O Brasil viveu, entre 2007 e 2025, uma vitória histórica na saúde pública: o tabagismo caía ano após ano. Mas, em 2026, a curva inverteu. Dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que o número de fumantes no país deu um salto de cerca de 25% em relação ao período anterior, a primeira alta desde 2007. O vilão dessa reviravolta não está apenas nos maços de cigarro — ganhou sabor menta, lata colorida e nome inofensivo. São os sachês de nicotina, os cigarros eletrônicos e outros dispositivos que, na prática, criam uma geração poliviciada. O MundoManchete explica o que mudou, por que isso importa para o dia a dia do brasileiro e o que fazer a respeito.
O retorno do tabagismo: 25% mais fumantes no Brasil
Desde que a Vigitel começou a monitorar o hábito de fumar, em 2006, o percentual de fumantes adultos caiu de 15,7% para algo em torno de 9% em 2024. Em 2026, no entanto, a taxa voltou a subir para perto de 11,3% — aumento relativo de 25%. Isso significa que, em números absolutos, cerca de 2 milhões de brasileiros voltaram a se declarar fumantes. O crescimento é ainda mais expressivo entre jovens de 18 a 24 anos, onde a proporção quase dobrou em algumas capitais.
O que explica essa guinada? A resposta está na diversificação de produtos de nicotina. Enquanto o cigarro convencional perdeu apelo, a indústria lançou alternativas que não parecem cigarro, não soltam fumaça tradicional e são vendidas como “modernas”. Mas a verdade é que entregam mais nicotina e viciam mais rápido. A Anvisa proíbe a comercialização desses produtos, mas o comércio ilegal corre solto nas redes sociais, em festas e até em lojas de conveniência de grandes cidades. Para o bolso do brasileiro, o impacto vai além da saúde: o SUS já gasta R$ 56 bilhões por ano com doenças relacionadas ao tabaco, e a tendência é que essa conta aumente.
Os sachês de nicotina: a nova bomba disfarçada
Conhecidos como “nicotine pouches”, os sachês de nicotina são pequenos envelopes que o usuário coloca entre a gengiva e o lábio. Eles liberam nicotina diretamente na mucosa, sem combustão, sem cheiro forte e sem a necessidade de sair do lugar para fumar. Quer um número que assusta? Enquanto um cigarro comum tem 1 mg de nicotina, cada sachê pode conter de 4 mg a 18 mg da substância. É uma bomba de dependência no organismo de qualquer jovem.
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No Brasil, nenhum sachê de nicotina tem registro na Anvisa, portanto qualquer venda é ilegal. Ainda assim, é fácil encontrá-los em marketplaces ou importados em pequenos lotes. As embalagens lembram latas de chiclete, com cores vibrantes e sabores que vão de frutas vermelhas a hortelã. “É um produto desenhado para iniciar o hábito de forma lúdica”, explicou o pneumologista Paulo Corrêa, autor de relatório da ONG ACT Promoção da Saúde. Nos Estados Unidos, já há relatos de overdoses de nicotina em serviços de urgência ligados a esses sachês — algo impensável há dez anos.
Na visão do MundoManchete, o silêncio sobre os sachês é tão perigoso quanto o produto. Diferente dos vapes, que geram debate público, os sachês ainda passam despercebidos por pais e educadores, justamente por não soltarem vapor. Isso explica por que a indústria está apostando tanto neles.
A indústria do tabaco e o alvo certeiro nos jovens
Documentos internos da indústria revelados por investigações jornalísticas não deixam dúvida: o foco são adolescentes e jovens adultos. A lógica é simples: quem começa a fumar antes dos 21 anos tem chances muito maiores de se tornar fumante adulto. “O marketing usa influenciadores que nunca mencionam a nicotina, mas aparecem com os produtos em stories, reels e lives, criando um senso de pertencimento”, aponta Paulo Corrêa. Isso é amplificado pelo fato de que o cérebro do adolescente ainda não desenvolveu por completo o córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos. O jovem busca prazer imediato, e a nicotina entrega isso em segundos.
Nas redes, a mensagem de que “vape e sachê são menos prejudiciais” ganha tração. A ACT mapeou 140 perfis brasileiros em três plataformas promovendo esses produtos sem qualquer advertência séria. Para pais e educadores, a dica é clara: conversar abertamente sobre os riscos e ficar atento ao cheiro adocicado que o vapor deixa nas roupas ou à presença de latinhas estranhas na mochila. A última vez que o Brasil enfrentou um boom de iniciação precoce foi na década de 1990, com o cigarro de palha entre jovens; agora a escala é digital e muito mais rápida.
Poliuso: a estratégia para criar dependência múltipla
Se o cigarro comum oferecia um único caminho para a nicotina, hoje o portfólio da indústria é um cardápio tóxico: cigarro convencional, vape, tabaco aquecido, narguilé eletrônico e os sachês. O resultado é o que os especialistas chamam de poliuso — o mesmo indivíduo usa dois, três ou até seis produtos diferentes ao longo do dia para manter o nível de nicotina no sangue estável.
Em pesquisa com adolescentes de 13 a 17 anos, Corrêa constatou que 14% dos entrevistados já experimentaram os seis tipos avaliados. “A indústria está conseguindo criar uma nova geração de pessoas viciadas, e não só adictas, mas poliadictas”, afirma. Isso muda a prática: se antes a dependência era de um produto, agora o jovem pode usar vape em casa, sachê na escola e cigarro comum na balada, tudo no mesmo dia. O resultado é um perfil de dependência mais difícil de tratar, porque o sistema de recompensa do cérebro fica condicionado a múltiplos estímulos. O SUS, que ainda não tem protocolo específico para poliuso, precisará se adaptar.
“Seguro”? Os mitos sobre cigarros eletrônicos e produtos aquecidos
Um dos maiores engodos do mercado é a ideia de que vapes e tabaco aquecido geram apenas “vapor de água”. Na realidade, o aerossol desses dispositivos contém metais pesados, substâncias cancerígenas e compostos ligados a doenças cardiovasculares. O pneumologista da ACT destaca que um cigarro de tabaco aquecido pode entregar 4,6 vezes mais nicotina que o convencional. Além disso, o aquecimento gera formaldeído e acroleína, com potencial de dano pulmonar.
“O argumento de redução de danos só seria válido se o fumante migrasse totalmente para o novo produto. O que vemos é o contrário: o jovem começa com o sachê, depois compra um vape e, quando o organismo pede mais nicotina, migra para o maço clássico. Não há redução de risco nessa equação.”
Estudos recentes também apontam para efeitos estéticos que preocupam os jovens: envelhecimento precoce da pele, manchas nos dentes e até disfunção erétil associada ao uso de cigarros eletrônicos. Na ponta do lápis, a promessa de “inovação” some quando a saúde cobra a fatura.
Regulamentação e a briga por proibir ou liberar
A Anvisa já se posicionou: cigarros eletrônicos, produtos aquecidos e sachês de nicotina são proibidos. Desde 2009, uma resolução veta a comercialização, importação e propaganda desses itens. Mesmo assim, a apreensão de produtos ilegais disparou. Em 2025, a Receita Federal confiscou 1,7 milhão de dispositivos eletrônicos — um aumento de 400% em dois anos.
Há pressão política para flexibilizar a proibição. O argumento é que a regulamentação traria arrecadação e controle de qualidade. Porém, a própria Anvisa, em análise de 2022, concluiu que os riscos superam os supostos benefícios. Para cada R$ 1 arrecadado em impostos do tabaco, o SUS gasta R$ 3 em tratamento de doenças tabaco-relacionadas. Na prática, liberar esses produtos significaria transferir o lucro para multinacionais e a conta do tratamento para o cidadão.
Na visão do MundoManchete, a urgência não está no debate sobre legalizar, mas em fazer cumprir a lei que já existe. Falta fiscalização nas redes sociais, falta bloqueio de sites que vendem ilegalmente e, principalmente, falta campanha de conscientização nas escolas. O Brasil foi referência mundial no combate ao tabagismo e não pode perder essa conquista por falta de ação.
FAQ: dúvidas comuns sobre sachês de nicotina e novos dispositivos
1. O sachê de nicotina é um produto para parar de fumar?
Não. Diferente dos adesivos ou gomas de nicotina aprovados como terapia de reposição, os sachês não têm qualquer registro como medicamento no Brasil. Eles são vendidos como produto de consumo recreativo, com concentrações altíssimas de nicotina e sabores que atraem justamente quem nunca fumou. A indústria tenta associar esses produtos à redução de danos, mas a falta de controle sobre a composição e a dosagem torna essa promessa enganosa. Quem deseja parar de fumar deve buscar orientação médica pelo SUS, que oferece tratamento gratuito e baseado em evidências.
2. Por que os jovens são mais vulneráveis ao vício em nicotina?
O cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente o córtex pré-frontal — área ligada à tomada de decisões e controle de impulsos. A nicotina age diretamente no sistema de recompensa, e a exposição na juventude pode criar dependência mais rapidamente e duradoura. Além disso, a pressão social e o marketing digital amplificam a sensação de que usar vape ou sachê é algo “normal” e “descolado”. Estudos mostram que 90% dos fumantes adultos começaram antes dos 18 anos, justamente por essa combinação de vulnerabilidade biológica e ambiental.
