n Hermeto Pascoal faria 90 anos; legado vive na música livre

Hermeto Pascoal faria 90 anos; legado vive na música livre

Hermeto Pascoal faria 90 anos; legado vive na música livre Reproducao / G1

No dia em que Hermeto Pascoal completaria 90 anos, o Brasil para para ouvir — não uma gravação, mas o eco de uma liberdade criativa que poucos artistas no mundo alcançaram. O multi-instrumentista alagoano, que nos deixou em setembro de 2025, não foi apenas um músico: foi um fenômeno da natureza que transformou o ato de fazer som em um gesto tão natural quanto respirar. E, na visão do MundoManchete, seu maior legado não está nos discos que gravou, mas na lição de que a arte pode — e deve — ser reinventada a cada instante.

Por que Hermeto Pascoal ainda é uma referência indispensável?

Nascido em Lagoa da Canoa, no sertão de Alagoas, em 22 de junho de 1936, Hermeto Pascoal carregava uma particularidade que moldou sua percepção de mundo: o albinismo. A condição, que lhe deu uma sensibilidade extrema à luz, também aguçou seus outros sentidos, especialmente a audição. Enquanto a maioria das pessoas ouvia barulho, Hermeto ouvia música. Uma chaleira no fogo, o ronco de um porco, o vento batendo nas folhas — tudo virava partitura. Essa capacidade de enxergar som em tudo ao redor é o que o torna tão relevante hoje, especialmente num mundo cada vez mais padronizado por algoritmos e playlists. Hermeto lembra que a música não precisa ser engessada; ela pode ser um ato de descoberta diária. Para o brasileiro comum, que vive cercado por sons industriais e ruídos urbanos, a lição é simples: preste atenção. Talvez haja uma melodia escondida no barulho do metrô ou no chiado da panela de pressão.

O que significa fazer música “ao vivo” como Hermeto fazia?

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Diferente de praticamente qualquer artista de sua época — e mesmo de hoje —, Hermeto subia ao palco sem saber o que iria tocar. Não havia roteiro, ensaio prévio ou setlist. A música nascia na hora, fruto da interação com o público, com os músicos e, principalmente, com o ambiente. Isso não era improvisação no sentido jazzístico tradicional; era criação pura, um fluxo de consciência sonoro. Imagine assistir a um show onde o artista decide o repertório naquele exato momento, baseado na energia da plateia. Essa imprevisibilidade é o oposto da indústria musical atual, que preza por hits ensaiados e produções milimétricas. Na prática, Hermeto mostrava que a música é um organismo vivo, não um produto de prateleira. Para quem está acostumado com shows coreografados, a experiência de ouvir Hermeto era um choque de realidade: a arte não precisa ser perfeita, precisa ser verdadeira.

O Quarteto Novo: o ponto de virada que mudou a música brasileira

Em 1967, Hermeto Pascoal se juntou a Airto Moreira (percussão), Heraldo do Monte (guitarra) e Theo de Barros (violão) para formar o Quarteto Novo. Esse grupo foi um marco porque fundiu elementos da música nordestina com o jazz e a vanguarda, criando uma sonoridade que não existia antes. Foi ali que Hermeto deixou de ser um sanfoneiro do sertão para se tornar um músico universal. O disco do Quarteto Novo é um dos mais influentes da música instrumental brasileira, e sua importância é comparável ao que João Gilberto fez pela bossa nova. Até hoje, músicos do mundo inteiro estudam as harmonias e os ritmos criados pelo grupo. Para o Brasil, que muitas vezes olha para fora em busca de referências, o Quarteto Novo prova que a inovação musical de ponta pode — e deve — nascer da nossa própria cultura.

Discografia essencial: por onde começar a ouvir Hermeto?

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Se você nunca ouviu Hermeto Pascoal e quer entender sua genialidade, alguns álbuns são obrigatórios. O primeiro é “Hermeto” (1970), seu debut solo, que já mostra toda a ousadia. Depois, “A Música Livre de Hermeto Pascoal” (1973) é considerado por muitos sua obra-prima, onde a liberdade criativa atinge o ápice. “Slaves Mass” (1977) é um disco visceral, com participações internacionais e uma sonoridade que transita entre o jazz e a música brasileira. Já “Cérebro Magnético” (1980) é uma viagem psicodélica que impressiona até hoje. Para quem prefere algo mais acessível, o álbum “Brasil Universo” (2004) é uma porta de entrada mais suave. Nenhum desses discos, no entanto, captura completamente a experiência ao vivo de Hermeto. Por isso, vale buscar gravações de shows no YouTube — é lá que a mágica realmente acontece. A recomendação do MundoManchete é clara: comece por “Slaves Mass” e depois vá para “A Música Livre”. Você não vai se arrepender.

O que o Brasil perdeu — e o que ainda pode aprender — com Hermeto?

A morte de Hermeto Pascoal em 13 de setembro de 2025 deixou um vácuo na música brasileira que jamais será preenchido. Não porque não existam bons músicos, mas porque ninguém mais tinha a mesma abordagem radicalmente livre. O Brasil perdeu um gênio, mas ganhou um legado que pode — e deve — ser estudado por novas gerações. Escolas de música pelo país já incorporam suas técnicas de improvisação e sua filosofia de que “tudo é som”. Na visão do MundoManchete, a grande lição de Hermeto é que a criatividade não precisa de autorização. Ela simplesmente acontece. Num país que muitas vezes se sente inseguro sobre sua própria cultura, Hermeto é a prova de que o Brasil pode gerar artistas universais sem precisar imitar ninguém. Sua música é um convite para que cada brasileiro se sinta livre para criar, seja na música, na arte ou na vida.

Perguntas frequentes sobre Hermeto Pascoal

Hermeto Pascoal era realmente cego?

Não. Hermeto Pascoal nasceu com albinismo, uma condição genética que reduz a pigmentação da pele, cabelos e olhos. Isso o tornava extremamente sensível à luz solar, mas ele nunca foi cego. Na verdade, sua visão era funcional, embora com limitações. O mito de que ele era cego surgiu por causa do uso constante de óculos escuros e da forma como ele descrevia o mundo: mais pelos sons do que pelas imagens.

Qual a relação de Hermeto Pascoal com a música erudita?

Hermeto sempre flertou com a música erudita, especialmente em suas composições mais complexas. Ele foi regente e arranjador para orquestras sinfônicas, e suas peças são estudadas em conservatórios. No entanto, ele nunca se prendeu às regras da música clássica. Para ele, a partitura era um ponto de partida, não um destino. Essa liberdade é justamente o que fascina músicos eruditos até hoje.

Hermeto Pascoal tocou com artistas internacionais famosos?

Sim. Hermeto colaborou com gigantes do jazz como Miles Davis, que o chamou de “um dos músicos mais impressionantes do mundo”. Ele também tocou com Airto Moreira (que se tornou seu parceiro frequente) e com músicos como Sivuca e Egberto Gismonti. Sua música atravessou fronteiras e influenciou artistas nos Estados Unidos, Europa e Japão.

O que você deve fazer com essa informação

Não deixe o legado de Hermeto Pascoal virar apenas uma nota de falecimento. Reserve 30 minutos do seu dia para ouvir um de seus discos — de preferência com fones de ouvido e sem distrações. Preste atenção nos sons que vão além dos instrumentos: os ruídos, os silêncios, as texturas. Depois, reflita sobre como você pode aplicar essa liberdade criativa na sua própria vida. Hermeto nos ensinou que a arte não está nos palcos, mas em tudo ao nosso redor. Só depende de nós pararmos para ouvir.

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Tags: Hermeto Pascoal, música brasileira, 90 anos, música livre, cultura brasileira


Fonte Original: g1.globo.com

Foto: Reproducao / G1