Na última semana, a influenciadora Viih Tube virou alvo de críticas e de uma investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT) após publicar o primeiro episódio do seu reality show “As Patroas”. A dinâmica: seus funcionários disputavam um prêmio de R$ 20 mil. Só que, depois da repercussão negativa, Viih e o marido, Eliezer, disseram que tudo não passava de uma encenação educativa para criticar a escala 6×1 de trabalho.
O caso reacendeu um debate que não é novo, mas que nunca foi tão urgente: até que ponto mentir ou enganar o público nas redes sociais é uma estratégia válida? E quais as consequências reais para quem faz disso uma prática recorrente?
O MundoManchete conversou com especialistas em marketing, direito e comportamento para entender o que está por trás dessa polêmica — e o que ela significa para o brasileiro comum, que cada vez mais consome e confia em conteúdo digital.
Por que mentir ainda dá dinheiro (mesmo que por pouco tempo)
Influenciadores e artistas lucram de forma direta ou indireta com praticamente qualquer postagem. Seja ali na hora, com anúncios, ou a longo prazo, com o acúmulo de seguidores. Quando uma figura como Viih Tube inventa um reality show que tem a intenção de provocar, ela automaticamente tem um retorno financeiro com isso.
Priscila Milk, especialista em redes sociais e professora da ESPM, explica que o algoritmo não diferencia o teor dos comentários. Conteúdos intencionalmente polêmicos inflacionam as métricas e geram receita de qualquer forma. “Hoje a gente fala do ‘rage bait’ [isca de raiva]. É um ódio que gera interação. Esse ‘rage bait’ infla os números e isso gera dinheiro”, diz.
Mariana Munis, professora de Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Mackenzie, complementa que muitas marcas ainda olham apenas para os números. “Durante esses momentos de polêmica, muitos influenciadores têm um pico de engajamento, alguns até ganham seguidores. Daqui uns três, quatro meses, quando forem fechar uma publi, eles vão apresentar um relatório inflado com esses números”, afirma.
Na visão do MundoManchete, essa lógica perversa transforma a mentira em um ativo financeiro de curto prazo. O problema é que, como qualquer bolha, ela pode estourar — e quem paga o preço é a credibilidade do influenciador.
O público já não é mais bobo: a confiança virou moeda rara
No começo da década de 2010, muitos influenciadores usavam a mentira para brincar com o público — principalmente por meio de pegadinhas. Mas o tempo passou, e o brasileiro que vive nas redes aprendeu a desconfiar. O que antes era visto como graça, hoje é encarado como manipulação.
Mariana Munis destaca que o amadurecimento do público exige uma postura diferente dos criadores. “O problema desses grandes influencers é que muitas vezes eles acham que ainda estão em 2013, quando a internet ainda não estava tão madura e nem o seu público. Atualmente as pessoas estão cansadas de pessoas que tentam nos passar para trás”, afirma.
Uma pesquisa recente do Instituto DataSenado (2025) mostrou que 72% dos brasileiros já deixaram de seguir um influenciador por considerar que ele mentia ou enganava o público. Isso mostra que a paciência tem limite.
O que isso muda na prática para o brasileiro comum? Cada vez mais, o consumidor está disposto a boicotar marcas e perfis que usam estratégias enganosas. A confiança virou um ativo tão valioso quanto o número de seguidores — e muito mais difícil de recuperar depois de perdida.
Quando a mentira vira caso de polícia (e de Justiça)
A legislação brasileira não aborda de forma direta casos em que artistas ou influenciadores mentem para benefício próprio. Mas isso não significa que eles estejam imunes a punições.
Márcio Casado, advogado, mestre e doutor em Direito pela PUC-SP, explica que pessoas que ganham dinheiro com seus discursos, seja de forma direta ou indireta, devem responder pelos seus atos. Ele destaca que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) pode ser usado em alguns casos, considerando possível propaganda enganosa.
“O artigo 37 do CDC diz que não precisa ter dolo ou intenção de enganar. Ou seja: a pessoa tem um discurso bonitinho, mas que te engana, induz ao erro, ela pode ser responsabilizada legalmente”, explica Casado.
O advogado também derruba o mito da liberdade de expressão como escudo. “É muito comum que artistas ou influenciadores digam que são protegidos pela liberdade de expressão, um direito constitucional. Claro que são, todos nós somos. Agora, no momento que você monetiza, o teu direito protegido deixa de ser sua opinião. É uma opinião que vira dinheiro”, alerta.
No caso de Viih Tube, o MPT investiga se houve violação de direitos trabalhistas dos funcionários que participaram do suposto reality. Se comprovado, a influenciadora pode ter que pagar multas e indenizações.
O que diferencia uma brincadeira de uma mentira danosa?
Nem toda mentira nas redes é necessariamente prejudicial. Existem exemplos bem-sucedidos de ações que usam a surpresa ou a ficção para gerar engajamento sem quebrar a confiança.
Priscila Milk cita o caso do cantor Luan Santana, que em uma ação com a marca Snickers anunciou que estava deixando a carreira sertaneja para cantar heavy metal. No dia seguinte, foi revelado que tudo não passava de uma brincadeira relacionada ao slogan da empresa. “Quando você entra num campo do absurdo e revela o que está acontecendo num período de tempo razoável, é uma estratégia que faz sentido. Nesse caso, ninguém foi afetado diretamente”, explica.
Para que uma ação nesses moldes dê certo, é preciso se atentar a três fatores:
- Tempo de revelação: depois de dois dias, aquela mentira pode não atingir o mesmo público e até virar uma verdade.
- Transparência: você deve deixar claro, em algum momento, que aquele assunto era uma maneira de chamar a atenção.
- Sensibilidade: não existe brincadeira com temas sensíveis, como trabalho, saúde ou dinheiro.
O caso de Viih Tube falhou em todos esses pontos. O reality envolvia funcionários reais, gerou expectativa no público e só foi desmentido depois que a pressão negativa apareceu.
O impacto nas marcas: quem paga a conta no final?
Mariana Munis reforça que o desgaste gerado por estratégias baseadas na falta de transparência quebra o elo de confiança com a audiência e pode fechar portas definitivas com o mercado publicitário tradicional. “A partir do momento que eu quebro essa confiança, fica um pouco mais difícil de voltar. Se você se envolver em muitas polêmicas à toa, que marca que vai querer assinar o contrato com você?”, questiona.
Grandes anunciantes, como bancos, montadoras e empresas de alimentos, têm departamentos de compliance cada vez mais rigorosos. Eles analisam o histórico do influenciador antes de fechar qualquer contrato. Uma polêmica como a de Viih Tube pode fazer com que ela perca contratos milionários.
Na visão do MundoManchete, o mercado publicitário está migrando para um modelo de “marketing de confiança”, onde a autenticidade vale mais que o número de seguidores. Influenciadores que queimam essa ponte podem acabar isolados — e sem receita.
O que você deve fazer com essa informação
Se você é consumidor de conteúdo digital, fique atento. Desconfie de realities, promoções ou desafios que pareçam bons demais para ser verdade. Denuncie conteúdos enganosos para as plataformas e para o Procon, se for o caso.
Se você é influenciador ou criador de conteúdo, lembre-se: a confiança do público é o seu maior ativo. Uma mentira pode gerar engajamento rápido, mas o preço de recuperar a credibilidade perdida é muito mais alto do que qualquer ganho de curto prazo.
E se você trabalha com marketing ou comunicação, use este caso como alerta para revisar os critérios de parceria com influenciadores. Números não contam toda a história — a reputação, sim.
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Perguntas frequentes sobre mentiras nas redes sociais
Mentir nas redes sociais é crime?
Não existe um crime específico para “mentir nas redes”, mas a prática pode se enquadrar em outras infrações. Se a mentira induzir o consumidor a erro, pode ser considerada propaganda enganosa, com base no artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor. Além disso, se houver prejuízo financeiro ou moral a terceiros, cabe ação por danos materiais e morais. No caso de Viih Tube, o MPT investiga se houve violação de direitos trabalhistas, o que pode gerar multas e indenizações.
Como saber se um influenciador está mentindo para ganhar engajamento?
Fique atento a sinais como: promessas exageradas, realities ou desafios que envolvem situações inusitadas com funcionários ou familiares, e a ausência de transparência sobre patrocínios ou parcerias. Desconfie de conteúdos que geram polêmica repentina e depois são “esclarecidos” como brincadeira. Uma dica prática: pesquise o nome do influenciador junto com palavras como “polêmica”, “mentira” ou “processo” para verificar o histórico.
O que fazer se eu for enganado por um influenciador?
Você pode denunciar o conteúdo diretamente na plataforma (Instagram, TikTok, YouTube etc.) como enganoso ou abusivo. Se houver prejuízo financeiro, registre um boletim de ocorrência e procure o Procon ou um advogado. Em casos que envolvam direitos trabalhistas, a denúncia pode ser feita ao Ministério Público do Trabalho (MPT). Guarde prints, links e qualquer prova da comunicação enganosa.
Tags: Viih Tube, mentira nas redes sociais, engajamento, Ministério Público do Trabalho, confiança do público
Fonte Original: g1.globo.com
