunção renal. Além disso, o uso indiscriminado de anti-inflamatórios (como diclofenaco) pode agravar a condição em pessoas já predispostas.
3. Como prevenir a doença renal crônica?
As principais medidas são: controlar o diabetes e a hipertensão, manter uma alimentação equilibrada com baixo consumo de sal, praticar atividade física regular, não fumar, evitar o uso excessivo de anti-inflamatórios e fazer exames de rotina (creatinina e urina) anualmente, especialmente após os 60 anos. O diagnóstico precoce é a chave para retardar a progressão da doença.
O que você deve fazer com essa informação
A morte de Benedito Ruy Barbosa nos lembra que a saúde dos rins não pode ser ignorada. Se você tem diabetes, pressão alta, mais de 60 anos ou histórico familiar de doença renal, marque uma consulta com um clínico geral ou nefrologista e peça exames simples de sangue e urina. O diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença.
Além disso, adote hábitos saudáveis: reduza o sal, controle o peso, não fume e evite anti-inflamatórios sem orientação médica. Se você já tem diagnóstico de DRC, siga o tratamento à risca — as medicações atuais (incluindo os agonistas de GLP, usados no diabetes) podem retardar a progressão da doença e adiar a necessidade de diálise.
Se cuida. Seus rins agradecem.
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Tags: Benedito Ruy Barbosa, insuficiência renal crônica, doença renal crônica, diabetes, hipertensão
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
