Alvo do INSS fraudou R$6 bi e recebeu auxílio emergencial

Alvo do INSS fraudou R$6 bi e recebeu auxílio emergencial Reproducao / G1

Imagine receber auxílio emergencial do governo enquanto vive em uma mansão num dos condomínios mais caros do país. Foi exatamente isso que aconteceu com Américo Monte Júnior, dono da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), alvo principal da nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada nesta quarta-feira (27) pela Polícia Federal e Controladoria-Geral da União. Ele é acusado de liderar um esquema que desviou até R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS entre 2019 e 2024.

As investigações revelaram que entidades ligadas a Monte Júnior realizavam descontos mensais nos benefícios de milhões de brasileiros sem qualquer autorização. O escândalo, que já envolve deputados e senadores, é mais um capítulo de corrupção contra a população mais vulnerável — e a figura do empresário milionário que recebia auxílio emergencial expõe a fragilidade do sistema de controle.

A vida de luxo do alvo que recebia auxílio emergencial

Américo Monte Júnior não era um cidadão comum. Residente de Alphaville, em Santana de Parnaíba (SP), ele ostentava uma casa de alto padrão em um dos bairros mais nobres da Grande São Paulo. A região é conhecida por abrigar executivos, artistas e empresários. No entanto, durante a pandemia da Covid-19, quando milhões de brasileiros estavam sem renda, Monte Júnior teve acesso ao auxílio emergencial — benefício criado para os mais pobres.

Como isso foi possível? A resposta ainda está sob investigação, mas o caso reflete uma série de falhas no cadastro do programa. Enquanto muitos trabalhadores informais tiveram o auxílio negado, um empresário ligado a um esquema bilionário usufruiu do dinheiro público. O Ministro do STF André Mendonça determinou o monitoramento eletrônico dele, uma das medidas cautelares desta fase da operação.

Como a quadrilha desviava milhões dos aposentados

Imagem ilustrativa

O modus operandi do grupo era relativamente simples, mas devastador. Utilizando dados de segurados do INSS, as associações inscreviam aposentados e pensionistas como membros “fantasmas” e passavam a descontar valores diretamente de seus benefícios. O desconto mensal variava de alguns reais a dezenas de reais, e os segurados nem percebiam que estavam sendo cobrados indevidamente.

Segundo a PF e a CGU, o esquema funcionou de 2019 a 2024, período em que a digitalização dos serviços do INSS se acelerou — o que pode ter facilitado as fraudes. As associações envolvidas incluíam a Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), AmarMaster Prev, AASAP, ANDAPP e outras. Muitas delas tinham sedes fantasmas ou funcionavam apenas no papel, e os valores descontados iam para contas bancárias de laranjas.

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A nova etapa da operação cumpre 31 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Distrito Federal, Pernambuco e Paraíba, além de oito medidas de monitoramento eletrônico. As investigações também miram servidores e ex-servidores do INSS que teriam facilitado o acesso aos dados dos beneficiários.

Os nomes por trás da operação e o que eles faziam

A lista de alvos inclui empresários, operadores financeiros e até ex-diretores do INSS. Conheça cada um deles, conforme levantamento da TV Globo:

  • Gutemberg Tito de Souza – Apontado como articulador ligado às associações UNIBAP e ABENPREV, com atuação na gestão dessas entidades.
  • Zacarias Canuto Sobrinho – Também articulador, responsável pela administração das entidades investigadas.
  • Cleiton dos Santos Medeiros – Operador ou intermediário da estrutura financeira e operacional do grupo criminoso.
  • Daniel Gerber – Outro operador financeiro do esquema, envolvido na movimentação de dinheiro.
  • Alexandre Caetano – Integrante da estrutura operacional e financeira das organizações.
  • Carlos Henrique da Rocha Gonçalves – Intermediário que ligava as associações à parte financeira.
  • Américo Monte Júnior – O mentor, dono da ABCB e principal responsável pela estrutura das associações.
  • Felipe Macedo Gomes – Investigado por atuar na administração das entidades.
  • Igor Dias Delecrode – Envolvido na gestão cotidiana das associações.
  • Anderson Cordeiro de Vasconcelos – Apontado como um dos pilares estruturais do esquema.
  • Rogério Soares de Souza – Ex-integrante da diretoria do INSS e da Superintendência Regional do Nordeste, com ligação direta à ABAPEN.
  • Everaldo Felício de Macedo Junior – Ex-gerente executivo do INSS em Garanhuns, acusado de facilitar o acesso a dados de segurados.

Todos esses nomes são alvos de busca e apreensão, e muitos já estão usando tornozeleira eletrônica. A investigação aponta que cada um exercia uma função específica na engrenagem criminosa — do recrutamento de vítimas ao desvio do dinheiro.

Por que deputados e senadores entraram na mira

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Na primeira fase da Operação Sem Desconto, em abril, três parlamentares foram alvos de mandados de busca e apreensão: os deputados federais Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) e Gorete Pereira (MDB-CE), além do senador Weverton Rocha (PDT-MA). Eles negam qualquer envolvimento, mas a presença de políticos em um esquema que sangra os cofres da Previdência acende um sinal de alerta.

Não é a primeira vez que parlamentares aparecem em investigações de fraudes previdenciárias. O INSS, com seus mais de 30 milhões de benefícios ativos, é um alvo constante de organizações que buscam explorar brechas na legislação e no processo de concessão.

Na visão do MundoManchete, o envolvimento de políticos reforça a necessidade de uma reforma urgente nos sistemas de controle do INSS, com mais transparência e auditorias independentes. O fato de o esquema ter durado cinco anos sem ser detectado levanta dúvidas sobre a eficácia da fiscalização.

Quanto os descontos ilegais já levaram dos brasileiros

O prejuízo estimado chega a R$ 6,3 bilhões. Para se ter ideia, esse valor é maior do que o orçamento anual de muitas cidades brasileiras e equivale à renda média de mais de 1 milhão de aposentados.

As associações desviavam de R$ 5 a R$ 30 por mês de cada vítima. Multiplicado por milhões de segurados, o montante total é astronômico. Parte desse dinheiro era usada para financiar o estilo de vida luxuoso dos envolvidos, como a mansão de Américo Monte Júnior em Alphaville.

A revolta é ainda maior porque o dinheiro desviado poderia estar custeando medicamentos e alimentação de idosos que dependem exclusivamente do benefício. A operação tenta agora bloquear bens para garantir eventual ressarcimento, mas o caminho é longo e incerto.

O que acontece agora com os investigados e o INSS

Além do monitoramento eletrônico, a Justiça determinou o bloqueio de bens e valores em contas bancárias dos suspeitos. O objetivo é assegurar que, ao fim do processo, seja possível devolver o dinheiro aos cofres públicos. No entanto, a experiência mostra que recuperar recursos de fraudes assim é extremamente difícil.

O INSS também se comprometeu a revisar os protocolos de segurança. Uma das mudanças discutidas é a exigência de biometria para autorizar qualquer desconto em folha, impedindo que associações falsas se aproveitem da boa-fé dos segurados.

Enquanto isso, os 31 mandados de busca e apreensão devem render novos elementos, como computadores, documentos e contratos falsos. A PF e a CGU acreditam que a rede de fraudes pode ser ainda maior do que se imaginava, envolvendo outros estados e associações de fachada.

FAQ: Perguntas que todo aposentado deve fazer

Como sei se estou sendo vítima de descontos indevidos no meu benefício?

A maneira mais simples é acessar o aplicativo ou site Meu INSS e verificar o extrato mensal do seu benefício. Lá constam todos os descontos autorizados e não autorizados. Caso encontre alguma cobrança de associação que você não reconhece, é sinal de que pode ser uma fraude. Anote o nome da entidade e o valor descontado.

Para quem devo denunciar a cobrança irregular?

Você pode registrar a denúncia no próprio INSS, pelo telefone 135, ou procurar uma agência da Previdência Social. Também é possível acionar a Polícia Federal, que investiga crimes contra o sistema previdenciário, e o Ministério Público Federal. Guarde todos os comprovantes de pagamento e desconto.

Os aposentados que perderam dinheiro terão o valor de volta?

Existe esperança, especialmente porque a Justiça já bloqueou bens dos investigados. Porém, a restituição integral depende do sucesso da ação penal e da venda dos ativos apreendidos. O processo é demorado, mas está em andamento. O importante é que cada vítima faça a denúncia para entrar na lista de prejudicados.

O que você deve fazer para proteger sua aposentadoria a partir de agora

Diante desse cenário alarmante, todo aposentado ou pensionista do INSS deve adotar alguns cuidados básicos:

  1. Monitore seu extrato mensalmente: Seja no aplicativo Meu INSS ou no banco, verifique todos os descontos e confirme se são autorizados.
  2. Nunca compartilhe dados pessoais por telefone ou internet sem confirmar a fonte: Golpistas usam ligações falsas para obter informações.
  3. Ative a autenticação em duas etapas no Meu INSS, se disponível.
  4. Desconfie de promessas de vantagens ou descontos que exigem “adesão automática”.
  5. Em caso de dúvida, procure uma agência do INSS presencialmente para esclarecimentos.

Na visão do MundoManchete, a Operação Sem Desconto expõe uma chaga que precisa ser extirpada. Mas também mostra que a informação é a melhor defesa do cidadão. Fique atento, faça sua parte e ajude a pressionar por um INSS mais seguro para todos.

Tags: Operação Sem Desconto, INSS, fraude previdenciária, Américo Monte Júnior, STF

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Foto: Reproducao / G1