Homicídios no Brasil caem 7,4% e atingem menor taxa em 11 anos

Homicídios no Brasil caem 7,4% e atingem menor taxa em 11 anos Reproducao / G1

Um país mais seguro? Os números por trás da queda

O Brasil registrou oficialmente 42.590 homicídios em 2024, uma queda de 7,4% em relação ao ano anterior. A taxa de 20,1 mortes a cada 100 mil habitantes é a menor desde 2013, quando o país anotava taxas ligeiramente acima dos 25 por 100 mil. É um marco importante, especialmente depois de o país ter atingido o pico de 31,6 homicídios por 100 mil em 2017.

Os dados são do Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e indicam que o Brasil está, pouco a pouco, vencendo a batalha contra os crimes letais. Mas, como todo número brasileiro, há um “porém”: as mortes violentas de causa indeterminada (MVCI) mascaram uma realidade ainda mais dura. O próprio estudo estima que, se contabilizados os homicídios ocultos, o total de 2024 poderia chegar a 49.673 — uma queda real de apenas 0,4% em relação a 2023.

“Os números oficiais mostram uma melhora, mas a subnotificação ainda é um grande desafio. Saber a causa real de cada morte violenta é o primeiro passo para políticas públicas eficazes”, explica Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas.

Na visão do MundoManchete, essa é uma boa notícia que merece ser celebrada com cautela. A redução de 7,4% nos registros oficiais é real e reflete um país que, aos poucos, reduz a violência armada. Mas a discrepância com os números ocultos mostra que ainda há um sistema de saúde e segurança pública que precisa melhorar a qualidade dos dados.

A guerra do narcotráfico e a ‘acomodação’ que salvou vidas

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Um dos principais motores da queda, segundo os pesquisadores, é a redução dos conflitos entre facções criminosas, especialmente entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Entre 2016 e 2017, a disputa por rotas do tráfico de drogas explodiu os indicadores de violência no Norte e no Nordeste. Estados como Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco viram suas taxas dispararem.

Agora, com o passar dos anos, essas facções chegaram a um equilíbrio tácito. “Uma guerra que se prolonga por muito tempo, sem um resultado claro, passa a ter custos econômicos inviáveis”, diz Cerqueira. A chamada rota do tráfico que corta o país e deságua nas capitais nordestinas já foi palco de embates sangrentos; hoje, as mortes nessa região caíram significativamente.

Além do “armistício do crime”, o envelhecimento da população também contribuiu: a pirâmide etária brasileira está menos jovem, e os jovens do sexo masculino são as principais vítimas e autores de homicídios. Com menos jovens proporcionalmente, a pressão sobre os índices diminui.

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Mundialmente, o contexto também importa. O Brasil saiu de uma taxa 5 vezes superior à média global em 2017 para cerca de 3 vezes agora, mas ainda está longe de países como Chile (4,7) ou Argentina (5,4). A redução é significativa, mas o caminho é longo.

O ranking da violência estado por estado (e o que ele esconde)

O Atlas revela um país desigual: enquanto São Paulo registra apenas 6,6 homicídios por 100 mil habitantes — taxa semelhante à de países da Europa Ocidental —, o Amapá soma 45,7, mais que o dobro da média nacional. Ao todo, 18 estados ficaram acima da taxa brasileira de 20,1. Veja a lista completa:

  • Acre — 20,2
  • Alagoas — 35,9
  • Amapá — 45,7
  • Amazonas — 32,2
  • Bahia — 40,9
  • Ceará — 34,3
  • Distrito Federal — 10,3
  • Espírito Santo — 26,0
  • Goiás — 18,4
  • Maranhão — 31,1
  • Mato Grosso — 29,1
  • Mato Grosso do Sul — 18,3
  • Minas Gerais — 12,8
  • Pará — 27,4
  • Paraíba — 25,7
  • Paraná — 18,6
  • Pernambuco — 37,3
  • Piauí — 20,6
  • Rio de Janeiro — 20,4
  • Rio Grande do Norte — 23,5
  • Rio Grande do Sul — 15,2
  • Rondônia — 30,3
  • Roraima — 27,8
  • Santa Catarina — 8,1
  • São Paulo — 6,6
  • Sergipe — 23,0
  • Tocantins — 19,8

O que chama atenção é a concentração das piores taxas nas regiões Norte e Nordeste, exatamente onde o narcotráfico encontrou as rotas mais disputadas. Amapá, por exemplo, sofre com sua posição estratégica entre o Brasil e a Guiana Francesa, porta de entrada para a Europa. Já São Paulo, berço do PCC, colhe os frutos de uma década de hegemonia do crime organizado, que reduziu os conflitos territoriais — e, por tabela, os assassinatos.

Mas o ranking esconde outra nuance: se as mortes violentas por causa indeterminada fossem totalmente esclarecidas, a lista mudaria. Estados como São Paulo, que tem boa qualidade nos dados, poderiam ver sua taxa aumentar um pouco; já outros, onde a subnotificação é maior, poderiam revelar uma violência muito pior. Ou seja, o ranking é uma fotografia ainda borrada da realidade.

O que isso muda na prática para o brasileiro comum?

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Para o cidadão, a queda da taxa de homicídios significa, antes de tudo, menos medo. Cidades que antes eram sinônimo de violência extrema, como Fortaleza (CE) ou Maceió (AL), hoje respiram mais tranquilidade, o que atrai comércio, lazer e investimentos. A sensação de segurança, ainda que subjetiva, impacta diretamente na saúde mental e na qualidade de vida. Para entender mais sobre a relação entre saúde mental e segurança, veja nosso artigo sobre como a nova lei protege sua saúde mental.

No entanto, a taxa de 20,1 ainda coloca o Brasil entre os países mais violentos do mundo. Um estudo da ONU de 2023 mostrava que a média global era de cerca de 5,8 homicídios por 100 mil. Ou seja, o brasileiro convive com um risco quase quatro vezes maior do que a média mundial. Isso significa que, apesar da melhora, andar na rua à noite em muitas capitais continua sendo um ato de coragem.

Na prática, a queda deve ser cobrada como política de estado. Prefeituras e governos que investiram em tecnologia de segurança, como câmeras inteligentes e sistemas de análise de dados, tiveram os melhores resultados. O brasileiro comum pode fazer a sua parte exigindo transparência e políticas baseadas em evidências — e, claro, tomando precauções no dia a dia.

Quando os números enganam: o problema dos homicídios ocultos

Nem toda morte violenta tem a causa esclarecida. Quando a polícia ou o IML não consegue determinar se foi um acidente, suicídio ou assassinato, registra-se como “morte violenta por causa indeterminada” (MVCI). O Atlas da Violência fez uma estimativa estatística para “descobrir” homicídios escondidos nessa categoria e chegou a 49.673 em 2024 — uma queda de apenas 0,4% frente a 2023.

Isso acende um alerta: se a melhora real foi tão pequena, a euforia com os 7,4% pode ser prematura. Estados como Bahia, que têm alta taxa oficial, podem esconder uma realidade ainda pior se a qualidade dos registros for baixa. Em 2022, por exemplo, quase 10% das mortes violentas no Brasil ficaram sem causa definida, um percentual que vem crescendo.

Para o leitor, isso importa porque a impunidade se alimenta da invisibilidade. Um homicídio não registrado é um crime que não será investigado, uma família que não terá resposta. Além disso, a falta de dados confiáveis dificulta a comparação entre cidades e estados, e pode fazer com que recursos públicos sejam mal direcionados.

E os homicídios de mulheres e negros? Um recorte necessário

O mesmo Atlas revelou que, a cada 16 minutos, uma pessoa negra é assassinada no Brasil. Em 2024, foram 3.600 homicídios de mulheres, muitos deles dentro de casa. A violência sexual representou 45,5% das agressões contra meninas de 10 a 14 anos. Mesmo com a queda geral, esses números mostram que a violência tem cor e gênero.

Os homens jovens e negros continuam sendo as principais vítimas: eles representam cerca de 75% dos homicídios. Essa sobrerrepresentação reflete desigualdades históricas e a falta de oportunidades em periferias. Para as mulheres, a Lei Maria da Penha e as delegacias especializadas tiveram impacto, mas o feminicídio ainda é uma chaga. Para discutir mais sobre feminicídio, confira o artigo sobre o pacto no Mercosul para combater feminicídio.

Na visão do MundoManchete, olhar apenas para a taxa geral é ignorar que a violência atinge de forma desproporcional os mais vulneráveis. A redução global é bem-vinda, mas sem políticas focadas em equidade racial e de gênero, o Brasil continuará sendo um país onde a cor da pele e o sexo determinam as chances de morrer de forma violenta.

Perguntas frequentes sobre os homicídios no Brasil

Por que a taxa de 20,1 ainda é considerada alta?

Embora seja a menor em 11 anos, 20,1 homicídios por 100 mil habitantes é