A maré virou? Aprovação de Lula empata com desaprovação
Depois de meses respirando na contramão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viu a própria popularidade mudar de direção. Na pesquisa Datafolha mais recente, divulgada na última semana de maio, a aprovação do petista chegou a 48%, mesma taxa que a desaprovação — um empate técnico, mas carregado de simbolismo político. Em abril, a desaprovação superava a aprovação por 51% a 45%, uma diferença de seis pontos que agora desapareceu.
A métrica “ótimo e bom” continua atrás de “ruim e péssimo”, mas a distância caiu de 11 para apenas 6 pontos. Para a equipe de Lula, não se trata apenas de um número: é a senha para recolocar o presidente na briga pela reeleição. No Palácio do Planalto, o otimismo é cauteloso, mas a comemoração foi real.
Mas o que mudou em quatro semanas para que essa curva se invertesse? O governo atribui a melhora ao pacote de medidas econômicas que entrou em campo ao mesmo tempo em que a oposição tentava endurecer o discurso. E, na prática, cada uma dessas ações mexe diretamente no bolso do brasileiro.
O “Novo Desenrola” e como ele pode aliviar suas dívidas
O carro-chefe da reação é o chamado “Desenrola 2.0”, uma versão ampliada do programa de renegociação de dívidas que já limpou o nome de milhões de brasileiros em 2023. Desta vez, a ideia é mirar em quem está com o nome sujo, mas não necessariamente inadimplente com o governo — a proposta promete descontos agressivos e parcelamentos facilitados para dívidas bancárias, de cartão de crédito e até contas de luz atrasadas.
Para o trabalhador que ganha até dois salários mínimos, a chance de quitar pendências com até 90% de desconto já significou, na primeira fase, a retomada do crédito. Agora, a expectativa é que o programa se estenda para dívidas de maior valor, abrindo caminho para a compra parcelada de eletrodomésticos e até mesmo para o financiamento de pequenos negócios.
Na visão do MundoManchete, a versão 2.0 do Desenrola é um acerto político e social: ataca a principal dor do eleitor — a falta de dinheiro no fim do mês — e simultaneamente aquece a economia ao devolver poder de compra para uma faixa imensa da população. Se o calendário de pagamentos começar ainda no segundo semestre, como prometido, o governo colhe os frutos exatamente quando a campanha se intensifica.
📦 Recomendado pela redação
Echo Pop (Alexa) – Som Compacto
Como afiliado Amazon, o MundoManchete pode receber comissão por compras qualificadas.
A polêmica “taxa das blusinhas”: o que realmente muda para o consumidor
Outra medida que agitou as redes foi o fim da isenção para compras internacionais de até US$ 50, apelidada de “taxa das blusinhas”. Para o governo, é uma questão de justiça tributária com o varejo nacional. Para o consumidor, porém, o impacto é imediato: aquela bugiganga de R$ 30 no site chinês agora pode ter encarecimento de até 60% entre imposto de importação e ICMS.
Segundo cálculos da Receita Federal, a arrecadação extra deve ultrapassar R$ 2 bilhões em 2026, dinheiro que o Planalto pretende carimbar parcialmente para o programa de crédito a motoristas de aplicativo (mais sobre isso adiante). Mas a medida é arriscada: nas pesquisas qualitativas, uma parcela considerável do eleitorado de baixa renda — que comprava online justamente para economizar — reagiu mal à novidade.
A última vez que o Brasil mexeu tão fundo na tributação de importados de uso pessoal foi em 2016, ainda no governo Temer, quando o teto de isenção foi reduzido e gerou tanto protesto quanto alívio no setor de confecção. O contexto agora é outro: o comércio eletrônico explodiu, e o hábito de importar está consolidado. Por isso, o mundo político observa se a insatisfação do consumidor será forte o bastante para neutralizar o efeito positivo do Desenrola.
Crédito para motoristas de app e taxistas: um aceno à classe trabalhadora
Enquanto o varejo discutia a taxa das blusinhas, outra linha chegou discretamente à praça: o crédito especial para taxistas e motoristas de aplicativo. O governo liberou R$ 1 bilhão via BNDES e Caixa para financiar a compra de veículos, com juros que não passam de 1,7% ao mês, bem abaixo do mercado.
A ideia é simples e direta: cuidar de uma categoria que passou a pandemia carregando a economia nas costas e nunca mais teve políticas consistentes. Para quem roda 12 horas por dia, a renovação da frota representa economia de combustível e menos manutenção. O governo, claro, ganha pontos com um exército de motoristas que interagem todos os dias com a população.
“Não podemos parar de trabalhar só porque é ano eleitoral”, defendeu um assessor direto de Lula, rebatendo a acusação da oposição de que as medidas são eleitoreiras.
O timing, de fato, é perfeito para a pré-campanha, mas os números da pasta mostram que a maior parte dos contratos só será assinada depois de agosto. Ou seja, o efeito eleitoral depende menos da liberação imediata e mais da expectativa criada.
Flávio Bolsonaro em queda: o fantasma de Daniel Vorcaro e a estratégia do PT
Se Lula está sorrindo, é também porque o principal adversário na disputa de 2026 começou a escorregar. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), lançado pelo pai como pré-candidato, perdeu dois pontos percentuais em um mês e agora aparece em segundo lugar nas simulações de segundo turno. A diferença entre Lula e o senador, que já foi de empate técnico (45% a 45%), agora é de quatro pontos: 47% a 43%.
O que aconteceu? A campanha do PT passou a martelar a relação de Flávio com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, investigado em operações de lavagem de dinheiro. A estratégia não é nova: o “bolsonarismo raiz” sempre se orgulhou de estar longe da “velha política financeira”. Associar o nome de Flávio a um banqueiro com pendências judiciais é, aos olhos de marqueteiros, bombar o discurso de “anti-establishment” que o pai construiu.
E o Datafolha mostrou que ainda há muito terreno a explorar: 36% dos entrevistados afirmaram não ter tomado conhecimento das notícias sobre essa relação. Isso significa que, à medida que o caso se aprofunda — e o governo já sinalizou que vai continuar batendo na tecla —, o potencial de erosão eleitoral de Flávio é enorme.
Na visão do MundoManchete, a queda de Flávio Bolsonaro parece mais dependente de escândalos do que das medidas de Lula. Até porque o eleitorado bolsonarista é fiel e dificilmente migraria só por um programa de renegociação de dívidas. Mas as rachaduras em torno de Flávio podem fazer o eleitor de centro buscar refúgio em Lula — exatamente o que o Planalto precisa.
O que ainda falta: renegociação para quem está no azul e o fim da escala 6×1
O próprio Ministério da Fazenda já admite que a próxima fronteira é ajudar famílias que estão endividadas, mas ainda não caíram na inadimplência. É um grupo silencioso, que usa o limite do cartão para pagar contas básicas e vive no fio da navalha. A ideia em estudo é um programa parecido com o Desenrola, mas com foco em quem está no “semáforo amarelo”, oferecendo refinanciamento com juros mais baixos para quem aceitar organizar o orçamento.
Além disso, Lula aposta no fim da jornada 6×1 como bandeira de apelo popular. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que reduz a carga horária sem cortar salário já está em discussão na Câmara e, se aprovada, pode representar um divisor de águas. Contudo, o caminho é tortuoso: o mercado reage pessimista, e os partidos de centro avisam que não embarcam sem compensações claras.
Para o trabalhador comum, o resultado prático dessa bandeira é um ganho de qualidade de vida imediato. Mas, enquanto a economia não mostrar sinais consistentes de crescimento, a promessa corre o risco de virar letra morta — e a paciência do eleitor com promessas não cumpridas é curta.
FAQ: O que você precisa saber sobre as medidas e a eleição
1. O Desenrola 2.0 vai realmente limpar meu nome?
Sim, se você tem dívidas bancárias ou contas de consumo atrasadas e está negativado, o programa permitirá renegociar com descontos pesados diretamente pelo aplicativo gov.br. Bancos serão obrigados a oferecer condições mínimas definidas pelo governo, o que na prática já funcionou na versão anterior. A novidade é que, desta vez, dívidas de cartão de crédito e com empresas de telefonia também estão incluídas. O programa deve entrar em operação no início do segundo semestre.
2. A taxa das blusinhas vai acabar com as compras internacionais?
Não, mas vai encarecê-las. Compras de até US$ 50, antes isentas, agora pagarão imposto de importação (20%) e ICMS (17%), podendo chegar a um acréscimo médio de 45% no valor final. Isso torna produtos como capinhas de celular, acessórios e bijuterias menos vantajosos em relação ao comércio local. Mas sites estrangeiros já estão adaptando preços e logística para continuar competitivos, especialmente em itens acima de US$ 50.
3. Flávio Bolsonaro ainda é o principal adversário de Lula?
Por enquanto, sim. Apesar da queda recente, o senador mantém um colchão eleitoral sólido, herdado do pai, e é o único com presença digital comparável à do petismo. No entanto, a incerteza sobre a investigação Vorcaro pode alterar o jogo, principalmente se a oposição falhar em explicar a relação com o banqueiro. Haverá ainda trocas de pré-candidaturas até a convenção, mas, hoje, Flávio é o nome que tira o sono do Planalto.
O que você deve fazer com essa informação
Seja qual for sua posição política, as medidas anunciadas têm efeito direto na sua vida. Com a inflação dos alimentos ainda pressionando, a chance de renegociar dívidas com desconto é uma janela rara. Se sua família está entre os 36% que ainda não ouviram falar da relação Flávio–Vorcaro, o voto informado depende de buscar mais dados antes de decidir. E, se você depende da renda de aplicativo, acesse o site da Caixa ou do BNDES para simular o crédito assim que as linhas
