Notícia que traz esperança para quem enfrenta um dos cânceres mais letais: um novo medicamento oral conseguiu dobrar a expectativa de vida de pacientes com câncer de pâncreas em estágio avançado. O daraxonrasib, um comprimido tomado uma vez ao dia, foi o protagonista de um estudo clínico de Fase 3 cujos resultados foram anunciados em abril de 2026. O remédio ataca a proteína RAS, um alvo que há décadas era considerado inalcançável pela medicina. Mas antes de comemorar a cura — os próprios pesquisadores alertam que ela ainda não existe — é preciso entender o que essa descoberta realmente significa e por que, para o brasileiro, a jornada até o acesso pode ser longa.
Por que a proteína RAS desafiou a ciência por tantos anos?
Dentro de cada célula do corpo existe uma proteína chamada RAS. Ela funciona como um interruptor: liga quando a célula precisa crescer ou se dividir e desliga em seguida. No câncer de pâncreas, mais de 90% dos casos apresentam uma mutação nesse gene que deixa o interruptor travado na posição ‘ligado’. Isso faz com que as células tumorais recebam ordens ininterruptas para se multiplicar sem controle.
Desde os anos 1980, os cientistas tentavam criar uma droga que bloqueasse o RAS. Mas a proteína fica escondida dentro da célula e sua estrutura é lisa demais — como uma fechadura cujo miolo foi polido até perder os relevos. ‘A chave entra, mas não encontra onde se firmar’, compara o médico Felipe Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center. O RAS ganhou o rótulo de ‘undruggable’ — algo intratável, impossível de alcançar com medicamentos. Até agora, a única opção era a quimioterapia intravenosa, que controla a doença por um tempo mas perde efeito, deixando o paciente sem alternativas e com uma sobrevida mediana de apenas 6,7 meses após a falha do primeiro tratamento. Para entender melhor o cenário atual dos tratamentos, é interessante ler sobre o novo exame de fezes para detectar câncer de intestino, que pode impactar o diagnóstico precoce.
Os números que fizeram oncologistas mudarem de rota
O ensaio clínico RASolute 302 recrutou cerca de 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam feito quimioterapia. Metade recebeu o daraxonrasib, um comprimido diário; a outra metade continuou com quimioterapia padrão. Os resultados foram inequívocos: a sobrevida mediana do grupo que tomou o comprimido alcançou 13,2 meses, contra 6,7 meses do grupo de quimioterapia. O risco de morte caiu 60% (razão de risco de 0,40), e todos os objetivos principais e secundários do estudo foram atingidos.
“Um comprimido dobrou a sobrevida desses pacientes. Em oncologia, isso é muito impactante — não só pelo ganho em sobrevida, mas por abrir caminho para uma estratégia que nunca havia provado ser eficaz numa doença tão difícil de tratar”, destaca o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e Americas Health Foundation.
Cerca de um terço dos participantes teve redução do tumor e 80% apresentaram estabilidade ou melhora. Dr. Coimbra ressalta que os voluntários não estavam na primeira linha de terapia — eram casos graves, sem mais recursos. “Ter uma resposta superior à da primeira linha numa segunda etapa de tratamento foi realmente surpreendente”, afirma.
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O que faz do daraxonrasib um passo tão diferente
Diferente das tentativas anteriores, que miravam apenas uma variante da proteína (a G12C) e atingiam uma fração pequena dos cânceres, o daraxonrasib é um inibidor pan-RAS. Ele age sobre múltiplas mutações — G12D, G12V, G12R e outras, que respondem pela maioria dos tumores pancreáticos. “Em vez de tentar identificar a peça com defeito, ele age sobre o acelerador inteiro e o destrava”, simplifica Stefani.
Outro ponto crucial é a administração oral. O paciente toma o comprimido em casa, sem precisar comparecer ao hospital para receber quimioterapia intravenosa. Os efeitos colaterais mais comuns incluem reações de pele, náusea, fadiga e mucosite, considerados controláveis com acompanhamento médico próximo. Nos Estados Unidos, a FDA concedeu ao daraxonrasib o status de Breakthrough Therapy (terapia inovadora) e a designação de medicamento órfão, além de um voucher de prioridade nacional que acelera a análise regulatória. O acesso compassional já é autorizado para casos sem alternativas, e a apresentação dos dados completos está programada para o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica em junho de 2026.
Para o Brasil, a promessa esbarra em burocracia e custo
A chegada do daraxonrasib ao país ainda não tem previsão. O caminho passa pela aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No sistema de saúde suplementar, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) precisaria publicar uma diretriz de utilização técnica para obrigar os planos de saúde a cobri-lo. Já no Sistema Único de Saúde (SUS), o cenário é financeiramente desafiador: a tabela APAC paga hoje apenas R$ 1.986 para o tratamento de um paciente oncológico, enquanto novos remédios costumam custar na faixa de R$ 50 mil mensais. Para isso, o acesso a tratamentos adequados e diagnósticos precoces torna-se fundamental.
“Não tem mágica. A média de uma droga oncológica inovadora no mercado americano gira em torno de dez mil dólares (cerca de R$ 50 mil) por mês”, diz Stefani.
Felipe Coimbra, que já participou de acessos expandidos a tratamentos antes da aprovação formal no Brasil, acredita que essa via poderá ser tentada no futuro, mas não agora. “A expectativa é que o medicamento chegue em breve e possa beneficiar todos os pacientes com câncer de pâncreas. Mas este não é o momento de buscá-lo ou tentar importá-lo. O acesso no Brasil ainda é uma incógnita.”
Cura? Ainda não. Mas a porta se abriu para sempre
Os especialistas fazem questão de frisar: o daraxonrasib não é a cura do câncer de pâncreas. O estudo foi feito em pacientes metastáticos em segunda linha de tratamento — não se sabe se a droga seria ainda mais eficaz se usada mais cedo. Pesquisas futuras deverão investigar combinações com imunoterapia, o uso em primeira linha e sua ação em outros tumores com mutação RAS, como os de intestino e pulmão. A comparação com já conhecidos tratamentos, como o uso de álcool antes de dormir pode ilustrar as opções variadas existentes.
Ainda assim, o feito é histórico. Pela primeira vez, um medicamento conseguiu atacar com sucesso um alvo que desafiava a ciência há mais de quatro décadas. Dr. Coimbra resume: “Não podemos falar em cura.” E completa: “Mas é uma opção que não existia — e um alvo molecular que a ciência perseguiu por décadas sem conseguir alcançar.” A palavra undruggable, que parecia definitiva, acaba de ganhar um ponto de interrogação.
Perguntas frequentes sobre o daraxonrasib
1. O daraxonrasib já está disponível no Brasil?
Não. Até o momento, o medicamento sequer foi submetido à aprovação da Anvisa. Nos Estados Unidos, onde o estudo foi conduzido, a FDA concedeu status acelerado de análise, mas o registro formal ainda não saiu. Mesmo após uma eventual aprovação americana, a chegada ao Brasil exigirá análise local e, depois, definição de cobertura por planos de saúde e pelo SUS — processos que podem levar anos. A orientação dos médicos é clara: não tentar importar por conta própria neste momento.
2. Quais são os efeitos colaterais mais comuns?
No estudo, os efeitos adversos mais frequentes foram reações de pele (como rash cutâneo), náuseas, fadiga e mucosite (inflamação da mucosa da boca). Segundo Felipe Coimbra, de maneira geral são considerados seguros e não costumam obrigar a interrupção do tratamento quando há acompanhamento próximo. Por ser um comprimido oral, o paciente também evita os efeitos típicos da quimioterapia intravenosa, como queda de cabelo e maior risco de infecções.
3. O tratamento funciona para todos os tipos de câncer de pâncreas?
O daraxonrasib é indicado para pacientes com câncer de pâncreas metastático que já tenham feito quimioterapia e cujos tumores apresentem mutação no gene RAS — o que ocorre em mais de 90% dos casos. Entretanto, nem todos responderão da mesma forma. O estudo mostrou benefício clínico relevante no geral, mas cada paciente precisa ser avaliado pelo oncologista, incluindo a realização de testes genéticos para confirmar a presença da mutação e descartar contraindicações.
O que você deve fazer com essa informação
A notícia é animadora, mas exige paciência. Se você ou alguém próximo enfrenta um câncer de pâncreas, o primeiro passo é conversar com o oncologista responsável. Embora o daraxonrasib represente um avanço concreto, insistir em importá-lo agora pode gerar frustração e riscos. Acompanhar as atualizações dos órgãos reguladores e as publicações científicas é o melhor que se pode fazer.
Para o brasileiro comum, a lição mais ampla é que investimentos em pesquisa oncológica geram resultados — e que a mobilização por políticas públicas de acesso rápido a inovações salva vidas. O MundoManchete continuará acompanhando os desdobramentos da aprovação nos Estados Unidos e, assim que houver qualquer sinal de chegada ao Brasil, você será informado.
Enquanto isso, manter hábitos saudáveis, não fumar e controlar fatores de risco são as melhores formas de prevenção. E, diante de qualquer sintoma suspeito, buscar atendimento médico precoce continua sendo a atitude mais sábia. A ciência está derrubando muros que pareciam intransponíveis, mas a distância entre o laboratório e a farmácia do SUS ainda precisa ser encurtada com informação e cobrança cidadã.
Tags: câncer de pâncreas, daraxonrasib, tratamento oral, proteína RAS, oncologia
