O Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado, mas será que estamos preparados para isso? No livro recém-lançado A (difícil) decisão de envelhecer, o gerontólogo Jorge Félix, professor da USP, faz um alerta contundente: o país precisa tratar o envelhecimento como prioridade de Estado, e não apenas como um problema fiscal da Previdência. A obra reúne artigos que escancaram a falta de planejamento para uma realidade que já bate à porta.
O envelhecimento que não cabe só na Previdência
Para Félix, reduzir o debate sobre a velhice ao déficit da Previdência é um erro grave. O pesquisador defende que o envelhecimento populacional é uma transformação econômica e social que exige ações em várias frentes: saúde, educação continuada, moradia adaptada, transporte acessível e segurança alimentar. “O Brasil precisa tomar essa decisão difícil de envelhecer de verdade, não o envelhecimento fake do aplicativo”, escreve o autor, em referência aos filtros que simulam rugas e cabelos brancos nas redes sociais.
Na visão do MundoManchete, a crítica é certeira: enquanto gestores públicos tratam a longevidade como um custo a conter, perdem a oportunidade de enxergar o potencial econômico e social de uma população que vive mais. O livro mostra que a economia da longevidade pode gerar empregos, inovação e uma nova cesta de consumo — com menos foco em fraldas infantis e mais em produtos e serviços para idosos.
O que a economia da longevidade tem a ver com você
Se você acha que envelhecimento é assunto só de quem já passou dos 60, engana-se. A mudança demográfica impacta o mercado de trabalho, os planos de saúde, a previdência privada e até o preço dos imóveis. Países ricos, como Japão e Alemanha, já estão se (re)industrializando para atender a essa nova demanda — e o Brasil corre o risco de ficar para trás.
Félix destaca que a interdisciplinaridade do tema ainda é ignorada por aqui. Isso significa que, na prática, o brasileiro comum enfrenta: falta de médicos geriatras no SUS, calçadas esburacadas que dificultam a mobilidade, ausência de programas de requalificação profissional para quem quer trabalhar após os 60 anos e planos de saúde que reajustam mensalidades sem controle claro. O livro cobra uma visão integrada, que vá além do discurso de “envelhecer com saúde” e realmente crie condições para isso.
Negar a velhice não faz o tempo parar
Um dos pontos mais provocativos do livro é a crítica à “fuga frenética” do envelhecimento. Félix observa que, enquanto a internet é tomada por dicas de rejuvenescimento e filtros que escondem as marcas da idade, o debate sério sobre direitos dos idosos fica em segundo plano. “O curioso é que, quanto mais se escreve sobre envelhecer, mais as pessoas reagem e se embrenham em uma fuga frenética rumo a um desconhecido ‘desenvelhecer’”, escreve.
O pesquisador também questiona a romantização das chamadas blue zones — regiões onde as pessoas vivem mais do que a média global. Ele argumenta que esses exemplos são difíceis de replicar em larga escala e podem desviar o foco das políticas públicas necessárias. Na visão do MundoManchete, a mensagem é clara: em vez de buscar fórmulas mágicas, é hora de encarar a velhice como parte natural da vida e cobrar ações concretas.
Endividamento e pandemia: dois retratos da vulnerabilidade
A coletânea de artigos de Félix aborda temas que só ganharam relevância nos últimos anos. Um deles é o endividamento dos idosos — problema que cresce à medida que aposentadorias e pensões perdem poder de compra e o crédito consignado se torna uma armadilha. Outro é a política de saúde durante a pandemia de Covid-19. Em um dos textos, o professor critica duramente a abordagem do então ministro da Economia, Paulo Guedes, que priorizou o equilíbrio fiscal em detrimento de medidas sanitárias robustas.
“O objetivo maior da economia, como um ramo das ciências sociais, é garantir a vida, oferecer respostas às ameaças ao bem-estar social, ou seja, servir ao homem”, escreve Félix.
Para o leitor brasileiro, essa reflexão ressoa ainda mais forte. Durante a pandemia, os idosos foram os mais afetados — não apenas pelo vírus, mas pela falta de leitos de UTI, atraso na vacinação e isolamento social prolongado. O livro lembra que a velhice não pode ser tratada como um “problema menor” quando há crise.
OMS recuou, mas a luta continua
Félix celebra uma vitória importante: a Organização Mundial da Saúde (OMS) voltou atrás na decisão inicial de classificar a velhice como doença. Se isso tivesse sido oficializado, seria um “carimbo de prazo de validade vencido” para os idosos, como define o autor. A decisão da OMS, no entanto, não elimina os desafios — apenas evita que o envelhecimento seja patologizado.
O pesquisador defende que o Brasil aproveite o momento para construir uma política nacional de cuidados de longa duração, que integre saúde, assistência social e previdência. Países como Uruguai e Costa Rica já avançaram nessa direção. Por aqui, o Estatuto do Idoso é um avanço, mas ainda falta regulamentação e financiamento para que ele saia do papel.
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O que você deve fazer com essa informação
Se você tem menos de 50 anos, pode achar que o assunto não é para agora. Mas o futuro chega rápido — e as decisões de hoje definem como será a velhice de amanhã. Acompanhe as propostas dos candidatos nas próximas eleições (em 2026, teremos disputa presidencial e para o Congresso) e cobre políticas que vão além da Previdência. Se você já é idoso ou cuida de alguém que é, informe-se sobre os direitos previstos no Estatuto do Idoso e denuncie violações. Leia o livro de Jorge Félix — ele é um convite à reflexão e, mais do que isso, à ação.
Perguntas frequentes sobre o envelhecimento no Brasil
O Brasil está preparado para o envelhecimento da população?
Não, de acordo com especialistas como Jorge Félix. O país ainda carece de políticas integradas que envolvam saúde, urbanismo, educação e trabalho. A Previdência é o único tema que recebe atenção, mas o envelhecimento exige uma abordagem muito mais ampla. Sem planejamento, os idosos continuarão enfrentando dificuldades de acesso a serviços básicos e qualidade de vida.
O que é a economia da longevidade?
É o conjunto de atividades econômicas voltadas para atender às necessidades de uma população que vive mais. Inclui desde produtos farmacêuticos e planos de saúde até serviços de lazer, moradia adaptada e tecnologia assistiva. Países desenvolvidos já enxergam esse setor como uma oportunidade de crescimento, enquanto o Brasil ainda o trata como um custo.
Como posso me preparar financeiramente para a velhice?
Além de contribuir para a Previdência Social (INSS), é recomendável investir em previdência privada, manter uma reserva de emergência e evitar o endividamento excessivo. Também vale a pena buscar qualificação profissional contínua, já que muitas pessoas continuam trabalhando após os 60 anos. O livro de Félix sugere que a preparação vai além do dinheiro: inclui cuidar da saúde, manter laços sociais e cobrar políticas públicas.
Tags: envelhecimento, Jorge Félix, gerontologia, políticas públicas, longevidade
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
