Carteira digital: 19 pessoas viraram ‘presidente’ sem saber

Carteira digital: 19 pessoas viraram 'presidente' sem saber Reproducao / G1

Imagine descobrir, depois de mais de 20 anos de trabalho, que sua carteira digital informa que você é — nada menos — presidente da República. Foi exatamente o que aconteceu com a técnica de enfermagem Aldenize Ferreira, de 46 anos, moradora de Jaboatão dos Guararapes (PE). Ao procurar emprego, o sistema mostrou que ela ocupava, há 24 anos e 2 meses, o cargo mais alto do país. Mas Aldenize não está sozinha: dados do Ministério do Trabalho revelam que, em 2024, o Brasil tinha 19 vínculos ativos registrados como ‘presidente’ ou ‘vice-presidente’ em setores como hotelaria, transporte de carga e até varejo de roupas.

Na prática, nenhuma dessas pessoas governa o país. Elas simplesmente viraram reféns de uma falha que mistura burocracia eletrônica e desatenção de empregadores. E o pior: esse erro, que parece piada pronta para meme, pode bloquear o seguro-desemprego, bagunçar a aposentadoria e até derrubar benefícios como o Bolsa Família. Nos próximos parágrafos, você vai entender por que o sistema de trabalho registra “presidentes” onde não existem, o que muda na sua vida e, principalmente, como corrigir essa bagunça antes que ela vire um problemão.

O erro que transformou uma técnica de enfermagem em chefe de Estado

O caso de Aldenize não é isolado — ele é o retrato de uma falha que atinge trabalhadores em ao menos 21 municípios brasileiros. Além dela, outras duas mulheres da mesma cidade pernambucana também apareciam como presidente da República na carteira de trabalho. E, segundo os dados oficiais, há registros de ‘chefes de Estado’ contratados por indústrias de móveis em Arapongas (PR), lavanderias e restaurantes. Em Apucarana, uma mulher de 57 anos consta como presidente recebendo entre um e dois salários mínimos no comércio de vestuário. Já em Abaetetuba, no Pará, uma jovem de 28 anos foi admitida em maio de 2024 para o mesmo cargo em um hotel, com rendimento de cerca de R$ 1,5 mil.

O município de Canto do Buriti, no Piauí, lidera o ranking do absurdo: 28 vínculos de ‘Presidente da República’ foram registrados ali, todos inativos no fim de 2024, mas que por anos ficaram como se fossem empregos formais. A lista de cidades inclui desde capitais como São Paulo e Brasília até pequenos municípios gaúchos e cearenses. Em comum, quase todos os casos envolvem prefeituras ou empresas que, por descuido, selecionaram o código errado na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). É como se, na hora de cadastrar um auxiliar administrativo, o RH tivesse digitado o número que corresponde ao presidente da República e ninguém revisou.

Esse engano digital se tornou mais frequente depois que o governo substituiu os antigos formulários de papel pelo eSocial e pela Carteira de Trabalho Digital. “O erro acontece em um sistema só, mas se replica em efeito cascata para todos os outros”, explica a advogada trabalhista Isabel Cristina, do escritório Ferraz dos Passos. Por isso, um simples deslize no cadastro pode contaminar a base do INSS, da Receita Federal e da própria carteira de trabalho do cidadão — tudo ao mesmo tempo.

Afinal, por que sistemas do governo registram ‘presidentes’ onde não existem?

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A explicação não está em uma conspiração digital, mas na soma de dois fatores: a digitalização acelerada e a falta de treinamento nas empresas e prefeituras. Até 2019, os empregadores enviavam as informações dos funcionários pela Guia de Recolhimento do FGTS (GFIP). Nesse período, algumas instituições preencheram de forma errada a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), atribuindo o código de presidente da República a cargos que nada tinham a ver com a função. Quando o eSocial unificou todas as bases de dados, essas inconsistências foram importadas automaticamente e passaram a aparecer na Carteira de Trabalho Digital, na aba ‘outros vínculos’.

O Ministério do Trabalho admite que o problema se concentrou entre 2002 e 2019 e que, com a Carteira Digital, o cargo passou a ser informado diretamente pelo empregador, reduzindo novos erros. Contudo, os registros antigos permaneceram ativos nos sistemas — e é aí que mora o perigo. A advogada Isabel Cristina destaca que a alta rotatividade nas prefeituras e a presença de servidores comissionados ou empresas terceirizadas no RH favorecem esse tipo de falha. “O Brasil tem mais de 5.500 municípios e a realidade estrutural é muito desigual. Com a troca de governo a cada quatro anos, há perda de dados e histórico”, afirma.

Além do CBO, o sistema eSocial é complexo e passa por atualizações constantes. Sem capacitação adequada, é fácil trocar um código de digitador pelo de presidente. Em cidades pequenas, onde muitas vezes o encarregado do cadastro acumula funções e não recebe suporte técnico, o erro pode passar despercebido por anos — até que o trabalhador tente sacar o FGTS ou pedir o seguro-desemprego e descubra que, no papel, ele governa o país.

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Dos móveis ao hotel: o mapa dos ‘presidentes’ espalhados pelo Brasil

Os dados da RAIS e do Caged mostram um retrato curioso e preocupante. Em dezembro de 2024, havia 13 vínculos ativos de presidente e 6 de vice-presidente. Outros 40 vínculos de presidência foram registrados ao longo do ano, mas encerrados — muitos em prefeituras. A distribuição geográfica revela que não se trata de um caso isolado de Jaboatão dos Guararapes, mas de um fenômeno nacional: Canto do Buriti (PI) lidera com 28 vínculos inativos, seguido por Jacareacanga (PA) com 7. Em Tasso Fragoso (MA), Apucarana (PR) e Santos (SP) há dois casos cada. Até Brasília, a capital federal, tem um vínculo ativo de presidente da República registrado por engano.

O cruzamento com a lista de empresas mostra a variedade de setores: administração pública, telecomunicações, sindicatos, comércio varejista, fabricação de concreto e até hotéis. No Caged, que monitora contratações e demissões, há 62 movimentações entre 2009 e 2025 envolvendo admissões e desligamentos de ‘presidentes’. Em 2021, uma empresa de fabricação de móveis em Arapongas admitiu um presidente da República com salário de R$ 1.766,88. Em São Paulo, houve desligamentos de presidentes em transportadoras de carga. São números que, se levados a sério por um sistema automático, podem desencadear bloqueios em benefícios e constrangimentos profissionais.

Essa fotografia nacional escancara que o problema não é exclusivo de uma região ou setor específico. Ele atinge desde trabalhadores rurais do Piauí até comerciários do Sul e Sudeste. E, enquanto as bases oficiais exibirem esses vínculos incorretos, qualquer cidadão pode ser surpreendido com a pergunta: “você é realmente presidente?” em uma entrevista de emprego.

O que muda na prática? Como esse erro mexe com seu Bolsa Família, seguro e aposentadoria

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Um vínculo ativo de presidente da República não transforma ninguém em chefe do Executivo, mas pode transformar seu orçamento em um caos. Na prática, o sistema cruza informações automaticamente: se você consta como empregado e recebendo salário, o governo pode suspender o Bolsa Família por entender que a renda familiar ultrapassou o limite permitido. O mesmo vale para o seguro-desemprego: um vínculo em aberto indica que você ainda está trabalhando, o que trava a liberação do benefício.

A aposentadoria também pode ser afetada. Embora o Ministério do Trabalho garanta que o erro não impede a concessão do benefício, o trabalhador precisa comprovar que aquele vínculo é falso para que ele não entre na contagem do INSS. “O INSS vai olhar o cadastro e ver que a pessoa tem um vínculo ativo de presidente. Se não for corrigido, pode gerar pendências e atrasar a análise do pedido”, alerta a advogada Isabel Cristina. Além disso, em processos seletivos, o recrutador pode desconfiar do currículo e pedir esclarecimentos, gerando constrangimento ou até a perda da vaga.

Do lado da empresa, os registros fantasmas também inflam artificialmente o quadro de funcionários, obrigando o empregador a contratar jovens aprendizes ou PCDs para cumprir cotas legais que talvez não precisasse atingir — sob risco de multa. Ou seja, é um problema que prejudica os dois lados e revela como a digitalização, sem a devida governança de dados, pode criar ficções trabalhistas com consequências reais.

Responsabilidade é do empregador: como exigir a correção sem dor de cabeça

A legislação é clara: a responsabilidade pelo correto preenchimento dos dados trabalhistas é do empregador. Na prática, porém, o trabalhador é quem descobre o erro e precisa correr atrás. O primeiro passo é acessar o aplicativo da Carteira de Trabalho Digital e verificar se há algum vínculo estranho na aba “Outros Vínculos”. Ao encontrar o cargo de presidente da República (ou outro que não condiz com a realidade), o trabalhador deve procurar o setor de Recursos Humanos da empresa ou prefeitura que aparece como empregadora.

Se o vínculo é totalmente falso — você nunca trabalhou naquele local — o pedido é pela exclusão imediata do registro. Se foi um emprego antigo que não teve a data de saída informada, a solicitação é para que a empresa insira o encerramento correto. Caso a empresa não resolva administrativamente, o caminho é recorrer ao INSS, ligando para a Central 135 ou acessando o portal Meu INSS e solicitando o serviço “Atualização de Vínculos e Remunerações”. O atendimento telefônico é fundamental para abrir um protocolo formal.

A advogada Isabel Cristina lembra que, dependendo do prejuízo sofrido, o trabalhador pode pedir indenização por danos morais na Justiça. “Se a pessoa perdeu o Bolsa Família, o seguro-desemprego ou uma vaga de emprego por causa desse erro, ela pode comprovar o dano e ser indenizada”, explica. Nesses casos, a orientação é buscar o auxílio de um advogado ou da Defensoria Pública, pois a ação pode correr na Justiça Comum ou na Justiça do Trabalho, a depender da natureza do vínculo.

A visão do MundoManchete: o que o Estado precisa fazer para evitar que você vire chefe de Estado

Na visão do MundoManchete, é inaceitável que, em plena era digital, um erro tão grotesco de cadastro possa permanecer por mais de duas décadas sem um mecanismo automático de validação. O fato de 19 vínculos ativos de presidente da República constarem em bases oficiais até dezembro de 2024 denuncia uma falha de governança que vai além do desleixo de alguns empregadores. O governo precisa criar filtros mínimos: se alguém tentar registrar um cargo de presidente da República para uma empresa que não é a União, o sistema deveria barrar a inserção e exigir uma segunda confirmação.

Também defendemos que a Carteira de Trabalho Digital tenha um canal simplificado — acessível a qualquer cidadão — para contestar vínculos incorretos e solicitar a correção diretamente pelo aplicativo, sem precisar acionar a empresa ou o INSS por telefone. A digitalização trouxe agilidade, mas também amplificou os erros. A última vez que o país viveu uma transformação tão profunda nos registros trabalhistas foi com a criação do FGTS, em 1966. Naquela época, um erro de papel ficava restrito a um arquivo físico. Hoje, ele se alastra automaticamente para todas as bases do governo.

Por fim, enquanto não houver uma limpeza proativa das bases, a recomendação é que todo trabalhador faça uma auditoria pessoal de seus dados, uma vez por semestre. Checar a Carteira Digital, o Meu INSS e o extrato do FGTS leva poucos minutos e pode evitar dores de cabeça monumentais. Afinal, ninguém deveria precisar explicar a um gerente de RH que, apesar do que o sistema diz, você não preside o país.

FAQ: Tire suas dúvidas sobre o erro de ‘presidente’ na carteira de trabalho

1. Um vínculo errado de presidente pode impedir a concessão do meu seguro-desemprego?

Sim. O sistema do seguro-desemprego cruza dados para verificar se o trabalhador está empregado. Se constar um vínculo ativo como presidente da República (ou qualquer outro cargo), o benefício será bloqueado porque o sistema entende que você tem renda. Para evitar isso, é essencial pedir a correção à empresa ou ao INSS antes de dar entrada no pedido. O processo de retificação pode levar alguns dias, então quanto antes você identificar o erro, melhor.

2. Descobri que tenho um vínculo de presidente de uma empresa que já fechou. O que fazer?

Se a empresa não existe mais, a correção deverá ser solicitada diretamente ao INSS pelo telefone 135 ou pelo site Meu INSS. O trabalhador precisa abrir um protocolo de “Atualização de Vínculos e Remunerações” e anexar documentos que comprovem a inexistência daquele emprego (por exemplo, carteira de trabalho antiga, declaração de que nunca trabalhou ali). O INSS pode pedir uma declaração pessoal e, em alguns casos, exigirá uma pesquisa em cartórios para confirmar que a empresa foi baixada. O processo pode ser um pouco mais demorado, mas é o único caminho quando o empregador original não pode ser acionado.

3. Vou receber algum dinheiro se meu nome ficou anos como presidente por engano? Isso gera vínculo empregatício falso?

Não. No Direito do Trabalho, o que vale é o princípio da primazia da realidade: se não houve prestação de serviço, não há direito a salários, FGTS ou verbas rescisórias. O registro fictício não cria direitos trabalhistas automaticamente. No entanto, se você sofreu prejuízo comprovado — perdeu o Bolsa Família, teve o seguro-desemprego indeferido ou perdeu uma vaga de emprego por causa desse erro — pode pleitear indenização por danos morais na Justiça, contra o empregador que cometeu a falha. Para isso, é fundamental reunir provas do dano, como extrato do benefício cancelado, e-mails de recusa de emprego e o protocolo de solicitação de correção.

O que você deve fazer com essa informação

Agora que você sabe que seu nome pode constar como presidente da República nos sistemas do governo sem que você tenha chegado perto do Planalto, a primeira atitude é abrir o aplicativo da Carteira de Trabalho Digital e checar a aba “Outros Vínculos”. Se encontrar algo estranho, siga o passo a passo:

  • Identifique o empregador: anote o nome e CNPJ da empresa ou prefeitura que aparece.
  • Contate o RH: peça a correção do CBO ou o encerramento do vínculo. Solicite um comprovante da alteração.
  • Se não resolver, acione o INSS: ligue 135, peça “Atualização de Vínculos e Remunerações” e anote o número do protocolo.
  • Se houver prejuízo financeiro: reúna documentos e procure a Defensoria Pública ou um advogado trabalhista para avaliar uma ação de danos morais.
  • Rotina de auditoria: a cada seis meses, repita a checagem na Carteira Digital, no Meu INSS e no extrato do FGTS. É a melhor forma de evitar surpresas desagradáveis.

Manter seus dados trabalhistas em ordem não é burocracia, é proteção. Em um mundo onde um clique errado pode te transformar em chefe de Estado, a prevenção digital é a sua melhor aliada.

Tags: carteira de trabalho digital, presidente da república erro, vínculo trabalhista, eSocial, corrigir carteira digital

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Foto: Reproducao / G1