É Fake: Pfizer não listou hantavírus como efeito colateral da vacina; entenda

É Fake: Pfizer não listou hantavírus como efeito colateral da vacina; entenda Reproducao / G1

Desde o início de maio, publicações nas redes sociais afirmam que a Pfizer identificou a contaminação por hantavírus como efeito colateral da vacina contra a Covid-19. A alegação é falsa. O que os posts chamam de “prova” é, na verdade, um documento de 38 páginas enviado pela Pfizer à agência regulatória dos EUA (FDA) em 2021 — e que lista milhares de eventos de saúde relatados após a vacinação, sem qualquer relação de causa e efeito comprovada.

O MundoManchete conversou com especialistas e checou os fatos: a bula oficial da vacina, disponível no site da Anvisa e de outras agências, não menciona hantavírus. O documento citado pelos boatos é um relatório de farmacovigilância, uma ferramenta padrão da indústria farmacêutica para monitorar qualquer ocorrência após a imunização — inclusive eventos que podem ter sido causados por fatores completamente alheios à vacina.

O que diz o documento da Pfizer que os boatos usam como “prova”

O tal documento de 38 páginas é um relatório de segurança periódico que a Pfizer enviou à FDA. Nele, a empresa lista 1.233 eventos adversos relatados espontaneamente por pacientes ou profissionais de saúde após a aplicação da vacina. Entre esses eventos, aparece o termo “infecção pulmonar por hantavírus”.

Mas há uma diferença crucial que os boatos ignoram: o próprio documento afirma, em letras garrafais, que “um acúmulo de relatos de eventos adversos não indica que um determinado evento adverso tenha sido causado pela vacina”. O texto explica que o evento pode ser decorrente de doença subjacente, histórico médico prévio ou medicação concomitante.

Em outras palavras: a Pfizer é obrigada a registrar tudo que é relatado, mesmo que não tenha relação com a vacina. É o que os especialistas chamam de “sinal” — um alerta para investigação, não uma confirmação de causalidade.

Por que a listagem é obrigatória — e não uma “confissão”

Imagem ilustrativa

Luís Carlos de Souza Ferreira, professor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da USP, explica que a listagem de eventos adversos é parte obrigatória da fase 4 dos estudos clínicos, que monitora a segurança de vacinas e medicamentos após a aprovação.

“Esse relatório da Pfizer apresenta uma lista de centenas de possíveis efeitos adversos e desdobramentos patológicos para os quais as equipes de saúde devem atentar. No caso do hantavírus, ele está listado apenas como um dos pontos a serem avaliados, mas não houve nenhum relato de aumento de infecção ou indício de que a vacina estivesse induzindo esse efeito. Dizer que a vacina causa hantavírus é categoricamente falso.”

O especialista compara com o que aconteceu com a vacina da AstraZeneca: quando foi identificado um risco real, ainda que remoto, de trombose, a vacina foi suspensa ou restrita em vários países. “Se houvesse qualquer indício real de que a vacina da Pfizer causasse hantavírus, o sistema teria agido imediatamente.”

Na visão do MundoManchete, essa é uma das maiores provas de que o boato não se sustenta: o sistema de farmacovigilância global é robusto o suficiente para detectar eventos raros — e, no caso do hantavírus, simplesmente não houve sinal.

O que está na bula oficial da vacina da Pfizer

A bula aprovada pela Anvisa e pela FDA lista os efeitos adversos reais da vacina, divididos por frequência:

  • Muito comuns (≥10%): dor de cabeça, diarreia, dor nas articulações, dor muscular, dor e inchaço no local da injeção, cansaço, calafrios, febre.
  • Comuns (1% a 10%): aumento dos gânglios linfáticos, náusea, vômito, vermelhidão no local da injeção.
  • Incomuns (0,1% a 1%): reações alérgicas (erupção cutânea, coceira, urticária), insônia, tontura, suor noturno, dor nos membros.
  • Raras (0,01% a 0,1%): paralisia facial aguda.

Hantavírus não aparece em nenhuma dessas listas. A bula é o documento oficial que resume os eventos com relação causal comprovada ou fortemente suspeita. O relatório de 38 páginas é um documento interno de monitoramento, não uma bula.

O contexto do surto de hantavírus no cruzeiro — e como ele alimentou o boato

Imagem ilustrativa

Os posts falsos ganharam força depois que um surto da variante Andes do hantavírus matou três pessoas a bordo do navio-cruzeiro MV Hondius, que saiu de Ushuaia (Argentina) em 1º de abril e chegou a Rotterdam (Holanda) em 18 de maio. A OMS descartou uma disseminação maior, mas o caso chamou atenção mundial.

Os boatos tentaram ligar esse surto à vacina da Pfizer, sugerindo que a vacina “se transformaria” no vírus. Não há nenhuma evidência científica que sustente essa ligação. O hantavírus é transmitido por roedores — não por vacinas. A infecção causa febre, dores musculares, problemas abdominais e, em casos graves, síndrome respiratória aguda.

O diretor da OMS, Tedros Adhanom, já descartou risco de pandemia, mas o longo período de incubação do vírus (até 6 semanas) exige monitoramento. Nada disso tem relação com a vacina da Covid-19.

O que você deve fazer com essa informação

Se você recebeu um desses posts, não compartilhe. Antes de repassar qualquer alegação sobre efeitos colaterais de vacinas, siga estes passos:

  1. Verifique a fonte oficial: consulte a bula no site da Anvisa ou da FDA.
  2. Desconfie de documentos “secretos” ou “revelados”: relatórios de farmacovigilância são públicos e fazem parte do processo regulatório.
  3. Busque contexto: o que parece uma “prova” muitas vezes é apenas um registro obrigatório, sem relação de causa e efeito.
  4. Consulte especialistas: microbiologistas, infectologistas e órgãos de saúde são as melhores fontes para interpretar dados complexos.

Na visão do MundoManchete, a disseminação desse tipo de boato enfraquece a confiança nas vacinas e na ciência — e pode ter consequências graves para a saúde pública. Informação de qualidade é a melhor vacina contra a desinformação.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O documento da Pfizer realmente lista hantavírus como efeito colateral?

Sim, o documento lista “infecção pulmonar por hantavírus” entre mais de 1.200 eventos relatados. Mas o próprio documento deixa claro que isso não significa que a vacina causou o evento. É apenas um registro de que alguém que tomou a vacina teve esse diagnóstico — o que pode ter ocorrido por outros motivos, como contato com roedores, por exemplo. A bula oficial, que lista os efeitos com causalidade comprovada, não menciona hantavírus.

2. Por que a Pfizer incluiu hantavírus no relatório se não há relação?

Porque a farmacovigilância exige que todos os eventos de saúde relatados após a vacinação sejam registrados, independentemente de suspeita de causalidade. Isso permite que as autoridades identifiquem sinais precoces de possíveis problemas. Se houvesse um aumento de casos de hantavírus entre vacinados, isso acionaria um alerta. Mas não houve nenhum aumento — o que confirma que a vacina não tem relação com a doença.

3. O surto de hantavírus no cruzeiro tem a ver com a vacina da Pfizer?

Não. O surto no navio MV Hondius foi causado pela variante Andes do hantavírus, transmitida por roedores. A OMS descartou qualquer ligação com vacinas. Os boatos tentaram explorar a coincidência temporal para criar uma narrativa falsa. Não há nenhum estudo ou evidência que aponte para uma relação entre a vacina da Pfizer e o hantavírus.

📦 Recomendado pela redação

Produto_Recomendado_De_Alto_Desejo


Ver na Amazon →

Como afiliado Amazon, o MundoManchete pode receber comissão por compras qualificadas.

Tags: hantavírus, vacina Pfizer, fake news, Covid-19, checagem de fatos


Fonte Original: g1.globo.com

Foto: Reproducao / G1