Na última quinta-feira (21), o presidente argentino Javier Milei anunciou um corte nos impostos de exportação sobre o trigo e a cevada. A medida, que entra em vigor em junho, reduz a alíquota de 7,5% para 5,5%. A notícia pegou o mercado de surpresa e já gera expectativas sobre o impacto no Brasil, maior parceiro comercial da Argentina.
Mas, afinal, o que isso significa para o brasileiro que vai à padaria toda manhã? Ou para o preço da carne no açougue? O MundoManchete explica o que muda na prática e como essa decisão pode (ou não) aliviar o bolso do consumidor.
Por que Milei cortou o imposto agora?
O anúncio não foi por acaso. A Argentina vive um momento delicado na agricultura. Os custos de produção — combustível, fertilizantes e frete — subiram forte nos últimos meses, comprimindo as margens dos produtores. Além disso, começa agora o plantio dos grãos de inverno para a safra 2026/27. Em meados de maio, a semeadura de trigo já estava em andamento em províncias como Entre Rios, Tucumán, Catamarca e Santiago del Estero. A de cevada avançava em partes de Buenos Aires.
Na visão do MundoManchete, a medida tem dois objetivos claros: dar um alívio imediato ao produtor rural — base eleitoral importante de Milei — e tentar aumentar a arrecadação via volume exportado. Afinal, com imposto menor, o preço final do grão fica mais competitivo no mercado internacional, o que pode elevar as vendas externas.
O governo estima que o corte elevará os preços de compra do trigo em cerca de 2,2% a 2,3%, ou aproximadamente US$ 4,8 a US$ 4,9 por tonelada métrica. É pouco, mas ajuda a compensar os custos mais altos.
Milei também sinalizou que os impostos sobre a exportação de soja poderão ser reduzidos gradualmente a partir de janeiro de 2027. A Argentina é o maior exportador mundial de produtos processados de soja.
O que isso muda no preço do pão no Brasil?
Essa é a pergunta que não quer calar. O Brasil importa cerca de 6 milhões de toneladas de trigo por ano, sendo a Argentina o principal fornecedor — responde por mais de 80% do trigo importado pelo país. Isso significa que qualquer oscilação no preço do trigo argentino afeta diretamente o custo da farinha de trigo no Brasil.
Com o corte de imposto, o trigo argentino fica mais barato para o comprador brasileiro. Na prática, a farinha de trigo pode ter uma leve redução de preço nos próximos meses — mas não espere uma queda drástica. O corte é de apenas 2 pontos percentuais (de 7,5% para 5,5%), o que representa uma redução de cerca de US$ 5 por tonelada. No preço final do pão francês, isso equivale a menos de R$ 0,01 por unidade, segundo estimativas de analistas consultados pelo MundoManchete.
No entanto, o efeito pode ser maior se a Argentina conseguir aumentar o volume exportado. Mais oferta no mercado global tende a derrubar os preços internacionais. Além disso, a redução do imposto sobre a soja a partir de 2027 pode impactar o preço do farelo de soja, usado na ração animal, o que afeta o custo da carne, do leite e dos ovos.
E a inflação? O brasileiro vai sentir no bolso?
O impacto inflacionário deve ser pequeno no curto prazo. O preço do trigo representa uma parcela modesta do custo total do pão — os maiores componentes são mão de obra, energia e aluguel. Portanto, mesmo que a farinha fique 2% mais barata, o efeito no preço final do pãozinho é quase imperceptível.
Mas há um efeito indireto relevante. Se a Argentina conseguir exportar mais trigo e soja, sua economia se fortalece, o que pode reduzir a pressão sobre o câmbio. Um real mais forte frente ao peso argentino e ao dólar tende a baratear as importações como um todo, ajudando a conter a inflação no Brasil.
Na visão do MundoManchete, o maior beneficiado não é o consumidor final, mas sim a indústria de moagem e a produção de ração animal. As grandes moageiras brasileiras, como a Bunge, a Cargill e a J. Macêdo, devem sentir um alívio nos custos. Já o consumidor pode ver reflexos mais claros em produtos como biscoitos, massas e pães industrializados — itens com maior margem e mais sensíveis a variações na matéria-prima.
Contexto histórico: a última vez que a Argentina cortou imposto de exportação
Para entender a dimensão da medida, vale lembrar que a última redução significativa nos impostos de exportação argentinos ocorreu em 2016, durante o governo Mauricio Macri. Na ocasião, o imposto sobre o trigo caiu de 23% para 12%, e sobre a soja, de 35% para 30%. O resultado foi um aumento expressivo nas exportações agrícolas argentinas nos anos seguintes.
Já durante o governo Alberto Fernández (2019-2023), os impostos subiram novamente, chegando a 33% para a soja e 12% para o trigo. Milei, desde que assumiu em 2023, vem tentando reverter esse quadro. O corte atual é mais um passo nessa direção, mas ainda tímido se comparado ao que Macri fez.
A diferença é que Milei enfrenta um cenário macroeconômico muito mais difícil. A Argentina tem inflação anual acima de 100%, reservas cambiais negativas e um déficit fiscal crônico. Por isso, o governo não pode simplesmente zerar os impostos — precisa equilibrar a necessidade de arrecadação com o estímulo ao setor produtivo.
O que esperar para os próximos meses?
O plantio de trigo na Argentina segue até agosto. Se o clima colaborar, a safra 2026/27 pode ser recorde, com estimativas iniciais apontando para 20 milhões de toneladas. Com o imposto menor, os produtores têm mais incentivo para plantar — e para vender.
No Brasil, a tendência é de estabilidade nos preços da farinha até o fim do ano. Se a Argentina realmente colher uma safra cheia, o preço do trigo pode cair ainda mais no mercado internacional, beneficiando o Brasil. Mas há riscos: a Argentina ainda enfrenta problemas logísticos, com portos obsoletos e greves frequentes de caminhoneiros, que podem travar as exportações.
Além disso, o governo Milei prometeu reduzir gradualmente os impostos sobre a soja a partir de janeiro de 2027. Se isso se confirmar, o impacto no Brasil será maior, especialmente no preço da carne, já que o farelo de soja é o principal insumo da ração animal.
Perguntas frequentes (FAQ)
O corte no imposto argentino vai baratear o pão francês no Brasil?
Sim, mas de forma muito pequena. A redução de 2 pontos percentuais no imposto representa cerca de US$ 5 por tonelada de trigo. No preço final do pão francês, isso equivale a menos de R$ 0,01 por unidade. O efeito é quase imperceptível para o consumidor final. Para sentir uma diferença significativa, seria necessário um corte muito maior ou uma safra recorde que derrubasse os preços internacionais.
O Brasil depende muito do trigo argentino?
Sim, e muito. O Brasil importa cerca de 6 milhões de toneladas de trigo por ano, e a Argentina responde por mais de 80% desse total. Ou seja, qualquer mudança no preço do trigo argentino afeta diretamente o custo da farinha e, por consequência, de pães, massas e biscoitos no Brasil. O país também é o maior fornecedor de farelo de soja para o Brasil, usado na ração animal.
Quando a redução do imposto começa a valer?
A medida entra em vigor em junho de 2026. A partir dessa data, a alíquota sobre o trigo e a cevada cai de 7,5% para 5,5%. O governo argentino também sinalizou que a redução dos impostos sobre a soja pode começar em janeiro de 2027, de forma gradual.
O que você deve fazer com essa informação
Se você é consumidor, não espere uma queda brusca no preço do pão. A medida é positiva, mas o impacto no bolso será pequeno. Fique de olho nos preços de massas e biscoitos, que podem ter reduções mais perceptíveis nos próximos meses.
Se você é empresário do setor alimentício, especialmente de panificação, moagem ou ração animal, a hora de renegociar contratos com fornecedores argentinos é agora. O corte de imposto abre margem para negociação de preços mais baixos. Aproveite o momento para buscar novas parcerias ou reajustar contratos existentes.
Se você é investidor, acompanhe as ações de empresas brasileiras do setor de alimentos, como a J. Macêdo, a Marfrig e a BRF. A redução dos custos com matéria-prima pode melhorar as margens dessas companhias no segundo semestre de 2026.
Por fim, se você é produtor rural brasileiro, fique atento: a concorrência com o trigo argentino mais barato pode pressionar os preços internos. Planeje sua safra com cuidado e considere a possibilidade de buscar mercados alternativos, como o Nordeste brasileiro, que ainda importa trigo da Argentina.
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Tags: Milei, imposto exportação Argentina, preço do pão Brasil, trigo Argentina 2026, inflação Brasil
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
