Como o Brasil se tornou o segundo maior mercado de fisiculturismo do mundo
Há uma década, o fisiculturismo era visto como um universo restrito a competidores de nicho e frequentadores assíduos de academia. Hoje, o cenário é completamente diferente. O esporte virou um fenômeno cultural e financeiro, movimentando entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões por ano no país. O Brasil já é o segundo maior mercado mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo Tamer El Guindy, um dos maiores promotores de eventos fitness do planeta. O que explica esse crescimento vertiginoso? As redes sociais, principalmente, transformaram fisiculturistas em verdadeiras celebridades, com milhões de seguidores acompanhando cada treino, cada refeição e cada competição.
Influenciadores compartilham diariamente rotinas de superação, dietas extremamente planejadas e resultados que beiram o inacreditável. Para o brasileiro comum, isso gera uma identificação poderosa: a ideia de que, com disciplina quase sobre-humana, é possível esculpir um corpo digno de capa de revista. Mas essa vitrine digital omite uma série de sacrifícios físicos e emocionais que a maioria dos atletas enfrenta. Além disso, o profissionalismo trouxe investimentos pesados em campeonatos, patrocínios, marcas de suplementos e uma legião de fãs que consomem qualquer produto associado a seus ídolos. O resultado é uma indústria que não para de crescer, mas que também carrega um lado obscuro que merece atenção.
Ramon Dino: de ovos e praça pública ao topo do pódio
Se há um rosto que simboliza essa explosão no Brasil, é o de Ramon Dino, o “Dinossauro do Acre”. Aos 30 anos, ele se tornou o primeiro homem brasileiro a vencer a principal competição do fisiculturismo mundial, a Mr. Olympia. Mas sua trajetória começou longe dos holofotes. Em Rio Branco, treinava em praças públicas usando apenas o peso do próprio corpo. Sem dinheiro para comprar carne, consumia até 30 ovos por dia para bater as metas de proteína. Durante a pandemia, vídeos desses treinos viralizaram e atraíram olhares de investidores. “Se o cara fez o que ele fez com um pouquinho, imagina investindo nele?”, costuma dizer.
Hoje, Ramon acumula milhões de seguidores e patrocínios milionários. Sua história virou roteiro de motivação para uma geração de jovens que sonham em seguir o mesmo caminho. Mas o atleta também faz questão de alertar: “Já tem que entrar sabendo que corre risco. Não faça isso se você não for um atleta ou não tiver acompanhamento. É uma coisa muito séria e mexe um pouco com a sua saúde”, declarou ao Fantástico. A fala de Ramon ganha ainda mais peso diante dos recentes acontecimentos trágicos no meio.
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A fronteira entre a disciplina e o sacrifício extremo
A ideia de um corpo perfeitamente esculpido fascina, mas pouca gente imagina o que está por trás do brilho dos holofotes. Em fases de preparação para competições, fisiculturistas chegam a ingerir até 8 mil calorias diárias para construir massa muscular. Em seguida, passam por semanas de restrição calórica severa, reduzindo o percentual de gordura a níveis tão baixos quanto 2% ou 3% – algo que beira o impossível para uma pessoa sem acompanhamento profissional. A essa altura, processos de desidratação são comuns para deixar os músculos mais visíveis, o que pode sobrecarregar órgãos vitais.
Na visão do MundoManchete, é fundamental separar a disciplina saudável da obsessão perigosa. O corpo humano não foi feito para viver em extremos por longos períodos. A privação social, a monotonia alimentar e a exaustão física são rotina para esses atletas. A pergunta que precisa ser feita é: até que ponto vale a pena pagar esse preço por um troféu ou pela validação digital? Para o brasileiro comum que apenas quer melhorar a forma física, as estratégias radicais do fisiculturismo competitivo não só são desnecessárias como podem trazer danos permanentes.
A morte que acendeu o sinal vermelho: o caso Gabriel Ganley
No último sábado, 23 de maio de 2026, o fisiculturista Gabriel Ganley, de apenas 22 anos, foi encontrado morto na Zona Leste de São Paulo. O atestado de óbito apontou cardiomiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. Ganley já havia revelado, em julho de 2025, que começara a usar substâncias para ganho muscular. Sua morte reacendeu o debate sobre os limites éticos e de saúde no esporte. Não se trata de um caso isolado: em 2024, outros atletas da modalidade morreram precocemente, sempre com suspeita de complicações ligadas ao uso de hormônios e diuréticos.
Especialistas são unânimes em afirmar que o coração também é um músculo e sofre diretamente os efeitos dos esteroides anabolizantes. O crescimento desordenado do músculo cardíaco pode levar a arritmias, insuficiência cardíaca e morte súbita. A história de Gabriel evidencia que a pressão por resultados rápidos, alimentada pelas redes sociais e pela competição feroz, está cobrando um preço altíssimo. A lição que fica é que a busca por um físico extremo não pode ignorar a preservação da vida.
Anabolizantes: o que realmente acontece com seu corpo
A testosterona sintética e outros esteroides anabolizantes são proibidos para uso estético, mas circulam com relativa facilidade em academias e grupos de mensagens. O endocrinologista Ricardo Oliveira, ouvido pelo Fantástico, reforça que não existe dose segura para quem quer apenas melhorar a aparência: “Fora da situação clínica de reposição hormonal, o uso é considerado errado e perigoso. Chamamos leigamente de ‘bomba'”. Os efeitos vão muito além do ganho muscular: acne severa, queda de cabelo, atrofia testicular e agressividade são alguns dos colaterais mais visíveis. Os invisíveis, porém, são os que mais matam.
O cardiologista Alexandre Carvalho explica que o anabolizante não é seletivo – ele atinge também o coração, fazendo-o crescer de forma disforme e perder potência com o tempo. Além disso, o uso combinado com diuréticos e insulina (prática comum entre fisiculturistas) pode levar a desequilíbrios eletrolíticos fatais. Para o jovem brasileiro influenciado pelos ídolos das redes, o recado precisa ser claro: anabolizante não é atalho para o sucesso, é uma roleta-russa com balas reais. O corpo pode aguentar alguns ciclos, mas o custo a longo prazo é imprevisível e muitas vezes irreversível.
Perguntas frequentes sobre fisiculturismo
Fisiculturismo natural é perigoso?
O fisiculturismo sem uso de substâncias pode ser saudável se praticado com orientação profissional. No entanto, dietas extremas de restrição calórica e desidratação para competições, mesmo entre atletas naturais, podem sobrecarregar os rins e o coração. O ideal é que qualquer pessoa interessada em transformar o corpo busque acompanhamento de nutricionista e médico do esporte, respeitando os limites individuais.
Quanto o mercado de fisiculturismo realmente fatura no Brasil?
Segundo dados divulgados pelo promotor internacional Tamer El Guindy, o setor movimenta entre R$ 2 e R$ 3 bilhões anuais no país. Esse valor inclui venda de suplementos, ingressos para eventos, licenciamento de marcas, patrocínios e consultorias. A maior parte do dinheiro vem do consumo de pessoas que não são atletas profissionais, mas que se inspiram no estilo de vida fitness.
O que posso fazer para ganhar massa muscular com segurança?
O caminho mais eficaz e seguro, segundo consenso médico, é combinar treino de força progressivo com uma alimentação balanceada e sono de qualidade. Para a maioria das pessoas, não há necessidade de ingestão calórica extrema nem de protocolos de desidratação. Suplementos só devem ser usados com indicação de um profissional, e qualquer substância que prometa resultados milagrosos deve ser tratada com o máximo de cautela.
O que você deve fazer com essa informação
O crescimento do fisiculturismo no Brasil é real e veio para ficar. Mas, como consumidor de conteúdo e praticante de atividade física, você tem um papel ativo na sua própria segurança. Em primeiro lugar, questione os exemplos que vê nas redes: o que funciona para um atleta patrocinado, com equipe médica e dedicação integral, raramente se aplica a uma rotina de trabalho, estudo e família. Em segundo lugar, fique atento a promessas fáceis – “secar em 30 dias” ou “ganhar 10 kg de massa em um mês” costumam esconder riscos enormes. Em terceiro lugar, se você ou alguém próximo sente a tentação de recorrer a anabolizantes, procure ajuda especializada. Psicólogos, educadores físicos e médicos podem oferecer alternativas sustentáveis que não coloquem sua vida em jogo.
Na visão do MundoManchete, o caso de Gabriel Ganley deve servir como um divisor de águas. O fisiculturismo precisa de uma discussão mais transparente sobre saúde, e isso inclui campanhas de conscientização, regulação mais rigorosa da venda de esteroides e um compromisso coletivo de que nenhum troféu vale uma vida. A transformação do corpo pode ser uma jornada incrível, desde que não se torne uma sentença de morte.
Tags: fisiculturismo, anabolizantes, saúde cardíaca, Ramon Dino, Brasil
Fonte: Ir para Fonte
Foto: Reproducao / G1
