n Paraguai: o milagre econômico que a América Latina ignora

Paraguai: o milagre econômico que a América Latina ignora

Paraguai: o milagre econômico que a América Latina ignora Reproducao / G1

Enquanto o Brasil e a Argentina enfrentam crises fiscais e políticas, um pequeno país no centro da América do Sul vem escrevendo uma história diferente. O Paraguai cresceu, em média, 5,5% ao ano nos últimos três anos — muito acima da média regional. Mais de 300 mil pessoas saíram da pobreza, o desemprego caiu ao menor nível em 13 anos e o país acaba de conquistar o cobiçado grau de investimento da Moody’s e da S&P.

Mas por que, então, a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar desse “milagre paraguaio”? E, mais importante: o que podemos aprender com ele — e o que ele esconde?

O motor do crescimento: energia, agricultura e impostos baixos

O Paraguai não descobriu petróleo nem fez reformas milagrosas da noite para o dia. O segredo está em três pilares que sustentam a economia há décadas, mas que agora se alinharam perfeitamente.

Energia limpa e barata: O país é o maior exportador mundial de eletricidade limpa per capita, graças à usina de Itaipu (que divide com o Brasil). Com energia farta e renovável, o Paraguai virou um ímã para centros de dados, mineração de criptomoedas e indústrias de alta tecnologia. “A energia é o trunfo geopolítico do Paraguai”, afirma Mariano Machado, analista-chefe da Verisk Maplecroft.

Agropecuária forte: A soja, a carne bovina e suína, e a celulose (com a fábrica da Paracel, o maior investimento privado da história do país) puxam as exportações. Depois de uma seca severa em 2022, as colheitas se recuperaram e as vendas externas dispararam.

Impostos competitivos: A carga tributária paraguaia é de apenas 14% do PIB — a segunda menor da América Latina. O imposto de renda, o IVA e os impostos corporativos têm alíquotas fixas de 10%. No Brasil, a alíquota efetiva das empresas chega a 34%. Não é à toa que multinacionais como Cofco, ADM e Viterra ampliaram suas operações por lá.

Para o economista Lucas Mendes Teixeira, presidente do centro de estudos LatAm Future, “a disciplina macroeconômica do Paraguai permite reduzir impostos e oferecer isenções fiscais, atraindo bilhões em investimentos”.

O lado B do boom: desigualdade e trabalho informal

Se os números macro impressionam, a realidade nas ruas de Assunção e no interior do país é mais complexa. O coeficiente de Gini — que mede a desigualdade — está em 0,45, um dos piores da América Latina. Isso significa que o crescimento não está chegando a todos.

Humberto A. Colman, economista-chefe da fundação Dende, explica: “Seis a cada 10 trabalhadores estão na economia informal, sem acesso à previdência social. E, embora os salários reais tenham subido mais de 5% no último ano, muitas famílias ainda não recuperaram o poder aquisitivo perdido com a inflação dos alimentos.”

O resultado é um abismo que não se fecha: enquanto a pobreza extrema caiu para 2,4% (mínimo histórico), a pobreza rural ainda atinge cerca de 40% da população do campo. O boom econômico paraguaio, portanto, é real — mas ainda não virou qualidade de vida para a maioria.

O que o Brasil pode aprender com o Paraguai?

Na visão do MundoManchete, a experiência paraguaia oferece lições valiosas para o Brasil, especialmente em três áreas:

1. Simplicidade tributária: Enquanto o Brasil tem um dos sistemas mais complexos do mundo, o Paraguai mantém alíquotas fixas e baixas. Isso atrai investimento e reduz a burocracia. “Os promotores internacionais investem bilhões no país por isso”, destaca Mendes Teixeira.

2. Energia como vantagem competitiva: O Brasil também tem energia limpa e barata (hidrelétricas, eólica, solar), mas não consegue transformar isso em atração de indústrias de alta tecnologia com a mesma eficiência. O Paraguai mostra que é possível usar a energia como “moeda de troca” para desenvolver setores como inteligência artificial e centros de dados.

3. Estabilidade macroeconômica: O Paraguai manteve a inflação baixa e a dívida pública moderada, mesmo durante a pandemia. Isso gerou confiança nos investidores e nas agências de risco. O Brasil, com sua dívida alta e volatilidade fiscal, ainda patina nesse quesito.

Mas há um alerta: o Paraguai mostra que crescer não basta. É preciso distribuir. Enquanto 60% da força de trabalho estiver na informalidade, o crescimento será frágil e concentrado.

O futuro: crescimento mais lento, mas sustentável?

As projeções do FMI indicam que o crescimento do Paraguai deve cair para 3,7% em 2026 — ainda bom, mas bem abaixo dos 6,6% de 2025. O país está saindo de uma fase excepcional para uma “fase de execução”, como define Mariano Machado.

Os desafios são enormes: melhorar a infraestrutura (o Corredor Bioceânico, que ligará o Atlântico ao Pacífico, ainda não está concluído), formalizar a economia e reduzir a desigualdade. O governo do presidente Santiago Peña tenta equilibrar a agenda ortodoxa com políticas sociais que atendam a população mais pobre.

Para Alonso Chaverri-Suárez, representante do BID no Paraguai, “o país detém uma janela de oportunidade para transformar estabilidade em investimento, investimento em produtividade e produtividade em melhores empregos”. A pergunta que fica é: ele conseguirá?

O que você deve fazer com essa informação

Para o brasileiro, a história do Paraguai não é apenas uma curiosidade. Ela serve como um termômetro do que pode acontecer em uma economia que simplifica impostos, aposta em energia limpa e mantém a estabilidade fiscal. Se você é empresário, investidor ou apenas um cidadão que paga impostos, vale a pena acompanhar de perto: o Paraguai está se tornando um polo de atração de investimentos que poderiam estar no Brasil.

Se você está pensando em empreender ou investir no Paraguai (muitos brasileiros já fazem isso, especialmente em Ciudad del Este e na região de fronteira), saiba que o país oferece vantagens reais, mas também riscos — como a informalidade e a burocracia local. Pesquise bem antes de tomar qualquer decisão.

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Perguntas Frequentes (FAQ)

O Paraguai realmente cresceu mais que o Brasil nos últimos anos?

Sim. Enquanto o Brasil cresceu em média 2-3% ao ano entre 2023 e 2025, o Paraguai teve uma média de 5,5%. Em 2025, o PIB paraguaio cresceu 6,6%, contra cerca de 3% do Brasil. A diferença se deve principalmente à base menor do Paraguai, à recuperação agrícola após a seca de 2022 e ao forte fluxo de investimentos estrangeiros.

O Paraguai é um bom lugar para investir para brasileiros?

Depende. O país oferece impostos baixos (10% de IR e IVA), energia barata e mão de obra mais barata que a brasileira. Mas a infraestrutura ainda é precária em muitas regiões, a burocracia local pode ser complicada e a informalidade é alta. Empresários brasileiros têm se beneficiado principalmente nos setores de comércio de fronteira, agronegócio e logística. É essencial contratar assessoria jurídica local especializada.

A desigualdade no Paraguai é maior que no Brasil?

O coeficiente de Gini do Paraguai é de cerca de 0,45, enquanto o do Brasil está em torno de 0,53 (dados de 2025). Ou seja, o Brasil ainda é mais desigual. No entanto, a desigualdade paraguaia é alarmante porque o crescimento econômico não tem se traduzido em melhoria proporcional para os mais pobres. A informalidade atinge 60% dos trabalhadores, contra cerca de 40% no Brasil.

Tags: Paraguai, crescimento econômico, América Latina, desigualdade, investimentos


Fonte Original: g1.globo.com

Foto: Reproducao / G1