O ano de 2026 começa com uma notícia que ecoa no coração da música brasileira. Salomão Borges Filho, o Lô Borges, partiu em 2 de novembro de 2025, aos 73 anos. Mas ele fez questão de deixar um presente: o álbum A Estrada, lançado nesta quarta-feira, 10 de junho. Mais do que um disco, é um testamento musical — e, para quem conhece a obra do mineiro, cada faixa soa como uma despedida cuidadosamente orquestrada.
O disco fecha a parceria de mais de 50 anos com o irmão Márcio Borges, com quem compôs clássicos como “Tudo que você podia ser” e “Um girassol da cor de seu cabelo”. Mas o que torna A Estrada tão especial é que ele não apenas encerra um ciclo: ele dá sentido a ele. Em versos como “Finalmente eu cheguei onde quero estar”, Lô parece ter escrito sua própria lápide musical.
Uma despedida que já vinha sendo escrita
Quando Lô e Márcio Borges idealizaram A Estrada em 2023, a ideia era fazer um disco que sintetizasse a parceria iniciada nos anos 1970, com standards do Clube da Esquina. Ninguém imaginava que o álbum se tornaria uma obra póstuma. Mas o destino — ou a sensibilidade artística — fez com que as canções soassem premonitórias.
Na faixa “Última parada”, Lô canta: “Completei o prometido, cumpri a missão e vou em paz”. É impossível ouvir isso sem sentir um arrepio. O disco inteiro parece uma conversa entre o artista e o ouvinte sobre a finitude, sobre a estrada da vida que um dia termina. E, como bom mineiro, Lô não se despede com drama, mas com serenidade.
Na visão do MundoManchete, A Estrada é um lembrete de que a arte pode ser uma forma de preparar o terreno para o adeus. Diferente de tantos artistas que deixam projetos inacabados, Lô Borges teve a dignidade de entregar um trabalho completo, coeso e emocionante.
“Pousada” e “Chegada”: os dois lados da mesma moeda
O álbum abre com “Pousada”, uma faixa que já se destaca de cara. A melodia tem aquele DNA típico de Lô — suave, envolvente, com acordes que parecem abraçar o ouvinte. É uma música que convida a parar, a descansar na estrada. Mas é no fim do disco que vem a surpresa: “Chegada”.
“Chegada” é uma moda de viola, algo inusitado na discografia de Lô. Com Tavinho Moura na viola de dez cordas, a faixa mergulha no cancioneiro caipira do Brasil rural. Lô, que raramente escrevia letras sozinho, assina os versos: “Eu nasci naquela rua e nela vivi / Depois disso veio a estrada / E nela segui”. É uma canção que fala de origem, de raiz, de chegada — e que, no contexto do álbum, soa como um retorno à essência.
Essa dualidade entre “Pousada” (o descanso no meio do caminho) e “Chegada” (o fim da jornada) dá ao disco uma estrutura quase cinematográfica. É como se Lô estivesse dizendo: “Parei para descansar, mas sei que a chegada é certa”.
O folk e os Beatles: influências que nunca se apagam
Grande parte do repertório de A Estrada é envolta em uma atmosfera folk. A faixa “Sem saída” é um dos destaques, com uma evocação instrumental de “Here comes the sun”, dos Beatles. Lô era um eterno fã dos garotos de Liverpool, e essa referência aparece de forma sutil, mas poderosa. Não é cópia — é homenagem.
Gravado em Belo Horizonte em 2025, o disco teve produção musical orquestrada pelo próprio Lô, com os músicos Henrique Matheus (guitarra) e Thiago Corrêa (baixo e teclados). A percussão de Marcos Suzano e a bateria de Robinson Matos dão o toque final. O resultado é um som enxuto, sem firulas, que coloca a melodia e a letra em primeiro plano.
Para quem acompanha a carreira de Lô, “Sem saída” traz aquela boa sensação de déjà vu — parece uma música que já conhecemos, mas é nova. É a marca dos grandes compositores: criar algo que soa familiar sem ser repetitivo.
Músicas que falam de estrada (literal e metaforicamente)
O conceito do álbum é claro: a estrada como metáfora da vida. E não faltam faixas que exploram esse tema. “Travessia do deserto”, “18 rodas” e “Um velho sentado na beira da estrada” são exemplos literais. Mas mesmo as músicas que não mencionam a estrada no título carregam essa sensação de movimento, de jornada.
“18 rodas” é uma homenagem aos caminhoneiros, figura tão presente nas estradas brasileiras. Já “Um velho sentado na beira da estrada” poderia ser o próprio Lô, observando o movimento, refletindo sobre o que passou. É uma imagem poderosa: o artista que, depois de percorrer tantos quilômetros musicais, senta e contempla.
O disco é o terceiro da parceria Lô e Márcio Borges em álbum, depois de Harmonia (2007) e Muito além do fim (2021). Mas, ao contrário dos anteriores, este realmente representa o fim. Um fim atingido com integridade, sem concessões ao mercado ou à moda.
O que você deve fazer com essa informação
Se você é fã de Lô Borges, do Clube da Esquina ou simplesmente de boa música brasileira, A Estrada é uma audição obrigatória. Não é um disco para ouvir distraidamente — é para sentar, colocar um fone de ouvido e deixar as canções entrarem. Cada faixa carrega um pedaço da história de um dos maiores compositores do país.
Para quem não conhece Lô, este álbum pode ser uma porta de entrada. Comece por “Pousada” e “Chegada”, depois explore a discografia anterior. Mas não deixe de ouvir A Estrada com a atenção que ele merece. É um documento histórico, uma despedida em forma de arte.
E, se puder, compartilhe com alguém mais jovem. A música de Lô Borges merece atravessar gerações — assim como ele atravessou a estrada da vida com dignidade e beleza.
Perguntas frequentes sobre “A Estrada”, de Lô Borges
O álbum “A Estrada” foi gravado antes da morte de Lô Borges?
Sim. Lô Borges gravou o disco em Belo Horizonte ao longo de 2025, com produção musical orquestrada por ele mesmo, ao lado dos músicos Henrique Matheus e Thiago Corrêa. A morte do artista, em 2 de novembro de 2025, ocorreu após a finalização do álbum. O lançamento, em 10 de junho de 2026, foi planejado pela gravadora Deck como uma homenagem póstuma.
“A Estrada” é um álbum do Clube da Esquina?
Não exatamente. Embora Lô Borges seja um dos fundadores do Clube da Esquina, este álbum é uma parceria exclusiva com o irmão Márcio Borges, que assina as letras da maioria das faixas. O disco tem um som mais folk e intimista, diferente dos arranjos orquestrais que marcaram o clássico “Clube da Esquina” (1972). É um trabalho mais pessoal, quase um diário musical.
O que torna “Chegada” uma faixa tão especial?
“Chegada” é especial porque foge completamente do estilo habitual de Lô Borges. É uma moda de viola, com influência direta do cancioneiro caipira brasileiro. Lô canta em parceria com Tavinho Moura, que toca viola de dez cordas. A letra, escrita pelo próprio Lô, fala de origem e retorno — e, no contexto póstumo, soa como uma declaração de que ele estava em paz com sua jornada.
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Tags: Lô Borges, A Estrada, Música Brasileira, MPB, Clube da Esquina, Márcio Borges, álbum póstumo
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
